A dois episódios do final da segunda temporada de House of the Dragon podemos considerar que poucos segredos “válidos” vazaram antes da série ir ao ar, o que é bem louvável hoje em dia. Como essa parte da história está completa no livro, diferentemente de Game of Thrones, por exemplo, não chega a ser surpresa que saibamos tanto sobre o que vai acontecer, o bacana tem sido acompanhar “como” no ar as coisa acontecem. Até agora, tem sido muito interessante.
Claro que há o time dos puristas, que sempre consideram as alterações inconsistentes, outros que não sabiam porque não leram os livros e um grupo pequeno tem apreciado algumas coisas, criticando outras. Boa parte das alterações confirmam desconfianças do livro onde havia espaço para isso, mas, as que alteram completamente nossa percepção – exemplo máximo foi a morte de Lucaerys no final da 1ª temporada – têm gerado discussões.

O que dizer então do beijo entre Rhaenyra e Mysaria? Essa informação, que não consta em Fogo & Sangue, foi vazada horas antes do episódio ir ai ar, levando as redes sociais à loucura. Igualmente o romance entre Ser Criston Cole e Alicent Hightower dividiu fãs.


Pois é, poderíamos nos estender nesses fatos, mas o que está gerando discussão por hora é a informação de que Rhaenyra e seu primogênito, Jacaerys, vão brigar feio e que ele, ao lado de Ser Colys Velaryon, vai começar uma articulação de usurpar a Coroa ou deliberadamente isolar sua mãe para que os homens governem de verdade em seu nome. Vamos tentar discutir essa possibilidade muito verdadeira?
A origem e o que é primogenitura
A tecla da misoginia que não aceita líderes mulheres – infelizmente – não é ficção, mas aqui em House of the Dragon obviamente estamos falando de um universo de fantasia. E, em mais de 100 anos de domínio da dinastia Targaryen em Westeros, mesmo com figuras femininas de destaque ao longo do tempo, a Coroa segue a linha da Primogenitura Cognática, que determina que o filho homem mais velho herde o trono. A linhagem, portanto, como consequência, segue sempre essa regra e a ordem de descendência vem dos homens, com os filhos mais velhos e seus herdeiros antes dos filhos mais novos.
O relato mais antigo de primogenitura vem do Velho Testamento (Esaú e Jacó, filhos de Isaac), mas como George R. R. Martin coloca sua trama em uma espécie de espelho da Idade Média, vale lembrar que naquele tempo a lei da primogenitura era aplicada porque o sistema feudal exigia que as propriedades dos senhores feudais proprietários de terras fossem mantidas tão unidas quanto possível, para manter a estabilidade social, bem como a riqueza e o poder e a posição social das famílias e do Rei.
Diante disso, houve uma obsessão pelo filho homem e essa mesma regra também deparou com a impossibilidade de controlar tanto a fecundidade dos Reis como se gerariam homens ou mulheres. Para piorar, a Fé Cristã é monogâmica e, com a alta taxa de mortalidade, logo começou um processo de extinção das linhagens agnáticas (descendência em linha paterna).

Apenas por isso a sociedade passou a considerar a eventual reivindicação feminina à Coroa, mas com limitações, que vai encontrar o drama do leak de House of the Dragon. Como as mulheres não sucediam ao trono, apenas pelo tempo suficiente de passar o Poder para seus filhos homens e quem governava forçosamente era o marido da herdeira, até que o título passasse para o herdeiro dela. Claro que estava nessa tecnicalidade a fonte de tantas guerras civis como a da série.
Tudo isso que citei não é ficção: era a regra. Mas é a regra que é usada no universo fictício de Westeros. Portanto, Rhaenys, sendo a única filha do herdeiro do trono, viu “sua” Coroa passar para seus dois tios, que morreram antes de virarem reis e os filhos de um dos tios é que foram escolhidos antes dela, mesmo que ela tenha pleiteado que Laenor, seu filho com Ser Corlys Velarion, tivesse prioridade sobre Viserys I e perdido a argumentação.
Já estamos mais do que por dentro de toda essa confusão, que só piorou quando Viserys I nomeou Rhaenyra sua sucessora. Quando chegou a hora de subir ao trono, ela passou a ter que lutar por sua legitimidade, enquanto os homens lideram o conflito.

A Guerra Civil é mais complexa do que Verdes contra Pretos
Resumidamente, a Dança dos Dragões coloca as Casas Hightower e Targaryen discutindo a Primogenitura Cognática: Rhaenyra tem irmãos legítimos homens e boa parte do Reino apoia eles antes dela, não importa o que Viserys quisesse. A questão dos Verdes, portanto, é simples: Aegon II é o primeiro filho homem de Viserys e verdadeiro herdeiro do Trono de Ferro. Já Rhaenyra não tem unanimidade nem mesmo dos seus apoiadores unicamente porque ela é mulher.
Em uma sociedade patriarcal, onde não houve uma Rainha sem que ela fosse consorte ou cercada de homens que a “ajudassem” no Poder, é inadmissível ouvir o comando de uma mulher. Ela não é treinada para lutar ou para Guerra, argumentam, e a maneira mais fácil de provar isso é questioná-la mais agressivamente do que fariam com um homem: vemos isso em todas reuniões do conselho dos pretos, que nunca consideram o comando de Rhaenyra, mas ouvem sem problemas as ordens de Daemon.
Os dois homens mais próximos dela, Daemon, seu tio e marido, e Ser Corlys Velarion, seu ex-sogro, tampouco a levam a sério.

Ser Corlys queria governar quando Rhaenys fosse Rainha, mas ela nunca foi e nem o filho dos dois. Ele não tem paciência com Rhaenyra, que teve filhos com o amante como se fossem de Laenor, e é o mais experiente em guerras do que os outros.
Já Daemon, que foi herdeiro direto de Viserys I até ele nomear Rhaenyra, também se vê como legítimo antes da esposa, mesmo que tecnicamente se fosse assim os Verdes teriam mais argumentos. Não, o fato de ser um Targaryen “puro” colabora para sua confiança, mas é o fato de que como marido é ele quem manda é o que Daemon considera “normal”, por isso igualmente perde a paciência com Rhaenyra tentando governar.
Dessa forma, mesmo que em King’s Landing Aegon II, antes da batalha de Rook’s Nest e ter ficado ferido, estava com problemas de ser levado à sério por ser jovem e inepto, eram suas falhas efetivas para a posição que estavam criando problemas, algo que Aemond, como regente, enfrenta também, mas menos. Em Dragonstone, Rhaenyra é ignorada e pressionada por todos os lados e, embora seu foco seja evitar derramamento de sangue, é vista como fraca e inepta, sem necessariamente ser ruim. Sua posição não é levada à sério nem pelos que a apoiam só porque é mulher.
Jacaerys também se opõe à Rhaenyra
Até o momento, sendo o máximo fiel ao livro como possível, Jacaerys, o primogênito de Rhaenyra, tem sido seu principal apoiador e conselheiro, mas ela o vê como criança e embora consiga se entender com ele, não o endossa como poderia. Diferentemente de Daemon, seu padrasto, que se ofende com a “ousadia” de Rhaenyra de não “ouvi-lo” (também conhecido como obedecê-lo), Jace admira sua mãe e quer apenas ajudar. Isso já está mudando.
Jace quer proteger sua Rainha e mãe, que sofreu um atentado no próprio quarto, e assim fica enlouquecido com as iniciativas de Rhaenyra de estar à frente fisicamente dos embates. Ele já sabe do papel de “protetora do reino” de acordo com a Profecia, mas é prático. Ele tem sido o mais eficaz articulador para conseguir o apoio para os pretos, fazendo importantes alianças, mas observa que Rhaenyra tem dado ouvidos à suspeita Mysaria mais do que a ele mesmo, isso vai levá-los a um embate sério.


Segundo o livro, é idéia de Jacaerys de listar bastardos Targaryen para domar os dragões sem cavaleiros, mas na série, depois da tentativa frustrada de uma “semente”, como chamam, Rhaenyra vai seguir o conselho de Mysaria e abrir a chance para “qualquer um” que conseguir domar, algo que é levemente diferente da história original, mas que ainda funciona.
Claro que a idéia vem depois que Alyn de Hull, um bastado Velaryon, é domado por Seasmoke (brincadeira intencional, foi o dragão que o perseguiu). Ora, Laenor e Laena Velaryon tinham seus dragões, mas eles eram Targaryens por parte de mãe (Rhaenys). Como bastardo de Ser Corly, Alyn tem sangue valiriano, daí ter ainda uma justificativa. E os outros?
Vão mudar a história eliminando Nettles e passando sua trajetória para Rhaena, mas Ulf e Hugh estão na série. Jacaerys vai ficar louco com sua mãe de abrir para todos a oportunidade, sem o ter consultado ou considerar que está dando armas nucleares para pessoas que ela não conhece. Segundo o vazamento, Jace será duro com Rhaenyra sobre o assunto e a briga vai escalar para um bate-boca (até tapa, dizem) no qual ela joga na cara dele o fato de que ele mesmo é bastardo e tem um dragão. Sem surpresa, a mágoa será motor para problemas mais sérios. Ainda mais porque Ser Corlys vai dar razão ao “neto”.
A semente da traição: um histórico entre as Mãos dos Reis
Além do que chamam de “inconsistência” de Rhaenyra ao se voltar contra o filho, o humilhando justamente no ponto mais vulnerável de sua existência – o fato que é filho de Ser Harwin Strong e não de Laenor Velaryon – é contrário a tudo que vimos dela até o momento. Será mesmo?

Independentemente de seu gênero, Rhaenyra ainda não se impôs ou demonstrou liderança convicta para ninguém. Rhaenys viu e admirou a surpresa de que, como regente, Rhaenyra estivesse tentando o seu melhor, sem passar o comando para Daemon ou embarcado na violência que cobtam dela, mas, ao mesmo tempo ela reforça a visão externa e misógina de insegura e despreparada.
Nenhum dos filhos de Alicent ou Rhaenyra entendem como as duas ainda possam se falar, e Jacaerys quase perde a compostura quando descobriu que sua mãe foi à King’s Landing negociar uma Paz que jamais esteve em pauta, menos ainda depois que os dois lados mataram crianças. Como ele diz à mãe, eles “precisam” de Daemon e ela não querer admitir ou pedir que ele volte é outro problema vital para a estratégia dos pretos. Daí ser lógico e correto o fato de que perca a paciência com ela, ainda mais que vê como a influência de Mysaria tem crescido. Essa discussão não existe no livro, mas faz sentido.
Ainda segundo o vazamento, após o desentendimento, Jace procura Ser Corlys, que dá razão a ele. Rhaenyra tampouco consultou sua Mão antes de tomar a iniciativa e – para choque de muitos – Jace e Corlys conspiram contra Rhaenyra, combinando deixá-la no trono, mas governarem efetivamente em seu lugar. Jace não viverá para seguir com o plano, mas aqui é o maior alerta para o que deve acontecer em uma terceira ou quarta temporada, acima de tudo, para o final da série, que é mostrar como Ser Corlys muda de lado conforme o ritmo.


No original, Ser Corlys já guardava contra Rhaenyra a mágoa da morte de Rhaenys, mas como ele agora testemunhou que foi a esposa quem quis ir para a batalha, seu ressentimento é pelo que considera falta de planejamento dos pretos e isso incontestável. Como falei, os Verdes têm uma proposta de estabilidade e já estão governando. Rhaenyra nem conseguiu ainda reunir seus apoiadores, dentro ou fora de Dragonstone.
À frente, ela terá problemas com Alyn e Addam, os filhos bastardos de Corlys que ela vai autorizar legitimar, mas depois vai achar que são traidores. Ser Corlys vai se cansar disso e, quando for mais tarde, vai deixar Rhaenyra para apoiar Aegon II (antes de participar do complô do assassinato do Rei). Ou seja, não adianta espernear: faz sentido.
Sabe o que é mais triste? Com essa linha de raciocínio, Ser Corlys contribui para as estatísticas negativas da confiabilidade dos Mãos dos Reis. Claro que é a Mão que “realmente” reina, com isso os interesses pessoais prevalecem. Ser Corlys não será tão diferente de Ser Otto, afinal de contas. Será que eles teriam azão?
Afinal, Rhaenyra está certa ou errada?
Antes de jogar pedra na rainha dos pretos e destacar suas falhas, é preciso ser uma mulher para entendê-la. Nada do que decide é aceito nem mesmo pelos mais íntimos, apenas porque é mulher, portanto a liderança de Rhaenyra está ultra comprometida na largada. Superar a desconfiança demanda boa fé e vitórias, ela não tem nenhuma das duas.
A ciência desse quadro deixa Rhaenyra cada vez mais isolada emocionalmente e fisicamente, fazendo dela alvo fácil para Mysaria envolvê-la. Ainda mais sem Rhaenys por perto.

O discurso de Mysaria tem sido firme: é fiel à Rhaenyra, não à Coroa, ao mesmo tempo inflando o ego influenciável dela assim como sendo a única a validar suas iniciativas, desde ir escondida encontrar Alicent à colocar “qualquer um” com acesso aos Dragãos. E por fora ainda dando um amassos na Rainha, fica difícil resistir, né?
As boas intenções de Rhaenyra serão sua ruína, mas é bem vindo também que suas falhas sejam colocadas à tona, não mais alterada para forçá-la como heroína. O fim trágico da Rainha tem que ter contexto e emoção, quero vê-la mais complicada!
Então eu digo: Rhaenyra está errando repetidamente e deveria sim ter usado sua maior arma – Daemon Targaryen – para ser mais ágil na solução do conflito. Mas uma Rhaenyra “errada” ainda é muito melhor do que qualquer verde. Pena que terá problemas justamente com Jace. Meu coração sente pelo futuro próximo.
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