Um caso emblemático e complexo: Lorena Bobbitt

O nome de Lorena Bobbitt dá calafrio nos homens, quase que uma personagem de filme de terror, só que real. A ex-manicure equatoriana, hoje americana, teve um impacto significativo na cultura pop mundial devido ao incidente altamente divulgado em 1993, quando ela mutilou o pênis de seu então marido, John Wayne Bobbitt. Num crime bizarro, absurdo e polêmico, Lorena dividiu homens e mulheres, e, mesmo 31 anos depois, é impactante.

Lorena sempre alegou que seu ataque – quando John estava bêbado e apagado na cama – foi em resposta a anos de abuso doméstico e sexual. A cultura machista inquestionável da época colocava em dúvida sua motivação, tentando desenhá-la como calculista e cruel. O evento chocante capturou a atenção da mídia e do público, gerando debates sobre violência doméstica, direitos das mulheres e a forma como a sociedade lida com esses temas.

Por alguma razão tola, deixei de ver em 2023 o documentário produzido por Jordan Peele sobre o caso, Lorena, que está na Amazon Prime Video. Se ainda não viu, confira. É muito importante e chocante.

Quem era Lorena?

Dividido em quatro episódios, Lorena não apenas conta com a passagem do tempo, que permite avaliar os argumentos dos dois lados e opinar – finalmente – qual tem razão, conta com os depoimentos atuais do ex-casal, assim como inclui imagens de arquivo, fotos muito gráficas do crime (se prepare!) e depoimentos de jurados, detetives, amigos e oponentes. É completo.

Lorena Gallo era uma jovem nascida no Ecuador e que estava determinada em imigrar para os Estados Unidos. Quando estava vivendo na casa de sua tia, ela conheceu o ex-fuzileiro naval John Wayne Bobbitt e se apaixonou, se casando com ele em junho de 1989. O que parecia um conto de fadas logo se tornou pesadelo: John não tinha estabilidade em nenhum trabalho, bebia muito e abusava psicologicamente e fisicamente da esposa, que sustentava a casa e vivia com medo dele, incluindo o de perder sua documentação e ser deportada.

Os registros policiais e os testemunhos de vizinhos – incluindo homens – sustentam o relato de Lorena sobre os anos de agressões e violência doméstica, incluindo os estupros dos quais John se orgulhava e comentava com quem quisesse ouvir. Ainda assim, ela seguia com ele e sem ajuda da polícia ou da Justiça.

Na noite de 23 de junho de 1993, em um momento que até hoje gera discussão, Lorena cortou o pênis de John e fugiu com o apêndice na mão. Segundo contou, ele a tinha estuprado mais uma vez e depois que ele foi dormir, completamente transtornada, foi até a cozinha beber água para se acalmar, mas instintivamente pegou uma faca Ginsu de 20 centímetros, voltou para o quarto, puxou os lençóis e cortou o pênis dele.

Enquanto dirigia, Lorena teve dificuldade de conduzir com uma mão e jogou o pênis pela janela em um campo à beira da estrada. Só aí finalmente parou e ligou para o 9-1-1, confessando o crime e avisando onde o pênis poderia ser encontrado. A essa altura John já estava no hospital e os policiais faziam uma busca contra o tempo no apartamento e no lixo do prédio. O membro foi reimplantado com sucesso e como era de se esperar, uma vez que os jornais souberam da história, virou notícia mundial.

O documentário cobre todos os lados da história, mas como é de se esperar, na época a cobertura misógina traçou um perfil de Lorena que até hoje encontra acusadores, mesmo que a vida posterior ao crime tenha mantido o perfil violento de John com outras mulheres. Tudo porque, como as feministas defenderam, Lorena fez literalmente o que muitas mulheres sonham metaforicamente, que é cortar o membro que sempre dá poder aos homens.

Lorena e John Wayne Bobbitt se divorciaram em 1995. A Justiça o inocentou dos abusos, mas tampouco condenou Lorena pela agressão ao ex-marido. Ela foi absolvida de agressão por motivo de insanidade, ficou internada 45 dias em um Hospital Psiquiátrico e depois que saiu, se casou, foi mãe e passou a trabalhar com vítimas de violência doméstica. Já John, virou astro de filme pornô, teve problemas com drogas e álcool, além de ter acumulado registros de graves alegações de abuso e algumas condenações criminais. No documentário, pasmem, mente descaradamente e ainda fala em reconciliação com Lorena. Por dinheiro, claro.

Impactos na Cultura Pop

O incidente recebeu cobertura massiva da mídia, com detalhes gráficos e sensacionalistas que mantiveram o público fascinado. Programas de televisão, jornais e revistas exploraram o caso exaustivamente, transformando-o em um fenômeno de mídia, mas o caso de Lorena Bobbitt também trouxe à tona discussões importantes sobre violência doméstica e abuso sexual. Muitas pessoas começaram a prestar mais atenção à gravidade desses problemas e à necessidade de apoiar as vítimas.

Infelizmente, o incidente foi amplamente satirizado e referenciado em programas de comédia, filmes, músicas e outros meios de comunicação, especialmente nos anos 1990s. Depois da virada do século, foi reduzindo como piada, mas nunca foi esquecido. Décadas depois do incidente, o caso continuou a ser um tópico de interesse.

Dentre os vários documentários sobre o caso, Lorena é o que oferece a perspectiva mais profunda e empática sobre a experiência de Lorena e o impacto duradouro do caso, com isenção e transparência. Lorena Bobbitt pode ter iniciado essa jornada sendo tratada como vilã por muitos, mas com o tempo, e à medida que mais detalhes sobre o abuso que ela sofria vieram à tona, a compreensão e a simpatia por sua situação aumentaram. Ela hoje simboliza muito mais do que a mulher que cortou o pênis do marido. Vale e precisa ser conferido.


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