A “satisfação” da Rainha Serpente: uma trilha sonora perfeita

Uma das coisas que sempre mais elogio em The Serpent Queen é o uso preciso e inteligente de sua trilha sonora. A escolha de MULHERES e ROCK reflete a natureza rebelde de nossa anti-heroína, Catarina de Médici (Samantha Morton).

A seleção da primeira temporada foi ultra interessante e tenho a playlist pronta. Claro que será atualizada. E agora que retomamos a série, a fórmula se manteve e promete manter a qualidade na estratosfera. No primeiro episódio os créditos são de ninguém menos que a controversa Cat Power e sua versão emotiva de (I Can’t Get No) Satisfaction, dos Rolling Stones. Sim, uma escolha perfeita! Vejamos a razão.


Um dos maiores sucessos da banda ainda na ativa, (I Can’t Get No) Satisfaction foi lançado em agosto de 1965 e a semente veio de um show na primeira turnê da banda nos Estados Unidos, onde cerca de 200 jovens fãs brigaram com uma fila de policiais no show da Florida. O caos foi tanto que os músicos só conseguiram tocar quatro canções e tiveram que ser retirados do palco para saírem com segurança.

Mais tarde, no hotel, Keith Richards compôs o riff e o refrão, irritado com o que testemunhou. Mick Jagger completou a letra com todo o resto. Para eles, a canção não tem nada sexual, como muitos poderiam inicialmente imaginar se não prestarem atenção: é uma crítica à falsidade, à hipocrisia da sociedade. Como ele mais tarde explicou, é sobre busca de autenticidade e como é difícil encontrá-la em um mundo comercializado.

E foi essa essência que levou Cat Power, uma roqueira ímpar que deu à sua versão maior destaque ao fato de que é sobre o sentimento generalizado de descontentamento e frustração que caracteriza a vida moderna.

Para quem não conhece a cantora, ela assina como Cat Power, mas seu nome é Charlyn Marie “Chan” Marshall e está na estrada desde os anos 1990. (I Can’t Get No) Satisfaction está no seu álbum de maior sucesso, The Covers Record , de 2000. Sua música é em geral uma mescla de punk, folk e blues, sendo que a artista é muito franca e vocal sobre seus problemas com bebida, drogas e saúde mental.

(I Can’t Get No) Satisfaction traz o narrador dirigindo seu carro, bombardeado por anúncios de rádio com produtos superficiais que refletem a presença esmagadora da cultura do consumo. Por isso, nada material traz a verdadeira satisfação. Na segunda parte, a TV é a mesma coisa, por isso passa a refletir sobre os critérios superficiais pelos quais as pessoas são julgadas, assim como o consumo desenfreado reforça o vazio existencial. Na parte final o protagonista viaja o mundo e se sente derrotado porque a luta é inglória e espalhada. Por isso a versão melancólica e introspectiva de Cat Power é considerada uma das melhores versões da canção.

A perfeição da canção em The Serpent Queen é para reforçar as forças religiosas opostas e igualmente hipocritas, representadas pelos irmãos Bourbons e Guise. Para que voltem a ter Poder eles estão prontos a sacrificar a França.

Ironicamente, Catarina de Médici, uma católica devota, entrou para a História como a sanguinária que massacrou milhares de huguenotes (protestantes) por sua Fé no Catolicismo, mas, a série não erra em destacar que ela aparentemente genuinamente tentou e conseguiu manter a tolerância por 10 anos, o que faz muitos questionarem sua mudança tão radical que é o coração da segunda temporada. Pelo menos na ficção, tudo que ela fizer será em consequência de ações de homens ambiciosos, não necessariamente uma iniciativa pessoal.

Portanto, fechar com (I Can’t Get No) Satisfaction é brilhante porque é justamente o que Catarina tem como obstaculo: a hipocrisia, a ambição e nunca, nunca, um momento em que possa estar satisfeita. O bote da serpente será fatal.


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