A Máfia no Divã: Os Bastidores de Os Sopranos

Sempre falo: sou uma garota Soprano. Fui impactada diretamente pela série Família Soprano (The Sopranos) que estreou e virou fenômeno enquanto morava em Nova York. Começou e acabou nada menos do que brilhante, elevou o nível de qualidade da TV e cá estamos, 25 anos depois. O documentário Wise Guy: David Chase poderia parecer de primeira um conteúdo feito pensado para os fãs, mas é uma aula para quem quer aprender como seguir os passos de um showrunner que fez história.

O que é genial no documentário de duas partes, já disponível na MAX, é o encontro de DUAS mentes geniais: a de David Chase, criador da série, e do diretor Alex Gibney, que nos faz embarcar nos bastidores com uma narrativa sensível, uma edição brilhante e uma conclusão hilária e surpreendente.

Abrimos com uma sessão psicoanalítica de Chase, cuja personalidade – vemos – é mais relevante para Tony Soprano do que ele mesmo incialmente admite. Sua honestidade sobre o processo criativo, sua carreira e os bastidores de Família Soprano (The Sopranos) são ao mesmo tempo educativos e inspiradores. A edição perfeita e segura nos ajuda a acompanhar cada processo, enriquecendo ainda mais o que nasceu clássico.

As imagens de arquivo pessoal, os testes e os depoimentos só engrandecem o que é ainda espetacular hoje, mais ainda há 25 anos. Alternando seriedade e profundidade, Wise Guy: David Chase é para se consumir sem restrição. O que Gibney consegue fazer é nos mostrar com fatos e imagens, como Tony Soprano, esse anti-herói lendário é uma mescla de alter ego tanto de Chase como de seu ator, James Gandolfini.

As entrevistas com os executivos da HBO da época, Chris Albrecht e Carolyn Strauss, assim como parte dos autores Robin Green, Frank Renzulli e Terence Winter, voltamos no tempo e descobrimos como cada detalhe saiu da imaginação e aposta dessas pessoas. O elenco também está à disposição para voltar no tempo. Gandolfini, que faleceu em 2013, aos 51 anos, entra com imagens e entrevistas de arquivo.

De fato, decifrar Tony Soprano tem sido foco de teses, livros e muitos bate papos virtuais e em parte se deve ao brilhantismo de James Gandolfini. Por um momento, receei que fossem evitar entrar nos conflitos históricos que foram desde a briga por melhor salário (ele ganhou um milhão de dólares por episódio), os rompantes de bastidores, o mal humor, e o sofrimento, mas nada é evitado ou poupado, apenas contextualizado com carinho e transparência. Isso é que faz de Wise Guy: David Chase ser em todo sentido da palavra um documentário e há tão poucos disponíveis que é de ficar emocionada e empolgada quando algo tão bom é produzido.

A primeira parte é centrada em Chase e a transferência de sua vivência e família para as páginas do roteiro e depois a tela. A segunda, é mais em Gandolfini. Sem dúvida, a sombra do astro é tão ou mais gigantesca que o próprio autor e frequentemente nos surpreendemos e nos emocionamos com isso.

Uma das questões que obviamente estariam em destaque foi a conclusão polêmica da série. Segundo Chase, a HBO o pressionou por uma conclusão e ele teve que finalmente confrontar o fato de que ela teria que terminar. Num universo de crime, pessoas morrem, a violência não.

Num universo de fãs apaixonados, nunca há concordância com nada. Há quem quisesse a rara oportunidade de um David Chase falante pudesse nos dar a chance de questionar mais detalhes do que são questionados, mas foram o suficiente.

E quanto ao surpreendente final com o black out? Todos no elenco dizem que foram pegos de surpresa (mas não faz muito sentido pois teria que estar no roteiro). Em 2007, com o mundo acompanhando final da série, vemos Tony com sua família em uma lanchonete, ao som de Journey e Don’t Stop Believing, interrompendo so nada quando a canção chega ao refrão e e diz “Don’t Stop“.

Seria para nos dizer que Tony morreu? Que a vida de Tony não mudaria em nada? Tudo é possível. Quando David Chase vai nos dizer… a tela fica preta. Que tal? É para rir, celebrar e sim, maratonar Família Soprano (The Sopranos) de novo. Hoje pode parecer menos, mas como mudou para melhor o que vemos hoje fora do cinema! Obrigada MAX e David Chase.


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