É inegável que, comparando aos filmes de 40 e 30 anos atrás, Hollywood parece ter passado os últimos 20 anos bem mais “casta”. Há nudez, há sexo nas telas, mas, comparativamente bem menos do que as décadas anteriores. E como tudo na moda é cíclico, o Cinema não é imune. O sucesso de Babygirl em Veneza, colocando Nicole Kidman como a favorita para o Oscar de Melhor Atriz em 2025 é, para muitos, um sinal da “volta dos erotic thrillers”. Será?
Nicole jamais foi “estranha” ao subgênero, seu primeiro filme de sucesso, Terror A Bordo (Dead Calm) inclui uma controversa cena de sexo com Billy Zane e nudez da atriz. Em Malícia, de 1993 e o excelente Um Sonho Sem Limites (To Die For), de 1995, ela também protagoniza cenas de sexo e histórias onde a protagonista feminina se encaixa exatamente no clichê da época.

Há longos estudos sobre os thrillers eróticos ou thrillers sexuais e a característica principal dos filmes que se encaixam nessa definição são, claro, nudez e sexo porque a história gira em torno de questões onde prazer e perigo são centrais para a trama.
A ausência de produções com cenas mais explícitas pode ter sido uma consequência imediata do novo movimento feminista, que passou a colocar em cheque a exploração do nu feminino porque se voltar aos filmes das décadas de 80 e 90, na maior parte parecia ser “gratuito” e às vezes até flertava com soft porn. Em 2001, uma amiga ria constrangida ao meu lado quando estávamos no cinema vendo Angelina Jolie e Antonio Banderas em Pecado Original, que é um erotic thriller com cenas de sexo que poderiam ser “soft porn”. Todos os filmes eram assim, parecia.
O gênero ganhou força e distinção no final dos anos 1980s, mas para mim são simbolizados claramente por diretores como Brian dePalma, Adrian Lyne e Paul Verhoeven, até porque os mais elogiados e icônicos são assinados por eles. A diretora de Babygirl, Halina Reijn, citou obras como Nove Semanas e Meia de Amor como inspiração e a cena onde Harry Dickinson dança ao som de Father Figure, de George Michael é uma “homenagem” explícita à fórmula de sexo-fotografia-trillha sonora pop- atores nus e bonitos que são típicas do período.


Para entender e ser mais precisa, estou falando de Thriller Erótico mas a verdade é que o que estaria tendo um revival é o erotismo per se. Babygirl é um drama com cargas eróticas, tem suspense, mas não é um thriller. O fato que a diretora também citou Atração Fatal e Instinto Selvagem (Basic Instinct) como referências é que traz a discussão de suspense, mas nem toda cena de sexo é apenas de thrillers. O que Hollywood sabe é que sexo e mistério “vendem” e fez fortunas com isso.
Foi justamente a enorme popularidade do filme estrelado por Glenn Close e Michael Douglas em 1987, que ganhou um revival em formato de série em 2023, que foi identificado como o início dos anos áureos do gênero, que dominou as telas até 1995. A queda se deu porque a onda de thrillers eróticos direto para vídeo ou TV, sem uma história que realmente sustentasse a qualidade da obra, expuseram a fragilidade “algoritimica” de explorar a fórmula para gerar números e acabaram criando fadiga no processo. Além disso, historiadores complementam que com a Internet, quem queria ver apenas sexo foi direto à fontes mais baratas e explícitas.
Em geral, o algoritmo dos thrillers eróticos inclui sexo, prazer, crime, suspense e obsessão, com conclusões frequentemente punitivas marcadas pela vitória masculina (literal e moral). Um dos “problemas” do gênero é o papel da mulher na trama. Como a “femme fatale”, ela geralmente é atraente, misteriosa, sedutora e manipuladora, sempre responsável por “tirar o homem do caminho”, uma fórmula machista que nos dias de hoje é incômoda. As mulheres explicitamente sexuais eram punidas e vilãs e os homens sempre são “vítimas” de seu charme.


O sucesso de Babygirl tem sido inverter de alguma forma a fórmula (é mais do que isso, apenas cito como exemplo), mas, o “clássico” sempre mantinha a dinâmica da mulher – como vilã – usando os homens para sexo e crime. Um reflexo, estudiosos afirmam, para a insegurança masculina depois do movimento feminista dos anos 1970s, que lutou para dar as mulheres respeito e espaço no mercado de trabalho e assim, no cinema, a resposta foi refletir a ansiedade masculina sobre a independência feminina associando corpo e sexo à armas. Também por isso, quando Sex and The City, hoje tão tímido e limitado mesmo para as mulheres, foi tão revolucionário ao colocar mulheres independentes “fazendo sexo como os homens” mas longe de serem “femme fatales”.
Além da superexposição, o declínio da popularidade do gênero, antes da virada do milênio, se deu também pelo período de medo da AIDS, uma doença erradamente associada primordialmente e simplificadamente à sexo, mas que foi epidêmica no período. Por causa da cultura do medo, que imperava na época, a fórmula de punir prazer com morte (e violenta, de preferência) era tão comum nos filmes. Da mesma forma que Atração Fatal e Instinto Selvagem bombaram nas bilheterias, fracassos como Showgirls e Jade são apontados como as referências de fracasso, com Hollywood aos poucos se afastando de investimentos em filmes assim.
Voltando à Nicole, quando De Olhos Bem Fechados estava ainda sendo filmado, os rumores mais conhecidos sobre bastidores seriam justamente as cenas de sexo dela com Tom Cruise e outros atores, assim como a famosa cena da orgia. Quando o drama chegou às telas com uma proposta de história mais profunda, de certa forma, desarmou o público e gerou incômodo.

O que sustenta a volta do sexo às telas, segundo os críticos, é o que fez sucesso no Festival de Cinema de Veneza em 2024. Além de Babygirl, há cenas de sexo com Daniel Craig em Queer assim como “há muito sexo na praia em Disclaimer, de Alfonso Cuarón“, filme estrelado por Cate Blanchett. Como diz o artigo da The Hollywood Reporter, Veneza trouxe “erotismo de todas as variedades: gay, hétero, pervertido e teórico”.
O que obviamente é preciso ressaltar é que a retomada do cinema sexy está estabelecendo “a nova moral”, com papéis menos estereotipados e menos castos também. O sexo não é para chocar ou constranger atores, mas tem uma proposta reflexiva ao mesmo tempo que excitante. “O objetivo do novo cinema quente e pesado é mais terapêutico”, explica a THR. Ou, como a personagem de Harry Dickinson explica à Antonio Banderas em Babygirl, tentar entender o que está acontecendo usando conceitos passados “é uma ideia ultrapassada sobre sexualidade”.
O fato de que críticos se sentem impelidos a citar as cenas de sexo dos filmes em destaque meio que sugere uma libido despertada, ou seja, os autores acertaram no nervo adormecido. Há, segundo consta, “duas cenas de sexo explícito em The Brutalist, de Bradley Corbet“, assim como Queer. Por que diante de tudo, é o sexo que merece ser destacado? Porque vende?


Seja como for, é bem vindo. A diretora de Babygirl foi bem clara em explicar sua inspiração: “Como consumidora, às vezes eu só quero ver um filme quente, um filme sexy com pessoas quentes em cenas que me excitam um pouco”, declarou. “Como uma mulher com meus desejos, sempre me senti como uma alienígena. E esses filmes [thrillers eróticos dos anos 1980s e 1990s] meio que me disseram que esses desejos mais sombrios eram aceitáveis, embora, no final do filme, a mulher seja punida principalmente. Este filme [Babygirl] é minha resposta, minha resposta feminina, para esses filmes. Ele realmente conversa com esses filmes e olha com um pouco de humor no olhar masculino. Estou explorando as questões de poder e sexo em nosso momento atual, mas para me divertir um pouco com isso também”, completou.
É a abertura oficial do novo thriller erótico versão 2.0. Será que vai agradar? Eu, pelo menos, não gostei de The Idol ou Blonde, mas estou aberta a mudar minha visão.
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