Se te falasse hoje que há 60 anos, em 1964, Julie Andrews e Audrey Hepburn protagonizaram um barraco histórico aposto que não acreditaria. Mas é verdade. E uma das lendas, digo, verdades lendárias de Hollywood.
O barraco que colocou dois ícones de doçura, elegância e talento em lados opostos foi provocado por Jack Warner quando ele comprou os direitos do musical My Fair Lady para o cinema. Isso porque ele esnobou Julie e impôs Audrey na versão do cinema, para uma ‘humilhação’ dupla que marcou a carreira de ambas. Uma história quase inacreditável.


Um mega sucesso no teatro, mas uma desconhecida como estrela
My Fair Lady é um musical de Alan Jay Lerner e Frederick Loewe que é uma adaptação de Pigmalião, uma peça de 1913, de George Bernard Shaw. Ele conta a história de uma florista pobre, Eliza Doolittle, que tem aulas de oratória com o professor Henry Higgins, um foneticista, para que ela possa se passar por uma dama e enganar a esnobe sociedade britânica.
A estreia do musical, em 1956, foi um sucesso e logo a produção foi um fenômeno, ganhando todos os prêmios mais importantes em Londres e Nova York, fazendo da sua estrela, a jovem Julie Andrews, uma estrela. Porém, quando a Warner comprou os direitos para fazer um novo filme (Pigmalião tinha sido ido para os cinemas em 1938), ele considerou que Julie não seria um nome forte para as bilheterias.
Segundo a atriz contou anos depois, o dono do estúdio veio ver uma apresentação no teatro e fez questão de ir falar com ela nos bastidores. Conversando sobre o filme, Julie entendeu que era uma questão de formalidade assinar o contrato e perguntou “Quando começamos?” jamais desconfiou que ele ainda estava avaliando se ELA estaria na produção (todos os outros atores do musical estavam contratados). Ao descobrir que ela ainda seria testada, ficou revoltada. “Teste de tela? Você me viu fazer o papel e sabe que eu posso fazer um bom trabalho,” disse se recusando a passar por essa vergonha.
Por despeito de ter uma “desconhecida” agindo como estrela, declarou publicamente que só consideraria atrizes estabelecidas para o papel, afinal, era o filme mais caro da história de Hollywood na época, superando o contemporâneo Cleópatra. Julie estava ainda a anos luz de ser famosa e perdeu a chance, muitos alegam, por capricho.

A doce Audrey Hepburn entrou no meio do drama porque tinha “nome”
A disputa pelo papel de Eliza movimentou Los Angeles há 60 anos, com todas as estrelas que sabiam cantar (e as que também não sabiam), querendo uma chance no que era garantido ser sucesso. Audrey Hepburn, a doce e popular atriz que já tinha um Oscar foi um dos nomes imediatos a ser considerado.
“Você pode dizer ‘Audrey Hepburn’ e as pessoas instantaneamente sabem que você está falando de uma estrela linda e talentosa. No meu negócio, tenho que saber quem traz as pessoas e seu dinheiro para a bilheteria de um teatro,” confirmou Jack Warner.
A ex-bailarina clássica, que trabalhou no teatro vaudeville em Londres já tinha dividido a tela com a lenda Fred Astaire anos antes, sem cantar nada de relevante. A música de My Fair Lady demandava um soprano potente, o que ela não era, mas sabia que que não faria feio.
Até os anos 1960s, os estúdios simplesmente escolhiam as atrizes pela aparência e apelo de popularidade, se não cantasse, seria dublada. Foi o que fizeram com Ava Gardner e Natalie Wood, para citar apenas duas. Mas Audrey, que não queria fingir cantar, hesitou diante do desafio.
Hepburn estava muito ciente do furor crescente, mas duas coisas influenciaram sua decisão de aceitar o papel. Mas sejamos realistas: o ego falou tão alto quanto o bolso. Para o papel, Audrey recebeu um milhão de dólares (um cachê pago então apenas para três astros: Marlon Brando, Sophia Loren e Elizabeth Taylor) e foi a escolhida pelo estúdio. A dúvida, dizem as más línguas, acabou quando soube que Liz Taylor não teria o mesmo purismo quanto a ser dublada e estava para fechar o contrato. Audrey mudou de ideia rapidinho.

Para sermos justos, Audrey não era doce de fachada. Ela sentiu por Julie e estava sem saber se ignorava sororidade e pensava apenas em sua carreira. “Eu entendi a consternação das pessoas que tinham visto Julie na Broadway. Julie fez esse papel dela e, por esse motivo, eu não queria fazer o filme quando foi oferecido pela primeira vez”, ela disse. “Aprendi que se eu recusasse, eles o ofereceriam a outra atriz de cinema. Achei que tinha o direito de fazer isso tanto quanto a terceira garota, então aceitei,” aludindo ao “perigo” de que além de Cleopatra, Liz também fosse Eliza Doolittle no mesmo ano. Tadinha da Audrey, entrou em uma furada.
Frieza nos bastidores, a vingança de Julie no Oscar
O compositor Alan Jay Lerner deu a notícia a Julie Andrews, na época estrelando outro sucesso na Broadway, Camelot. “Eu queria tanto que você fizesse isso, Julie, mas eles queriam um nome,” lamentou ele.
As gravações foram duras para Audrey. Ela se preparou para cantar com aulas e treinos particulares, imaginando – e aceitando – ser dublada “apenas nas notas altas”. Mas, ainda assim, sua voz foi julgada inadequada, sendo dublada por Marni Nixon, mantendo a da atriz em pequenos trechos. Isso, para Audrey, foi o máximo da humilhação.
Hepburn e Nixon ensaiaram e depois gravaram juntos com a atriz ainda convencida de que sua voz seria usada principalmente, e ainda tendo aulas de canto todos os dias. A situação continuou por semanas, sem ninguém disposto a lhe contar a verdade. No final, estima-se que até dez por cento das gravações finais sejam de Hepburn.

“Ela ficou muito magoada porque sentiu que se tivesse tomado o lugar de Julie Andrews e não pudesse cantar, isso refletiria muito mal para ela”, revelou o maestro André Previn. “Mas ela nunca disse uma palavra. Tenho certeza de que ela chorou por isso.”
Para piorar, o elenco ressentiu a escolha dela como principal, sendo tratada friamente por Rex Harrison, seu coestrela. Okay, para sermos justos, Rex já tinha sido horrível com Julie também. “Ele sentiu que qualquer alvoroço feito sobre Audrey ou Julie era inútil, porque ninguém estava interessado na garota. Eles só estavam interessados nele…”, revelou Previn mencionando o lendário narcisismo de Harrison.
Diante da pressão da imprensa, crescendo na “rivalidade” de Audrey com Julie, só fez a estrela sentir ainda mais qualquer tratamento frio vindo de colegas. Muitos inclusive declaravam que acharam injusto uma ariz de cinema ousar pegar o papel de uma atriz de teatro. O fato de estar sendo milionariamente bem paga a transformou em antagonista e Julie, a zebra.
Para piorar, Julie foi escolhida pela Disney para estrelar o musical Mary Poppins, que fez enorme sucesso nas bilheterias e rendeu a ela, uma “novata”, a indicação ao Oscar de Melhor Atriz. A comparação entre as duas chegou a tal ponto que, Audrey, sendo a única de My Fair Lady a não ser indicada ao prêmio, foi à cerimônia, e aguentou com sua classe histórica as câmeras em cima dela, cortando sempre para Julie, como se fossem inimigas.

Para piorar (para Audrey), Julie Andrews ganhou o Oscar e todos ficaram tentando decifrar seus reais sentimentos enquanto a rival cutucava a ferida dizendo “Meus agradecimentos ao Sr. Jack L Warner, que tornou tudo isso possível.” Não foi uma noite fácil para Audrey Hepburn.
Hoje a atuação da atriz, mesmo sem sua voz real, é elogiada e é impossível negar que seu carisma se encaixa perfeitamente na trama e que ela é mais do que convincente como a perfeita Dama. Obviamente, os figurinos de Cecil Beaton estão entre os mais icônicos e copiados nas últimas seis décadas.
Olhando para a história hoje, voltamos a ficar surpresos que ambas atrizes eternizadas por doçura tenham entrado para a História por conta de uma fofoca tão aquecida por fãs e executivos. Até hoje podemos encontrar os Team-Julie e Team-Audrey e é preciso admitir que, não fosse Audrey, My Fair Lady poderia ter sido sucesso, mas possivelmente nem tanto lendário. Mary Poppins tem os efeitos e ousadia para ajudar ao estrelato de Julie, mas, será que sem eles teria chamado a mesma atenção?
Sou team-Audrey apenas porque ela genuinamente, uma grande pessoa. Qual das damas seria a melhor? O antipático Rex Harrison foi surpreendentemente dilomático: “Eu amo minhas duas Damas”, disse. Nós também!
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