Houve um tempo, muito tempo, no qual o ocidente só sabia dos astros do balé russo por conta de algumas turnês e filmes, usados como propaganda política pelo Governo Soviético. Portanto, por décadas, a maior bailarina russa depois de Anna Pavlova foi Natalia Makarova.
Com uma técnica incomparável, Makarova foi uma das maiores lendas da dança nos anos 1970s e 1980s, sendo que devemos à ela a montagem de La Bayadère completo e, acima de tudo, uma Odette-Odile, de O Lago dos Cisnes, como poucas antes ou depois dela.

Aos 84 anos, Natalia nasceu em Leningrado, na época capital da União Soviética. Aos 12 anos, apesar de “velha”, fez um teste para entrar para a escola do Kirov Ballet e foi aceita, algo raro e só aplicável para grandes talentos.
Uma vez formada, ela entrou para a companhia do Kirov Ballet e ficou com eles por 14 anos, de 1956 até 1970, quando desertou e fugiu para os Estados Unidos. Nesses 14 anos, ela ascendeu e alcançou o status de primeira bailarina, ainda no início dos anos 1960s, sendo uma das mais elogiadas e comentadas durante a turnê do Kirov em Londres. Sua Giselle é lendária.
Em 4 de setembro de 1970, durante uma nova turnê do Kirov em Londres, ela fugiu, sendo a primeira mulher a escapar da ditadura comunista, 10 anos depois de Rudolf Nureyev. Reza a lenda que ela desistiu de voltar para a União Soviética por causa de uma decepção amorosa. Será? Na época, ela estava se separando do segundo marido, o cineasta Leonid Kvinikhidze, tudo pode ser.
Com apenas 1,50 m de altura, Natalia – ou Natasha, como chamam seus amigos – pode ser pequena, mas tem um poder de comando gigantesco. Ela era uma das maiores estrelas do Kirov quando deixou tudo para trás. Segundo relembrou depois, sabia que a turnê de Londres seria a melhor, senão a única, oportunidade, mesmo que muito sofrida e repleta de lágrimas.


Ela tinha apenas 29 anos, mas, segundo recontou, estava frustrada de como a política interferia na companhia, incluindo escolher bailarinos para estrelar montagens de acordo com seus laços partidários antes de seu talento no palco. A interferência também os isolava artisticamente, sem acesso aos coreógrafos ou estrelas do ocidente e dançando apenas o que o que o Partido aprovava.
Sem grande planejamento, Natalia Makarova decidiu no ímpeto ficar no Ocidente. Avisando aos amigos para chamar a Scotland Yard e pedindo asilo. “Ser espontânea foi o que me salvou”, disse ela em uma entrevista em 2012 ao Washington Post.
Diferentemente do amigo Rudolf Nureyev, que ficou na Europa, Natalia foi para os Estados Unidos, quatro anos antes de outro amigo, Mikhail Baryshnikov. Ela não falava inglês, não tinha contatos ou era famosa (graças à cortina de ferro), portanto tinha praticamente que começar do zero.

Parece dramático, mas foi muito rápido. A técnica de Makarova já era lendária naquela época e rapidamente encontrou como “casa” o American Ballet Theatre, que, apesar do nome, era mais aberto à estrangeiros do que outras companhias.
O mundo rapidamente a apelidou de “nova Pavlova” e se apaixonou pela bailarina. Por décadas, Makarova era sinônimo de Ballet e de Perfeição. E virou também uma das mais populares bailarinas do século 20. Quando Baryshnikov chegou ao ABT, em 1974, Natalia já estava mais do que estabelecida em seu novo país. As apresentações dos dois juntos era alguns dos ingressos mais disputados daqueles anos.

É verdade que muitos cínicos criticam o trio ter alegado sair da União Soviética para dançar novas obras e no entanto estarem sempre ligados à montagens de clássicos como Lago dos Cisnes, Giselle ou Don Quixote. Bobagem. O público os queria nos balés tradicionais, mas todos tentaram suas sapatilhas em obras mais modernas, no teatro e no cinema.
Graças à Deus há Youtube para comprovar o quanto Natasha era incrível no seu auge. Seus movimentos eram lentos, perfeitos, impossíveis.

Além de um cisne perfeito, fosse no Lago ou na Morte do Cisne, Natalia é creditada também por ter tido a iniciativa, em 1980, de remontar o ballet La Bayadère em seus longos quatro atos, algo que ainda não tinha sido feito fora da Rússia até então.
A montagem grandiosa até hoje faz parte do repertório do ABT, assim como do Royal Ballet, entre várias outras companhias. Tendo dançado a produção em Leningrado, Natalia ensinou TODOS os passos a toda companhia, do grupo aos solistas, em um empenho pessoal extremamente generoso, afinal são quatro atos ao longo de quase três horas.
Na estreia, ela mesma dançou o papel de Nikyia, mas nos bastidores houve drama. A bailarina Marianne Tcherkarssy se machucou no primeiro ato e foi substituída pela desconhecida Cynthia Harvey. Um daqueles momentos que definem História.

Em 2012, Natalia Makarova recebeu o Kennedy Center Honors, uma alta condecoração americana que reconhece sua contribuição como artista. Mesmo com mais de 80 anos, até os 70, se exercitava todos os dias no estúdio de dança em sua casa, na Califórnia.
Ela se casou uma terceira vez quando chegou à Nova York e teve seu único filho, Andrei. Aposentada dos palcos, ela ainda trabalha montando La Bayadère, Giselle e outros balés ao redor do mundo. Infelizmente a montagem de 40 anos de Bayadère foi suspensa por causa da pandemia. Teria sido incrível.
Hoje ela viaja o mundo ou treinando bailarinos ou supervisionando as montagens de seus balés. Como lembrou em outra entrevista, passou mais tempo no ocidente do que na Rússia, algo que a influencia muito mais como artista e pessoa.
E para que aspira seguir seus passos, sempre lembra: crescer na dança clássica não é de um dia para o outro. Disciplina é essencial. Uma dica para todas!

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