Se andar lendo MiscelAnas sei que posso dar a impressão de que tenho restrições ao sucesso absurdo da série The Bear, cuja terceira temporada chegou ao Brasil com um mês de atraso e que agora só pode ser vista na plataforma unificada da Disney Plus. Não é verdade. Eu AMO The Bear e se fosse crítica do Michelin como sou de TV e Cinema, daria 10 estrelas sem sequer ter dado uma única garfada verdadeira. A série coqueluche dos últimos dois anos é uma receita (quase) perfeita de um estudo sobre saúde mental assim como é sobre gastronomia. Um prato cheio para fãs de conteúdo inteligente e instigante se deliciar. Só não é comédia, nem dramática ou qualquer outra referência. É um dos dramas mais precisos dos últimos anos na TV.

Batendo recordes em um ano de menor concorrência e na categoria errada, The Bear vem navegando na frágil e complexa saúde mental do chef Carmy Berzatto(Jeremy Allen White), um talentoso cozinheiro que saiu de Chicago e ganhou o mundo, tendo conseguido uma estrela do Michelin em Nova York, mas sendo obrigado à voltar para casa (na 1ª temporada) após o suicídio do irmão mais velho. Carmy, cheio de problemas e ansiedade ele mesmo, tem que lidar com a dor da perda e herdar os negócios mal administrados e confusos da lanchonete que o irmão deixou pra trás.
Nessa primeira etapa o que fica óbvio é que o motor de todas as relações pessoais e profissionais da família Berzatto é tóxico, mas ainda assim irresistível. Que o diga Sydney Adamu (Ayo Edebiri), fã de Carmy e atual parceira de cozinha dele.
A segunda temporada mostrou um Carmy intenso, mas pelo menos apaixonado, empenhado em transformar o pulgueiro que era a lanchonete da família em um restaurante de luxo. Foi uma temporada menos focada nele, trazendo chefs fictícios e verdadeiros em um desfile de pratos e bebidas que torna impossível assistir sem ter fome. Acompanhamos as vidas e as transformações da equipe e das pessoas ao redor de Carmy, assim como deparamos com o furacão materno e desesperador que é Donna (Jamie Lee Curtis). E sim, na noite mais importante para o restaurante Carmy fica preso no congelador, lidando com seus demônios internos e destruindo a única coisa positiva em sua vida.


E é imediatamente após essa turbulenta despedida que encontramos Carmy mais neurótico do que nunca, obcecado por conseguir sua segunda estrela em tempo recorde, agora alucinando e alienando a todos que o cercam.
A terceira temporada deixa clara algumas receitas básicas de The Bear: diálogos atropelados na escola de Robert Altman, uma trilha sonora espetacular, mas o uso de música ininterrupta em todas as cenas. Esses ingredientes são usados sem moderação, numa panela de narrativa não linear que aos poucos vai fazendo sentido e termina em um prato perfeito: na aparência e paladar.
Dito isso, também tem dado mais espaço para ainda outras personagens cuja trajetória desconhecíamos, como a linda história de Tina (Liza Colón-Zayas), em um dos melhores episódios da temporada, dirigido por ninguém menos do que Ayo Edbiri. Porém, mesmo que divertidos, os irmãos Neil (Matty Matheson) e Theo Fak ( Ricky Staffieri), com a ponta de John Cena como Sammy tenham ganhado voz como se fosse para justificar o fato de que esse melodrama tem sido classificado como comédia, sem ser. Ficou forçado.

Contar em detalhes como é a jornada de cada um é estragar muito a surpresa, em The Bear cada cena precisa ser surpresa para ser apreciada. Falarei mais em detalhes à frente, para evitar os spoilers. Terminamos, como sempre, com um nó no estômago, com a faca no pescoço e angustiados para saber como os nós serão desatados. Tenho minhas teorias. Por hora, recomendo consumo imediato de The Bear!
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