Os fantasmas do passado desenhando o presente de Westeros

Qualquer psicólogo vai explicar que eventos traumáticos na infância marcam para a sempre as personalidades de cada um, independentemente de casta social: seja elite ou povão. Tudo que vivemos nesse período determinam toda nossa dinâmica de relacionamentos, e quem sofreu abusos, pode ter dificuldade em confiar nos outros, passando a ser um adulto inseguro. Pior ainda, frequentemente mesmo que inconscientemente, podem recriar padrões disfuncionais de relacionamento que replicam as dinâmicas traumáticas do passado. Ou seja: todos de House of the Dragon. E é o que a terceira temporada ressalta em todos os relacionamentos, mais claramente ainda, no antepenúltimo episódio da temporada.

O Pesadelo de Daemon

Vamos tirar um mito da frente? Alys Rivers não é um fantasma, é uma mulher esquisita e com muitos poderes, mas de carne e osso. No tratamento à base de LSD que está aplicando em Daemon, ela o fez resolver intensamente suas culpas e frustrações, deixando para o final a única pessoa que amou e que de alguma forma queria bem: seu irmão, Viserys.

Daemon, como Rhaenyra mais tarde explica à Mysaria, queria ter tudo que a esposa-sobrinha teve: o amor incondicional de Viserys. Aliás, como analisei várias vezes aqui, é o mesmo problema de Alicent, que queria ter o que a princesa tinha e não era a Coroa, mas o carinho e amor dos pais. Rhaenyra, por outro lado – e chegaremos lá – queria a liberdade e respeito reservados para os homens, quem a culpa?

Depois de semanas (ou meses?) preso no inferno que é Harrenhall, Daemon implora à Alys para acabar com as sessões noturnas terapêuticas e uma ajuda para acabar com a novela e ter logo seus exércitos. Não diga mais nada, a coruja/bruxa vai resolver tudo, ela garante. E cumpre sua palavra.

Pelo trailer do próximo episódio, Daemon ainda terá que lidar com a administração de conflitos, o que não é seu forte, mas depois das viagens internas de seu inconsciente está mais fortalecido emocionalmente, eu pelo menos não duvido.

E os homens de Westeros sofrem mesmo de problemas com a mamãe: quando sair Daemon e entrar Aemond a fantasia de transar com a figura materna pode ser repetida, só que nesse caso Alys fará o papel de Alicent para o Príncipe Regente dos Verdes.

Eu adorei que Larys diz a Aegon II que foi uma mulher que o amaldiçoou com os pés tortos, deixando claro que ele conheceu Alys – tecnicamente sua meia-irmã – e por isso nem mexeu um dedo para impedir que Daemon tomasse o castelo. Ele sabia o que o esperava. Igualmente depois do que ouviu de Aemond, vai rir e incentivar o príncipe a ir para uma temporada por lá também. Eu tive a cola do livro, claro, mas NUNCA subestimei Larys, e todos que o fizerem se arrependerão. Amo isso.

Larys, o subestimado

E já que estamos falando em Larys, vamos à ele. Depois que foi trocado por Ser Criston Cole na intimidade de Alicent, Larys estava conseguindo seu espaço com Aegon, mas Rook’s Nest o fez dar uns passos atrás. Ele bem que fez sua tentativa com Aemond, mas esse pode ter pedido um olho fisicamente só que enxerga tudo e a todos como se tivesse Raio X no que restou.

Ele saca o lance de sua mãe com Rhaenyra, com Criston Cole (na verdade, TODOS já perceberam o romance) e obviamente viu de longe a estratégia de Larys, que foi quem conseguiu fazer que Ser Otto fosse demitido da função de Mão do Rei pela segunda vez. E deixa claro sendo abusivo em sua fala com o Mestre dos Suspiros cuja vingança é imediata.

Em uma das melhores cenas da temporada e até da série até o momento, Larys força a um desesperado Aegon a lidar com a dor física, moral e psicológica depois de Rooks Nest. Larys percebeu que o ataque ao Rei não veio de Meleys ou de Rhaenys, mas de Aemond. Essa verdade acabou com o tão valente Ser Criston Cole, que ficou apagado, mas dá uma vantagem à Larys. Ele confessa a Aegon que se identifica com o Rei na forma atual: um homem deformado que será isolado e ignorado. Porém, ser subestimado dá a chance de planejar a vingança e Larys vai ajudá-lo, afinal Aemond pode matá-lo a qualquer momento e por isso, mesmo com a dor indescritível, Aegon precisa estar consciente. Essa aliança formada sem testemunhas que possam impedi-la é a mais mortal de toda saga de House of the Dragon. “Quem sabe, sabe”.

O que o diálogo entre Aegon e Larys também confirma é que Aemond deliberadamente atacou o irmão para matá-lo e pegar a Coroa, e só não terminou o trabalho porque Ser Criston o impediu. Duas dúvidas solucionadas em minutos e na voz de Larys!

Alicent: karma não perdoa

Tudo que Alicent fez até o momento tá voltando em doses cavalares de decepção: os filhos a detestam ou ignoram, são todos loucos e sociopatas. Seu amante a abandonou assim que foi promovido, nem desconfia de que ela abortou seu filho. Há um tarado ainda à sua espreita, e todos os homens do Conselho, seguindo o tom de Aemond, agora não apenas a desprezam como a humilham a ponto de discutirem no casá-la com um pirata para resolver o problema do bloqueio dos pretos à King’s Landing. Para fechar a sessão, é “demitida” pelo filho. Tá fácil não!

E se parasse por aí! Nem rezar Alicent consegue fazer em Paz, porque é atacada pelo povo faminto e escapando por pouco com vida da multidão. Quando volta para O Red Keep esbarra com o namorado e o irmão partindo para mais uma batalha e nem consegue ter uma despedida decente. Cole está à caminho de Harrenhal e Aemond só se juntará a eles “quando chegar a hora”.



Gwayne a última conversa dos amantes, mesmo que o papo com a irmã seja carinhoso: ele fala que tinha ciúmes dela ter sido escolhida pelo pai de viver em King’s Landing emquanto teve que ficar sozinho em Oldtown, mas a defende dizendo que “fez o melhor que pode com o que teve”, o que me parece ser dizer que poderia ter sido melhor, mas mais uma vez é um querendo ter o que o outro teve e concluir que ninguém é feliz.

A importância dessa conversa, no entanto, é para destacar o filho ignorado na 1ª temporada, Daeron, que será importante na próxima. Não simpatizo ou empatizo com Alicent Hightower, adoro cada bordoada que recebe: foi péssima mãe, filha, amiga, esposa, Rainha ou amante. Uma mulher que só faz bobagem.

Podemos desistir de Nettles?

A personagem Nettles seria essencial para a história de Daemon, mas aparentemente House of the Dragon vai ceder sua trajetória à Rhaena, filha dele. Se for confirmado, eu estou no time que considera isso uma perda importante.

No livro, há um corrente que defende que Nettles é filha de Daemon, mas a mais convincente a apresenta como a única que realmente domaria o coração do Príncipe Rebelde. Essa relação incomodaria Rhaenyra, alimentada por Mysaria, mas a ver como a tratarão. Ainda sobre Nettles, ela domaria o dragão selvagem chamado Sheepstealer e ela luta ao lado de Daemon. Se for mesmo Rhaena, talvez ela esconda sua identidade de alguma forma e por isso o que é relatado no livro é “ficção” histórica e a série será a verdadeira história. Como Nettles não apareceu enquanto Ulf, o Branco, Hugh Hammer, Alyn e Addam of Hull foram, fica meio obvio, porém, depois de Daeron, quem sabe?

Mysaria e Rhaenyra: “Rhaenaria”?

Na 1ª temporada muitos alegavam que Alicent e Rhaenyra viviam algo a mais do que amizade, o que foi negado na 2ª, mas a série decidiu apimetar e aproximar Mysaria e Rhaenyra a ponto de trocarem beijos e carícias depois de abrirem o coração uma para a outra. Nesse caso, a “ousadia” faz sentido.

As duas mulheres se entenderam com franqueza e mágoa por Daemon, com Rhaenyra salvando a vida de Mysaria e dando sua liberdade, para ser paga com a mesma moeda quando a ex-prostituta a salva imediatamente de volta.

Desde então Mysaria fica pelos cantos observando e ganhando acesso à Rhaenyra, sendo transformada em sua Mestre dos Sussurros. Mysaria estabelece e executa o plano bem-sucedido de enviar comida aos habitantes de King’s Landing, como uma tática de cerco benéfica que funciona perfeitamente.

O problema é que Rhaenyra segue sendo colocada em seu lugar, mesmo que ele seja o Trono. Por seu mulher (e Rainha), não pode fazer nada pessoalmente e não tem o respeito dos homens mais velhos do Conselho. Mysaria sabe ouvir e falar com Rhaenyra, que está carente e isolada, compartilhando sua história de vida triste para criar mais uma conexão com a Rainha. As duas tem um momento romântico que começa com um abraço e se transforma em um toque cauteloso antes de virar um beijo apaixonado, interrompido com a notícia de que depois da tentativa frustrada de dar o dragão Seasmoke para Sor Steffon Darklyn, há um novo cavaleiro montando a besta. É Addam, o filho bastardo de Ser Corlys Velaryon (mas que Rhaenyra desconhece).

Mais cedo vimos que Addam tem ciúmes de seu irmão mais velho, Alyn, a quem a Serpente do Mar pediu para ser seu contramestre portanto ser escolhido pelo dragão, e não o contrário, é muito importante. E Rhaenyra vai confrontá-lo pata saber mais de que lado está. Começamos a ver a Rhaenyra paranóica?

Então…

Foi um ótimo episódio e com uma sensação de saudade antecipada. Vimos os foreshadows dos destinos de Aegon III e Viserys II, com a menção do navio que os levará à Pentos, o que me faz doer o coração. Todos gritaram que o dragão está muito bebê, mas a ver como vão solucionar.

Eu só acho que o luto em House of the Dragon é inexistente e de ambos os lados. Até entendo que os Verdes não se importem com Viserys, mas Helaena parece estar no seu “normal” mesmo tendo testemunhado a decapitação de seu primogênito. Inclusive dizendo que não pode se comparar às mães dos smallfolks. Não concordo com ela…

E Rhaenyra? Que abortou uma filha, perdeu um filho crescido, foi usurpada, perdeu o pai, não sabe onde está o marido e fica pensando na fome das pessoas e como ser boba Rainha? Sem surpresa a morte de Rhaenys foi apenas um por acaso. Nem Corlys está mais com cara de arrasado… Se Cersei estivesse por perto já tinha explodido todo mundo (com fogo verde). Queimem todos!


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