A Manipulação da Narrativa em Hollywood: matérias e documentários sem responsabilidade

Há uma verdade quase absoluta em Hollywood: se a celebridade quer ‘controlar a narrativa’, ou seja, dar a SUA versão dos fatos, suas redes sociais não são suficientes. A partir daí, é essencial encontrar veículos que possam endossar sua visão da verdade e, ao que parece, há dois veículos que publicam o que querem: People Magazine e Netflix.

Na revista, que nunca revela as fontes das matérias e sempre as identifica como “próximas” ou “amigos”, longos artigos ‘exclusivos’ corroboram o que o famoso sente. Blake Lively fez isso recentemente quando a People publicou que “amigos” confirmaram que ela estava confusa e triste com a repercussão negativa de sua atitude grosseira com repórteres no passado ou mesmo seu posicionamento quase irresponsável sobre violência doméstica. Em outros momentos, Meghan Markle e Príncipe Harry também aparecem citados por “fontes próximas” toda vez que querem cutucar a Família Real britânica. Brad Pitt tem amigos que testemunham o quanto ele sofre na mão da “vingativa” Angelina Jolie. Por aí vamos.

Na Netflix, há um sem fim do que chamo de “pseudo documentários”, ou especiais, que não ouvem o lado crítico e só dão voz para quem choraminga ou reclama. Em ambos os casos me preocupo ainda mais com quem aposta nessa estratégia de comunicação: o que está querendo esconder?

Sou romântica idealista e ainda considero que matérias ou documentários de denúncia ou exposição têm que ter fontes identificadas e dar espaço para opiniões contrárias ao que está sendo tratado também. O velho “cada história tem dois lados”, não muda com o que sentimos. Distanciamento pode não vir do depoimento, mas de uma chance de todos falarem para que o leitor/consumidor decida que lado considera o mais correto.

Porém eu entendo também que a cultura atual pareça mais preguiçosa. Em geral, as pessoas querem ouvir uma opinião e partir daí decidir se apoiam ou não. Sei que parece ser a mesma coisa, mas não é. Essa toxicidade que hoje domina plataformas como o X movimentam os algoritmos e o vício de falar qualquer coisa para estar em evidência.

E também quem há de dizer que mesmo incluindo nomes e fatos não há um peso editorial para um lado? Claro que acaba tendo, mas o fato é que o que a Netflix e a People têm feito é eliminar o mais importante na troca de informação: ‘accountability’ que a tradução por ‘responsabilidade’ não parece suficiente. Você tem que prestar contas do que diz.

Anonimato em denúncias, a meu ver, se aplica em conteúdos sobre crimes, porque é uma questão de proteção à quem está colaborando. Mas, mesmo aqui, nem todas as denúncias só podem ser de fontes sigilosas. A partir da primeira, é preciso ter alguém oficialmente bancando o que está sendo revelado. Já Anonimato em entretenimento é fofoca. E quem publica ou exibe conteúdos claramente manipulados também faz parte da indústria de fake news. Ironicamente, boa parte dos famosos que estão usando fake news são os que reclamam dela. Um ciclo vicioso complexo.

Há meses sigo acompanhando mas parei de falar sobre a Família Real britânica. A pauta sempre traz audiência, mas, o que pra mim parecia inocente passou a ser mais um elemento desse quadro atual doentio e agressivo do qual escolhi sair. Há inúmeros canais no Youtube e contas nas redes sociais onde a agressão verbal e psicológica superam a sanidade mental e incita a tragédia. Ver o que foi escrito sobre Kate Middleton no período no qual ela descobriu ter câncer foi digno de um roteiro de um filme de terror.

Sou mesmo antiquada, admito e ainda considero como regra básica que revidar na mesma moeda é catártico, mas desaconselhável. O problema é que hoje todos nós somos vistos como “marcas” e forçados a ter “estratégia de comunicação” e “posicionamento”. Por isso surgiu a urgência de “dominar a narrativa” e responder rapidamente ao que pode tirar o seu valor. Porque ele é percebido como financeiro antes de mais nada. É o que Ellen DeGeneres, num dos raros momentos do seu especial na Netflix fala corretamente: ela tem que se importar com o que pensam dela porque sua popularidade é sua moeda. E ela é milionária.

O pseudo stand-up Ellen DeGeneres: For Your Approval é na verdade uma sessão terapêutica pública e um desabafo para fãs sobre o cancelamento mais recente que ela sobreviveu. Ellen tenta nos fazer rir dela, das críticas, das galinhas, mas nada emplaca de verdade. A menos que você seja fã incondicional dela, claro. É tudo forçado com pausas para risadas, para que o aplauso se estenda até ser de pé e sim, ela mostra que Oprah está na plateia. O triste é ver que Ellen não entendeu nada e que aquele pedido de desculpas oficial? Não foi sincero.

Confessando sua vulnerabilidade após ter sido acusada de “má” e conivente de maus tratos, é okay ter um espaço para que coloque seu ponto de vista. Seu talk show foi cancelado em 2022 tanto por baixa audiência como por acusações de que a apresentadora, cujo lema de assinatura era “sejam bons uns com os outros” era mais adepta ao “façam o falo, mas não o que faço”. Fria, estrela, ríspida e antipática, ao pregar mais empatia acabou colocando um holofote sobre si mesma.

Ellen é sincera quando admite que “caiu na armadilha” e “não tinha perfil” para seguir o próprio conselho. Sugere, tentando nos fazer rir, que o mais adequado teria sido “mandar todo mundo se f**** porque aí veriam que sou bondosa”. Sei que ela tenta emplacar essa declaração como uma gozação, isso ela enfatiza a crítica de que ela de verdade ela admite que seu lema não estava coerente com sua vida, portanto não era autêntico.

Ora, claro que tem que ser uma ignorante (embora existam pessoas assim) para recomendar agressão em vez de empatia, mas quando os muitos exemplos de sua antipatia com as pessoas ‘comuns’ é usado contra ela é preciso ter autocrítica antes de discutir perdão. O fato é que filantropia é lucrativo, assim como uma imagem positiva. A (falsa?) bondade de Ellen rendeu a ela popularidade, audiência e dinheiro. Enquanto o tripé estava funcionando, mesmo ciente de que sua persona era complexa, seguiu o jogo. Só reclamou quando foi confrontada.

Para a comediante, que já tinha vivido um cancelamento quando anunciou para o mundo que era gay, é possível recomeçar e dar a volta por cima. Talvez com 66 anos fique mais difícil, mas o ponto é que os atos falhos de sua “surdez” são ainda mais claros quando ela força a mão para argumentar que só foi cancelada porque é mulher, e, na tríplice maior: mulher, gay e velha. Como falar dela com essas cartas? Mas podemos. Lá fora há homofobia, há misoginia e há etarismo, mas também há cobrança por autenticidade, responsabilidade e transparência.

Ellen, assim como outros que se indignam quando são acusados de assédio moral, em geral têm dificuldade de entender que ser assertivo, ser específico e mais ainda, ser exigente, não demanda ser ríspida, distante, pedante ou indiferente. Atitudes agressivas no trabalho, mesmo que passivas, contribuem para um mal que todos combater na raiz e que é justamente o efeito negativo na saúde mental das pessoas. É um tema extremamente difícil por ser subjetivo, mas, no caso dela, não era apenas uma pessoa ou duas a acusando de ser “má”, mas dezenas.

Para alguém tão famoso como Ellen é de fato impossível ser legal com todos o tempo todo, há sim a vigilância da qual ela também faz piada, mas tudo faz parte da equação. Foi ela que levantou o lema da bondade, poderia ter ficado sem ele ou criado outro. Mesmo que, e ela tem direito, Ellen se veja como uma boa pessoa.

O especial da Netflix, portanto, não é para “pedir desculpas”, mas quase retirá-las. Para alguém de gerações mais velhas (me incluo), o conceito atual de desculpas é mais próximo do que sentimento de submissão à críticos, humilhação e linchamento público. Porque normalmente quem comete o erro em geral não o faz conscientemente. Portanto tem que mudar sua compreensão interna, externa e aí se retratar. Para ser sincero demanda vontade de querer revisitar a situação de coração aberto. E dói muito.

Eu convivi na minha carreira com talentos famosos aqui no Brasil, também trabalhei em ambientes tóxicos, nem sempre são notados ou controlados pelo talento, mas quanto mais distante ele está da equipe, mais há espaço para que o mal se instale. Por outro lado, a fama é como uma mariposa e a luz: as pessoas cercam o talento ao ponto que passa ser necessário tê-lo isolado para ter privacidade. Aí, subalternos fazem a ponte e os problemas começam.

Quando Ellen se desculpa no especial alegando que não apenas não tem perfil para ser chefe como ela não agia como tal, a primeira parte soa honesta, a segunda como uma desculpa. Toda vez que se vitimiza é contraditória, o que torna o stand-up sem graça e esquisito.

No especial há, no fundo, o que eu chamo de “efeito Johnny Depp“. Depois que o ator foi cancelado e praticamente destruído por sua ex-mulher Amber Heard, que o acusou de abuso doméstico, Depp processou Heard e teve uma vitória judicial e midiática surpreendente. Ele partiu para o tudo ou nada e se expôs como nunca no processo de difamação. Virou febre no Youtube e recuperou sua popularidade entre os fãs. Hollywood não abriu as portas novamente, mas ele diz que nunca foi essa a meta. O que queria, alcançou.

A coragem de Depp é única. Ele abriu sua vida de uma forma que nenhum reality show conseguiria fazer porque os dois lados falaram nas mesmas circunstâncias e o veredito foi que Depp tinha razão. Derrotada, Amber Heard, como Ellen, insiste que é a vítima e que houve misoginia influenciando o resultado. Há quem concorde com ela, mas ninguém nega que o público em geral viu no depoimento de Johnny Depp maior autenticidade e veracidade.

Comparando os formatos, me questiono se julgamentos de celebridades seriam os novos reality shows esperando a ser explorados. A MAX tem um formato de fazer dois documentários opostos e nos deixar decidir, mas não há o elemento do ao vivo como foi Depp Vs Heard.

Por isso, lamento muito por Ellen, por tudo, mas mais ainda por estar presa em num momento emocional duro. Ela alega que o especial é uma despedida e que quer mesmo cuidar de suas galinhas. Mais uma vez, não soou autêntica. A arte de pedir desculpas é mesmo sem graça e muito difícil.


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