Minha sessão problemática com personagens femininas ganhou uma nova membro, uma que protelei mas que não consegui excluir: Sydney Adamu (Ayo Edebiri), em O Urso. A jovem e talentosa sous chef entrou na vida de Carmen “Carmy” Berzatto (Jeremy Allen White) como fã, depois braço direito e agora pode ser sócia (se assinar o contrato), mas ela está perenemente insatisfeita. Que irritante!

Uma jovem filha única e determinada
A estrela de O Urso é o incontestavelmente quebrado e talentoso chef Carmy Berzatto, o ídolo da jovem Sydney, filha única de imigrantes nigerianos e criada cercada de amor, carinho e apoio ininterrupto de seus pais, na verdade de seu pai (a mãe faleceu), o que a faz literalmente o oposto do chef, um homem criado em uma família disfuncional, num universo sem figura paterna e uma mãe bipolar.
Syd tem empatia e paciência infinita com o conturbado Carmy, porque é sua fã e quer ser igual a ele: uma chef premiada e famosa. Como vem de uma estrutura emocional saudável, ela não considera que o caminho da excelência venha através da dor e relações fraturadas, como faz Carmy, mas que faça parte de um cenário organizado, empático e focado. Seria yin e yang nas telas, mas tem seus desafinos.
A conhecemos na 1ª temporada meio stalker, meio tiete e meio ambiciosa, quando vem procurar Carmy e acaba conseguindo um emprego. Não seria um sonho? Uma chef inexperiente aprender diretamente de outro premiado com Michelin? De alguma forma, nunca pareceu suficiente.
Aos poucos vamos vendo que Sydney sempre foi fã de culinária e que embora viesse de família simples, teve o apoio para estudar no Culinary Institute of America e investir no seu sonho de ser Chef, pagando por seus estudos com dificuldade.
A família Berzatto entrou na sua vida desde cedo porque o ‘The Beef” era o lugar favorito de seu pai, que a levava todos os domingos e na terceira temporada, talvez já seguindo os passos de Carmy por curiosidade, a vida dela mudou quando comeu os pratos criados por ele em um restaurante de luxo. Estou falando, Syd é uma stalker! Mas O Urso não a apresenta assim.
Depois de terminar seus estudos, Sydney chegou a abrir seu próprio negócio de catering chamado ‘Sheridan Road’, que ela administrava em sua garagem, mas não deu certo por vários motivos, que ela simplifica argumentando que ficou “grande demais e rápido demais”. A falha, sempre na visão dela, é dos outros e não a sua indecisão e inveja alheia.

Syd seguiu também com treinamento formal e trabalho em restaurantes sofisticados, o que a colocou com uma vivência, apesar de jovem, acima do resto da equipe que Carmy herdou com o “The Beef”, algo que Carmy apreciou, reconhece e depende para poder realizar seu próprio sonho.
Se o Chef gostou dela de cara, não foi a mesma coisa com o resto da cozinha que resistiu à Syd até que se ajustassem ao estilo quieto dela, mas mais equilibrado do que o de Carmy. Hoje eles a seguem com maior carinho e respeito até do que o do verdadeiro talento do negócio, um yin e yang desequilibrado. E aqui começa meu problema com Syd. Ela é ciente da complexa e conturbada personalidade de Carmy, e ela o desestabiliza justamente onde menos espera: roubando a liderança ao se vitimizar.
Carmy é fruto de abusos emocionais e assédio moral em casa e no trabalho, tenta ao máximo se controlar e ao mesmo tempo é extremamente generoso, ensinando excelência à um grupo de cozinheiros de lanchonete para virarem profissionais de ponta, mas essa transição é dolorida para todos, que não consideram o fato que ele está arriscando muito mais ao apostar neles do que eles toparem o desafio de Carmy. E é Syd que ressalta os defeitos pessoais do Chef ao defender as qualidades empáticas dela. A pressão em cima de Carmy é infinitamente maior do que a que está nos ombros dela, mas tão narcisista quanto ele, Syd só aponta o dedo para uma pessoa claramente à beira de um burnout. Acho Syd uma pessoa cruel.
Descricta como ambiciosa, inteligente e dedicada ao seu ofício, ela tem como mérito tentar manter um ambiente de trabalho respeitoso, desfazendo a escola tóxica na qual Carmy precisou sobreviver e que acaba repetindo, mesmo sem querer. Enquanto Carmy – de novo, generosamente – abre portas para todos de seu time, Syd “rouba” esse protagonismo ao ser a mãe que não tem com todos, mais carinhosa e incentivadora a atingirem todo o seu potencial com carinho e tempo. Tudo certo e louvável, mas sem destacar as qualidades de Carmy, só entrando para contrastar, me faz ver Syd como uma espécie de Eve Harrington de A Malvada (All About Eve). No fundo o que ela quer é suplantar seu ídolo, mas tirando dele tudo até a última gota.
Sem surpresa ela foi descrita como “incrivelmente inteligente e incrivelmente talentosa”, bem como ‘incrivelmente impaciente e incrivelmente verde.’ Impaciência disfarçada como empatia: essa é Sydney Adamo.

Syd é apaixonada por cozinhar e trabalhadora, tem uma habilidade de lidar com crises e superá-las como poucos, mas o calcanhar de Aquiles dela é a Inveja. Sim, ela quer e julga já estar de igual com Carmy, um chef que já tem uma estrela Michelin no curriculum, além de ter trabalhado em restaurantes e chefs igualmente premiados, portanto se ofendendo quando ele troca suas criações ou as substitui por suas próprias. Oi?
Gente, pelo timeline Syd está com os Berzattos há menos de um ano, já entrou como sous chef, está com um contrato que a faz de sócia do The Bear e ainda assim ela se sente desprestigiada, humilhada e ignorada. Não há nada condescendente na atitude de Carmy, que está obviamente cheia de falhas mas a única que não existe é a de não apreciar Syd. Claro, Carmy transferiu para ela todas as funções administrativas e gerenciais que ele detesta, portanto as tarefas tiveram pouco apoio emocional ou efetivo do lado dele, mas ela prosperou, mesmo que ressentida.
Quem compartilhava das minhas suspeitas de Syd era o irritante Richie (Ebon Moss-Bachrach), mas ele tinha uma insegurança maior de ter “perdido” sua posição para ela. Em meio ao caos tóxico do The Beef ela chega a desistir, mas volta justamente quando Carmy resolve abrir o The Bear.
Se na 1ª temporada, Syd se sentisse como um peixe fora d’água com o resto da equipe, e luta para criar uma atmosfera profissional não abusiva, na 2ª entra no The Bear ativamente envolvida no desenvolvimento do restaurante The Bear e – ao lado de Carmy, não abaixo – trabalha na criação do cardápio. Porém é aqui que tudo começa a desandar. Porque fica ela chateada ao saber que Carmy tem tomado decisões sem consultá-la. Pior ainda, ela se ofende com o fato de que Carmy está apaixonado e escuta as dicas da namorada, sem considerar as dela. Sim, a gente está ignorando que parte do rompimento de Carmy com Claire (Molly Gordon) tem uma boa pitada do veneno de Syd no ouvido dele também.
E agora, na 3ª temporada, com um Carmy se corroendo de culpa e sem Claire, Syd se ressente porque o chef volta a ser obsessivo e perfeccionista, fazendo sozinho o que faz melhor: criar. Claro que a proposta era dividir as criações, mas também é obvio que no timeline Syd saiu de uma ninguém para sócia de um Chef famoso e respeitado, ainda há uma estrada de aprendizado à sua frente. Em vez de abraçar a chance de vê-lo criando, ela se ofende. E mais: por conta das chances que tem ao lado de Carmy recebe um convite de deixá-lo e ser a Chef de um concorrente, algo que aparentemente está levando em consideração.

A minha teoria é que Syd vai aceitar o desafio de sair e a quarta temporada à trará entendendo mais Carmy do que ela anteciparia e ele, claro, sentindo sua falta na cozinha do The Bear. O que é mais arriscado é que mais do que deixar Carmy, Syd acabe levando a equipe com ela também. Claro que a série quer nos fazer entender que é Carmy quem está minando a liderança de Sydney em sua busca pela perfeição, mas não vejo assim.
Syd se sente desvalorizada e menosprezada, quando nem de perto é o que está acontecendo. E ela, por conta de sua parceria com ele, pode fazer seu nome no mundo culinário e sair da sombra de seu mentor. Essa parte é natural da vida, ela não deve à Carmy abrir mão de suas chances, mas não gosto que ambição pessoal seja disfarçada como consequência das falhas da personalidade de outros. Não queria que ESSE fosse o dilema da personagem e assim criasse meu problema com ela. Carmy é um gênio, Sydney é um talento. Há diferença nesse entendimento.
Dito tudo isso, a terceira temporada foi maravilhosa para Ayo Edebiri, que brilhou como atriz e mais ainda como diretora, sendo seu o mais sensível e emocionante episódio da temporada. Espero superar meus problemas com Sydney em breve. Estou sendo muito dura com ela?
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