As Trágicas Bailarinas em Chamas do Século 19: Uma Conexão entre Balé e Terror

A associação mais comum do balé clássico nos últimos tempos tem sido associar o universo da dança – que demanda dispciplinam dedicaçãp, superação e competitividade – ao gênero de terror. Mas, apavorante mesmo, era dançar ainda no século 19 onde o perigo era iminente ao pisar no palco. Ser bailarina nos anos 1800 não era apenas difícil, mas incrivelmente perigoso e muitas perderam suas vidas por isso e ficaram conhecidas como As Bailarinas em Chamas.

Há várias históritas trágicas por conta da combinação letal do meio de iluminação à gás e aos tecidos de tule, altamente inflamáveis que eram usados nos palcos. Para piorar, por causa da colocação da luz, frequentemente os dançarinos se apresentavam todas as noites perigosamente perto demais das chamas que poderiam consumi-los. Algumas, de fato, queimaram. Há uma estatística de que apenas em 1860, pelo menos 3.000 mulheres morreram em incêndios quando seus vestidos pegaram fogo. Um tema que renderia, sem dúvida, filmes e filmes de terror e drama.

O movimento romântico, que abrangeu a Cultura do século 19 em geral, fez do balé um dos meios favoritos de expressão artística, um meio perfeito para escapismo. As mulheres, como sílfides ou fadas, eram as estrelas máximas e o culto à bailarina clássica estava no auge.

Nesse período, as bailarinas usavam o conhecido vestido em formato de sino com mangas curtas, corpete decotado e saias longas. As mais idolatradas em toda a Europa eram Marie Taglioni e Fanny Elssler, inimigas no palco e de estilos opostos. Enquanto Elssler era descrita como “fogosa, exótica e sexy”, Taglioni era “espiritual, etérea e sobrenatural”, tendo sido a primeira a “flutuar” nas pontas dos pés.

Marie, italiana e Fanny, austríaca, inspiraram várias jovens ao redor do mundo, como Emma Livry, na França e Clara Webster, na Inglaterra. Duas potenciais estrelas que entraram para a História por conta da tragédia e perigo dos palcos na época e as mais simbólicas desse período chamado de “holocausto das bailarinas”.

Emma e Clara eram potencialmente duas grandes bailarinas que viraram lendárias por erros de segurança. Emma, protegida de Taglioni, é tida como uma das histórias mais tristes da dança porque morreu com apenas 21 anos, passando um ano sofrendo com quase 70% do corpo queimado, especialmente as pernas. Aos 20, acidentalmente sua roupa pegou fogo no momento em que ela se arrumava para entrar no palco. Clara Webster não teve um destino menos trágico.

Há 180 anos, antes de falecer em 1844, ela era pontada como a maior estrela potencial do balé britânico. O acidente acontececeu quando estava dançando em The Revolt of the Harem, em Drury Lane. Antes de entrar no palco, seu vestido roçou na chama de uma lâmpada a óleo no palco e pegou fogo em segundos.

Ninguém pensou em baixar a cortina, então o público testemunhou todo o evento. A descrição da cena, feita por um jornalista, é apavorante:

Por algum meio, no entanto, um pequeno pedaço do vestido da Senhorita Webster pegou as chamas de uma lâmpada. Sentindo o fogo, ela pulou e correu para o palco. O movimento atiçou a chama, e quase em um instante toda a visão e o material inflamável de seu vestido eram uma massa de fogo. Com gritos agudos, ela procurou segurança entre seus companheiros no palco. Por um momento, eles a cercaram, mas o espetáculo assustador que a infeliz garota apresentou os fez recuar do contato com ela. Foi uma pena que eles fizeram isso, pois então nada poderia ter evitado que seus próprios vestidos pegassem fogo e as consequências teriam sido indescritivelmente terríveis. Nunca deixando de correr descontroladamente pelo palco, e aparentemente perdendo toda a presença de espírito, a Srta. Webster se aproximou da ala lateral. Um carpinteiro imediatamente a agarrou em seus braços, desconsiderando o perigo, tirou-a do palco e jogando-a no chão, extinguindo as chamas. Ele próprio foi muito queimado no esforço“.

A Srta. Webster estava consciente imediatamente após a ocorrência. Ela estava terrivelmente queimada nos braços, no peito e no rosto e sofreu extrema agonia. (…) Tudo foi feito para aliviar as dores da sofredora e passar um tempo em que havia esperanças de sua recuperação. Na segunda-feira, o gerente de palco escreveu uma carta aos jornais afirmando que a Srta. Webster estava fora de perigo. (…) Seus assistentes médicos pareciam nunca ter duvidado que ela havia sofrido ferimentos mortais. Ela morreu às 2 horas da manhã de terça-feira. (…) Quando seus restos mortais foram vistos pelo júri, ficou claro o quão severamente ela havia sofrido. Seu rosto, pescoço e braços estavam com muitas bolhas e descoloridos. (…) O veredito do júri foi “morte acidental”. A Srta. Webster estava em seu vigésimo primeiro ano”.

Era de se imaginar que a tragédia da morte de Clara Webster fosse mudar alguma coisa quanto à seguranças das artistas, mas não. As alternativas eram tecidos pesados e sem brilho, “atrapalhando” a apresentação e levando a muitas a escolher o risco. Em 1862, Emma Livry viveu momentos de dor e pânico iguais ao de Clara.

Em um ensaio geral para uma ópera, a superestrela da dança Emma Livry usou um traje que evocava a eterealidade da bailarina feminina ideal. Tinha um corpete espartilho e uma saia fofa que terminava em torno de suas panturrilhas. Mas antes de sua entrada, suas saias chegaram muito perto de um gaslight e seu traje pegou fogo. Em vez de uma beleza angelical flutuando pelo palco, Livry se tornou um pesadelo infernal envolto em chamas. Ela correu pelo palco em uma coluna de fogo antes que um bombeiro conseguisse apagá-lo. Livry sobreviveu naquela noite e viveu mais oito meses extenuantes em recuperação, apenas para morrer de envenenamento do sangue relacionado às queimaduras”, um jornal descreveu.

Apenas um ano antes, nos Estados Unidos, quatro irmãs dançarinas e britânicas também pegaram fogo no palco. As Gale Sisters formavam um quarteto e estavam em turnê pela América quando, na noite de 14 de setembro de 1861, elas subiram ao palco na Filadélfia pela última vez.

Zela, com apenas 16 anos, estava pegando uma fantasia nos bastidores quando um jato de gás incendiou suas roupas. Suas irmãs, Hannah (20), Abeona (18), e Ruth (15), junto com vários outras dançarinas, tentaram apagar as chamas, mas, quando se aproximaram, o fogo rapidamente se espalhou para elas também. Eventualmente, uma delas correu em direção ao palco e o público, chocado, não entendeu o que estava acontecendo. Eles foram convidados a sairem calmamente do teatro e não imaginavam que pelo menos uma dúzia de meninas estavam presas no camarim, queimando. Várias pularam da janela do segundo andar para a rua abaixo. Ao fim, nove morreram devido aos ferimentos, incluindo as quatro irmãs Gale.

Todos os acidentes, sugerem historiadores, poderiam ser evitados mesmo antes da conversão para iluminação elétrica, com a invenção da lâmpada de Edison. As lâmpadas a gás poderiam ter sido protegidas por arame, e os assistentes poderiam ter recebido cobertores contra incêndio para distribuir em uma emergência.

Nada disso era feito e o risco rapidamente despertou maior vendas de ingressos e jornais. Uma macabra referência que já sinalizada a conexão de balé e terror. Uma triste verdade que ainda no século 21, é usada comercialmente. Como um pesadelo.


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