Por que Ninguém Quer Isso é a Comédia Romântica que Precisamos

A fórmula clássica das comédias românticas, em alta desde o início dos tempos em Hollywood, mas menos popular nos últimos 10 anos, era a de que “opostos atraem”. Em geral o casal implicava um com o outro por 85 minutos, reconhecendo que não poderiam viver um sem o outro nos cinco minutos finais. Sem surpresa, com a mudança geracional essa ótica tenha perdido o apelo e a aposta da Netflix em ressuscitar o gênero traz sucessos como Emily In Paris e agora Ninguém Quer Isso, que estreou no final de setembro de 2024 com boa recepção entre os assinantes.

A trama de Ninguém Quer Isso é simples: um casal que em qualquer circunstância poderia ser classificado como “opostos” se apaixona justamente porque ambos querem quebrar seus padrões românticos, mas encontram a resistência entre os que o cercam.

Estrelada por dois astros de séries de adolescentes da Geração X – Kristen Bell, de Veronica Mars e Adam Brody de The O. C. – ambos na casa de 44 anos atualmente, a série tem química, nostalgia, fofura, graça e drama nos tons certos. Não me parece que possa estender muito mais do que mais uma temporada, mas a primeira criou situações que se sustentam tanto para distrair como apreciar a proposta.

Talvez o segredo esteja no fato de que a showrunner, Erin Foster, tenha tirado a história de suas próprias experiências como podcaster e como participante da cena de namoro de Los Angeles. A mocinha tem suas neuroses (senão não seria comédia romântica) mas a acompanhamos querendo arduamente quebrar seu padrão e sua neurose de destino e, mesmo que falar em geral seja mais fácil do que fazer, sua determinação nunca soa impossível e abre porta para as “falhas” que provocam algum drama quando ela volta ao cenário familiar de suas dores passadas.

O real desafio do casal aqui não foi o coração dessa primeira temporada, embora tenha sido central para as cenas cômicas: Joanne (Bell) e Noah (Brody) terão como obstáculo a questão religiosa. Ela é agnóstica convicta e ele um rabino em ascensão na sua comunidade. Ou seja, do lado DELE, ninguém quer os dois juntos. Do lado dela, o lado comercial de seu podcast também não rende com ela feliz, pois o sucesso era o fato dela ser sarcástica e aberta sobre as falhas de sua vida sexual e relacionamentos disfuncionais, portanto estar equilibrada “perde o charme”.

Muitos fãs de Fleabag pescaram as referências fortes dessa versão americana que só faltou incluir as quebras da quarta parede para deixar mais clara a inspiração, mas funciona ultra bem graças à química de todo elenco. A primeira temporada, com 10 episódios de 30 minutos, é facilmente devorada em pouco tempo, definitivamente resultando “queremos isso” que o título incita.

Há de se destacar a veia cômica de Justine Lupe, que víamos em Succession em um papel menor e que aqui desfila com naturalidade no papel da irmã invejosa e complexa, assim como Jackie Tohn de Glow como a cunhada dominante de Noah, sem esquecer de Timothy Simons como o marido e irmão casado de Noah. Sem eles o casal estaria morno e sem graça.

O caminho de Ninguém Quer Isso é agora transferir para Noah e Joanne o peso que nessa temporada ficou com parentes e amigos: superar as diferenças culturais e o impacto das decisões deles nas suas vidas. Joanne tentou se adaptar ao mundo de Noah considerando a conversão, mas como mulher do rabino teria que abrir mão do podcast pois sua liberdade editorial estaria restrita. E viver sem Joanne não é algo que Noah considere possível, portanto ele tem que considerar se segue sua carreira religiosa ou se adapta em outra, ou seja, ao mudar o padrão de relacionamento que os faz felizes juntos terão que revisar suas vidas profissionais também e aí o desequilíbrio pode ser (como foi em Fleabag) vital. Ou seja, bem vindos ao universo da comédia romântica! Queremos mais e muito mais disso.


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