A história dos Irmãos Menendez foi tão chocante, inesperada e incômoda que é difícil, mesmo 35 anos depois, não ter uma opinião (negativa) sobre o caso. Abuso sexual e incesto eram tabu, portanto, quando foram apontados como motivação para o assassinato de seus José e Kitty Menendez, boa parte do planeta achou que Erick e Lyle Menendez estavam mentindo. Os que acreditaram ainda consideram a frieza e a violência do crime injustificados. Até hoje as referências ao que eles fizeram começa com infame e horrível.
Depois de ter sido criticado por ter – para alguns – parecido simpático com Jeffrey Dhamer e supostamente ignorado as famílias das vítimas no processo de desenvolvimento da série, em Monsters: A História de Erick e Lyle Menendez é tão agressivo com os dois irmãos como com as vítimas. E as cenas do assassinato são extremamente gráficas, fica o aviso.
Para os que esperavam que a série pudesse “ajudar” a argumentação dos irmãos de que mereciam um terceiro julgamento, não me parece que a série da Netflix seja a favor. Ao contrário. São 8 episódios que mudam perspectivas em vários aspectos, mas, ao final, a conclusão é a mesma ou até pior.

O principal desafio para Ryan Murphy aqui era superar a expectativa de uma história que já foi filmada, discutida e reescrita. E confesso que por mais da metade da série fiquei dividida entre desgostar do que parecia frequentemente overacting e simplificação como com a mão pesada no texto opinativo e explicativo para nos mostrar o pior de Lyle, Erick e os que estiveram ao lado deles. Porém, chegando aos três últimos, aliviei a rejeição.
Monsters: A História de Erick e Lyle Menendez não é o melhor trabalho de Ryan Murphy, nem de Javier Bardem ou Chloe Sevigny, mas tampouco é lixo. A opção narrativa de nos mostrar perspectivas opostas não engrena e com isso parece longo, arrastado. Também é detalhista quando não esperamos e superficial quando queremos entender mais.
O elenco traz dois iniciantes, nada parecidos fisicamente com os Menendez verdadeiros, o que já foi ousado porque nos dá liberdade de esquecer a verdade e embarcar no que a série nos mostra. A Variety, considera a atuação de ambos novatos “extraordinárias”, eu não. Estão bem, claro, mas não chegam aos pés do que Evan Peters fez em Dahmer. Ou Darren Criss em O Assassinato de Gianni Versace.
Os exageros e famosas atitudes passionais de Lyle nos fazem reagir à Nicholas Alexander Chavez mais do que simpatizar e a timidez de Erick faz Cooper Koch parecer apagado. Javier Bardem já fez papéis mais assustadores do que José Menendez (um elogio e uma crítica tortuosas, estou ciente) assim como Chloe Sevigny também já interpretou mulheres bêbadas e complexas com maior destaque do que Kitty Menendez. Mas o principal é que ao destacar sempre como quatro monstros, não nos conectamos com ninguém. Por que estamos dando nosso tempo?

Ryan Murphy não escolheu estudar o passado da família antes da tragédia. Começamos com o crime, com o desalinho histérico e excessivo dos assassinos que aparentemente iam escapar com o crime perfeito, mas que tropeçaram na arrogância e desequilíbrio para se exporem e serem presos. A partir daí vamos acompanhando como os abusos e toxicidade – na versão dos dois, corroborada pelos testemunhos de parentes – contribuíram para uma conclusão violenta e chocante para a vida dos Menendez.
Apenas nos episódios finais passamos a ter uma imagem mais simpática às vítimas, o que é um tanto confuso porque terminamos a série induzidos a ficar com mais dúvidas do que quando começamos. O fascínio da história desse crime, que perdura há 35 anos, é justamente não entender qual seria a verdade para que os irmãos tenham optado matar seus pais tão brutalmente. Eles sofreram mesmo os abusos? Qual dos dois é o dominante? Quem planejou tudo? Quem executou? Por que mataram seus pais?
Monsters: A História de Erick e Lyle Menendez toma algumas decisões quanto a quase todas questões. São bem mais diretos quanto ao homossexualismo de Erick, ao incesto entre os irmãos, ao vazio da vida dos Menendez, a repressão, as agressões físicas e verbais, mas dá uma virada estranha quanto ao abuso sexual.

A advogada de defesa dos dois, Leslie Abramson, bem interpretada por Ari Graynor, se apegou emocionalmente aos clientes, em especial Erick. Foi ela quem surpreendeu ao mundo colocando o trauma dos abusos sexuais dos dois como argumento de defesa, o que os salvou da sentença de morte, mas até hoje divide opinião. É que ela já tinha usado a mesma estratégia antes, como a passagem do jornalista Dominick Dunne (Nathan Lane) entra para ressaltar. A história dos dois tem um episódio dedicado aos dois, que merece comentários à parte.
O fato é que Monsters: A História de Erick e Lyle Menendez toma um partido surpreendente na conclusão da série de compartilhar, aparentemente, a suspeita da narrativa criada por Leslie. Fatos atuais confirmam que José era pedófilo e um predador sexual, algo que está em cena, mas não apóia o trauma como motivação.
O monólogo onde Erick descreve em detalhes é o episódio 5 completo, sem cortes, com uma câmera parada por 30 minutos, é, sem dúvida, o mais denso e importante da série. É tão fora do que a narrativa apresenta antes e depois que considero onde se transforma descaradamente em um episódio pensado para premiações. Sim, seguindo os passos de The Bear e Bebê Rena, e The Hurt Man é teatro gravado de uma longa descrição de dores e traumas, onde Koch faz sua carreira.

Os três episódios finais revertem todas as expectativas do caminho que estávamos trilhando no início e são mais, como falei, simpáticos com José e Kitty. Também invertem os papéis de líderes entre Lyle e Erick.
No final das contas, a série nos propõe a duvidar do argumento de defesa dos irmãos. A parte de que sofreram abusos sexuais não, fica claro de que que José realmente fez o que descreveram. Porém questiona se o trauma efetivamente teve alguma influência na decisão dos dois. Me parece até que opina que Erick e Lyle são dois sociopatas, mimados e inconsequentes, mimados e mentirosos compulsivos. E seus destinos atrás das grades era inevitável, provocado igualmente pelos dois. Numa sugestão ainda mais surpreendente, a última cena inverte o irmão que incentivou tudo, nos fazendo questionar se Lyle foi apenas o instrumento da vingança de Erick. Soa bem mais incrível do que realmente é, infelizmente.
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