35 anos depois, a “nova” Guerra dos Roses

Para geração X, o divórcio arrastado de Brad Pitt e Angelina Jolie está mais para uma versão real de A Guerra dos Roses do que Sr. e Sra. Smith, embora em ambos os filmes o casal em conflito destrua sua propriedade. A diferença é a mensagem sombria do filme de 1989, que completa 35 anos em 2024 ganhando um remake com Benedict Cumberbatch e Olivia Colman. Para quem não conhece o original, desculpem, aqui terá uma lista de spoilers.

O anúncio do filme, que já está sendo rodado na Inglaterra, foi feito em abril e não deixa de ser uma surpresa. Na época que foi lançado, o trio Kathleen Turner, Michael Douglas e Danny deVito era conhecido pela comédia romântica Tudo Por Uma Esmeralda e A Jóia do Nilo, portanto quem foi ao cinema desavidao ficou chocado com o tom sombrio de A Guerra dos Roses. E sim, especialmente seu final trágico que DeVito, o diretor da obra, teve que brigar com os estúdios para manter.

No livro, mais segredos e drama

Antes de virar filme, A Guerra dos Roses foi um best-seller, elogiado pelo New York Times e dando destaque ao autor Warren Adler. Lançado em 1981, é estranho considerar, mas, na época, divórcio ainda era tabu e complexo. Dramas como Kramer vs Kramer, de 1979 e Uma Mulher Descasada, de 1978, eram “ousados” e nós mulheres podemos ver que nem sempre a mulher era retratada com simpatia.

No caso do livro, que brinca com o sobrenome dos protagonistas fazendo uma alusão à Guerra das Rosas, a recepção foi bastante positiva e elogiada por sua abordagem única e sombria sobre o divórcio e a desintegração de um casamento. A história detalha a amarga e violenta separação de um casal, Oliver e Barbara Rose, que transformam sua casa em um campo de batalha literal e metafórico. Como disse o New York Times na época, ” Oliver e Barbara Rose descobrem uma paixão maior no divórcio do que no casamento”.

O livro foi notável por sua mistura de humor negro e drama, o que capturou a atenção tanto de leitores quanto de críticos. A crítica literária destacou a habilidade de Adler em explorar as profundezas da animosidade conjugal de uma maneira que era ao mesmo tempo perturbadora e cativante.

A história gira em torno de Oliver e Barbara Rose, um casal que parece ter um casamento perfeito, mas que rapidamente se desintegra em uma batalha amarga e destrutiva.

O principal problema do casal é a deterioração de seu relacionamento devido a uma série de ressentimentos acumulados e a falta de comunicação. Oliver e Barbara começam a perceber que têm interesses e desejos diferentes, o que leva a um crescente descontentamento de ambos os lados. Barbara sente que sacrificou seus próprios sonhos e aspirações para apoiar a carreira de Oliver e cuidar da família, enquanto Oliver acredita que merece reconhecimento por seu trabalho árduo e sucesso.

Essa falta de comunicação e compreensão mútua leva a uma escalada de conflitos, culminando em uma disputa violenta pela posse da casa em que vivem. A casa, que inicialmente representava o sucesso e a estabilidade do casamento, torna-se um símbolo da guerra entre eles. Ambos se recusam a ceder, transformando suas vidas em um campo de batalha literal, com atos de vingança cada vez mais extremos.

A história destaca temas como a falha na comunicação, o egoísmo, a falta de empatia e a destrutividade que pode surgir de um casamento em crise. É uma narrativa sombria que explora como o amor pode se transformar em ódio e como a falta de resolução de conflitos pode levar a consequências trágicas.

No cinema, a violência física, psicológica e inesperada

Quando chegou aos cinemas, em dezembro de 1989, A Guerra dos Roses arrematou mais 160 milhões de dólares nas bilheterias americanas, embalado no apelo de marketing de seus atores principais, nas causou uma certa divisão. A química inegável entre De Vito, Douglas e Turner foi usada justamente para reverter as expectativas do público, que saiu chocado e incomodado com tanta violência entre os dois. Surpreendentemente, é o filme mais bem sucedido dos três juntos.


Embora a obra ainda seja apresentada como “comédia dramática”, quem já se casou e separou certamente não consegue ver a graça. A qualidade está justamente na ousadia da história de manter o tom amargo, raivoso e ressentido do casal, mesmo com a Fox querendo mudar o final para ter uma alternativa mais “feliz”. É, como avisa De Vito desde o início: é um conto de advertência. Me fez pensar na cena de Harry e Sally (When Harry Met Sally), contemporâneo de A Guerra dos Roses, no qual Harry explode quando os amigos estão discutindo sobre manter ou não uma mesa e claramente discordam. Ele alerta, irritado, que na paixão tudo é lindo mas que depois, a mesma mesa que discordam será alvo de disputa. Ele não estava errado.

O incômodo da história é mostrar de forma realista que mesmo fazendo tudo certo e se sentindo feliz, a curva para infelicidade está no caminho e se virarem para essa estrada, nada é suficiente para evitar a guerra. Tudo que é relevado – o riso que não gosta, o ronco, as manias – vira objeto de puro ódio.

A refilmagem

O fato de que A Guerra dos Roses acertou é justamente que embora tenha sido influente para vários filmes que tratavam do mesmo tema, não era citado ou discutido, portanto a surpresa que mais de três décadas depois esteja ganhando uma refilmagem. O que poderiam “mudar”?

Sem dúvida, os talentos de Cumberbatch e Colman são o suficiente para despertar curiosidade, mas em pleno século 21 o motor da frustração de Barbara na história – ter aberto mão de sua profissão pelo marido – não tem mais lugar de identificação. Sabe o que me dá confiança? É que o roteiro é assinado por Tony McNamara, de quem sou muit fã.

A proposta de refilmar começou a circular em 2017 e diz que será uma “releitura” do livro, mais do que do filme. Só ficará pronto em 2025. Será que vamos nos surpreender?


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