A Tragédia de Reena Virk e a Profundidade de Under the Bridge

Under the Bridge é uma série rara dentre as de true crime e baseadas em histórias reais: ela é profunda, respeitosa e equilibrada. Uma pena que esteja tão fora do radar das pessoas porque é uma das melhores do ano.

A história verdadeira de Reena Virk, a adolescente que foi espancada até a morte por um grupo de adolescentes é o coração do drama que traz as excelentes Riley Keogh e Lily Gladstone em atuações precisas, sendo que Lily mereceu a indicação ao Emmy desse ano. A série não apenas reconta passo a passo a tragédia, como traz perspectivas mais profundas em uma história ainda atual mesmo quase 30 anos depois.

A origem: um crime que chocou o Canadá

A base do drama é o brutal assassinato da adolescente Reena Virk, em 1997, anos ainda pré-mudança cultural dos anos 2010 e onde “bullying” era apenas uma convenção incômoda de uma sociedade que enaltecia os abusadores como “vencedores” e os abusados de “perdedores”. Os populares tinham autonomia de assediar moralmente quem estivesse fora do padrão de beleza (que praticamente oficializava racismo, sexismo, homofobia e gordofobia) e com isso, Reeva se tornou um complexo símbolo de tudo de ruim que essa cultura permitia e encorajava.

Filha de imigrantes indianos que se converteram à Testemunha de Jeová e eram radicalmente conservadores, Reena não era dentro dos padrões estéticos da época, não era branca, não era autorizada em casa a querer ou poder agir como uma adolescente de seu tempo e com isso foi tragicamente atraída pelos nocivos outcasts de Saanich, uma pequena comunidade na ilha de Vitória, no lado britânico do Canadá. Se tivesse sobrevivido, Reena ainda seria uma mulher traumatizada, mas ela infelizmente se foi de uma das maneiras mais pavorosas possível.

Reena era uma adolescente problemática que tinha sérios traumas por ser alvo de racismo fora de casa e de repressão religiosa dentro. Mesmo 27 anos depois, há um mistério jamais resolvido sobre sua personalidade, descrita como “desesperada por aceitação”.

Ela, assim como seus assassinos, via na emergente cultura de “gangues de LA”, reforçada por canções e estrelas de hip-hop da época, uma alternativa de grupo que agressivamente protegia os membros da gangue e com isso daria a ela status e um escudo para o que a afligia mais que era estar “acima do peso”, não ser caucasiana e querer ter amigos. Com isso se aproximou dos jovens que viviam sob proteção tutelar do Estado, fumando maconha, cigarros e bebendo álcool.

Os tons trágicos do drama estavam claros cerca de um ano antes do crime, quando Reena não mediu consequências e falsamente denunciou seu pai por abuso sexual para poder ficar perto das amigas e depois ser transferida para um lar adotivo. Quando a verdade veio à tona, ela retirou as acusações e voltou para casa, mas era claro que ela estava flertando com algo mortal.

Na noite de 14 de novembro de 1997, Reena recebeu um convite inesperado de uma festa embaixo da ponte onde os adolescentes da cidade se encontravam, sem desconfiar que era uma “festa de seu assassinato”. Um dos motivos alegados para o ataque orquestrado teria sido que Virk roubou a agenda de telefones de sua amiga, Nicole Cook e ligou para todos difamando a jovem depois que as duas brigaram. Em retribuição, Nicole armou o espancamento e os acusados dizem que a violência saiu do controle.

Reena foi publicamente humilhada e atacada não apenas por Nicole, que apagou um cigarro em sua testa, como outros jovens que sequer a conheciam. Dentre os assassinos, havia questões de racismo contra a vítima, mas seja como for o espancamento já teria levado ela à morte (segundo o legista), mas ela ainda apanhou mais na mesma noite, vítima de dois adolescentes do grupo que a perseguiram e a afogaram.

A polícia inicialmente ignorou os pedidos da família de Reena de buscá-la, especialmente diante do histórico de problemas com ela, mas na escola os rumores da festa macabra embaixo da ponte assustaram duas meninas russas que denunciaram o crime, mudando o curso de toda história. Na série essas meninas são excluídas, mas todo o resto confere com os relatos oficiais.

No final da investigação, seis adolescentes foram presos e condenados pelo assassinato de Reena Virk, eram cinco meninas e um rapaz. As sentenças variaram de 60 dias de prisão condicional a um ano de prisão e perpetua, com algumas revisões ao longo do caminho. Nenhum deles está atrás das grades hoje.

A diferença de um relato empático de todos

O livro de Rebecca Godfrey, falecida em 2022 de câncer de pulmão, aos 54 anos, foi um best-seller em 2005 e ela escreveu mais de uma continuação sobre o tema. A autora esteve diretamente envolvida com a adaptação até sua morte, portanto é uma obra aprovada por ela.

Na narrativa estabelecida por Rebecca, na cola da escola inaugurada por Truman Capote em À Sangue Frio, temos a voz dos assassinos em destaque, os humanizando com suas trajetórias até o crime, algo que os cínicos podem considerar manipulativo e outros apenas humano. No caso da série Under The Bridge funciona de forma refrescante.

Em nenhum momento a história justifica a atrocidade cometida por eles, mas parte ainda mais o nosso coração porque toda a tristeza e vulnerabilidade desses jovens, igualmente vítimas de rejeição e abuso, os coloca em um caminho irreversível e inevitável dentro da realidade que viviam. Rebecca (Keough) tem um passado de culpa e erro que a motiva a buscar uma redenção para os assassinos, algo que soa chocante de ler mas faz sentido na série. Até porque, os pais de Reena, assim como a policial Cam Bentland (Gladstone) a confrontam por isso. Para evitar spoilers, não vou mencionar a razão pelo qual faz sentido e ajuda Under The Bridge.

A única personagem sem maior dimensão e tratada sem misericórdia é a assassina Kelly Marie Ellard, que obviamente se queixou publicamente da série. Kelly, que é um grande papel de Izzy G, foi a pessoa que afogou Reena mesmo depois do espancamento, portanto a principal assassina da adolescente.

Trilha sonora que reflete a história e o momento

Outro grande detalhe no qual Under the Bridge se destaca é no uso da trilha sonora, com inserção de canções da época que têm uma função narrativa inegável. O uso de Something in the Way, da banda Nirvana e no qual Kurt Cobain reflete sobre a dor de sua adolescência em um lar abusivo, que o levou a dormir embaixo de uma ponte em Seattle é um dos clássicos grunge e reforça a realidade do grupo que mata Reena. É apenas um dos exemplos, ao longo da história tem mais.

Outro bom momento é resgatar o cover de Siouxsie and The Banshees para o clássico The Passenger, que destaca os sentimentos de uma pessoa que não sente pertencer ao ambiente onde está. Vale prestar atenção!

As chances no Emmy 2024

Under The Bridge consolida o talento de Reese Witherspoon como produtora, mais uma vez conseguindo fazer uma adaptação literária atual e forte para as telas com uma qualidade incrível. De Big Little Lies à Daisy Jones e os Seis, impecável é a palavra que define o talento da atriz para identificar bons dramas.

O azar de Under the Bridge, em um ano com menos concorrência, foi lidar com dois fenômenos como Bebê Rena e Shogum, que reduzem as chances da única indicação – Lily Gladstone como atriz coadjuvante – pois ela não deve tirar a estatueta de Jessica Gunning. É chato, mas não tem muita chance. A indicação já é a vitória.

Under the Bridge está no Star Plus, dentro da plataforma da Disney.


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