Não é para celebrar, mas, na onda de true crime como fonte de filmes e séries de sucesso ao redor do mundo, o Brasil tem também uma lista de assuntos que são apavorantes, traumáticos e “potenciais sucessos”, o que parece ser o destino de O Maníaco do Parque.
O filme que estreou agora no final de outubro da Amazon Prime Video antecede um documentário sobre o caso do assassino em série que apavorou o país por meses em 1998. Tenho mais esperança pelo relato factual do que essa versão ficcionalizada.

A curiosa opção do roteirista L. G. Bayão foi criar uma personagem feminina fictícia para antagonizar o assassino Francisco de Assis Pereira, algo cujo o resultado não é exatamenete efetivo. O assassino matou 10 mulheres e abusou de outras 13, ganhando notoriedade e o ‘apelido’ de Maníaco do Parque porque seus crimes eram cometidos no Parque do Estado, na zona sul de São Paulo e para quem acompanhou o caso pelos jornais há mais de 20 anos, essa mudança na história ficou um pouco confusa. É essencialmente o que atrapalha o resultado do filme.
Acompanhamos a história de uma jornalista novata, Helena (Giovanna Griggio) que fica obcecada com uma onda de ataque e assassinatos de mulheres em São Paulo e que é quem ajuda a identificar o mais famoso serial killer brasileiro: o Maníaco do Parque. O assassino era o motoboy e skatista Francisco de Assis Pereira (Silvero Pereira, excelente), que escolhia e abordava suas vítimas entre mulheres tímidas e vulneráveis, com a desculpa de que iria fotografá-las para uma campanha publicitária de moda, para levá-las até o parque onde as espancava, violentava e matava.
Parece até distante, mas como o filme alude, em 1998, essa onda de crimes efetivamente pôs a maior cidade da América Latina em pânico, pois além de não ter uma tradicial de assassinatos em série, os crimes contra mulheres não eram levados tão à sério. Por essa razão a produção elegeu uma protagonista feminina, mas passou longe do alvo. O que de fato ficou marcante quanto à cobertura jornalística da época – citada em O Maníaco do Parque – foi o auge da popularidade dos programas sensacionalistas na TV, que transformaram Francisco em um homem famoso e que lucraram com o mistério.
A dificuldade de chegar até o serial killer, como mencionado, se dá também por conta da misoginia ainda pior de quase 30 anos atrás, uma vez que as vítimas “caíam no papo” do criminoso e dificultavam a identificação de um padrão. Eventualmente, as sobreviventes conseguiram ajudar a criar o desenho falado de Francisco e ele, que fugiu, foi localizado pela polícia no sul do Brasil, com a ajuda de um pescador. Francisco foi preso e condenado a 268 anos de prisão, mas, como a lei só permite 30 anos atrás das grades, em apenas quatro anos poderá ser liberado, a partir de agosto de 2028.
O que segura O Maníaco do Parque é a atuação de Silvero Pereira como Francisco, mas é igualmente desequilibrado com a atuação de Giovanna Griggio, num papel tão clichê e mal costurado que nos desconecta do drama ou do suspense. Dirigido por Mauricio Eça, que também assinou A Menina que Matou Seus Pais (o filme sobre Suzane von Richtofen), O Maníaco do Parque é um passeio quase superficial sobre um dos crimes mais marcantes da história recente do Brasil, uma oportunidade perdida.

Ter uma protagonista mulher era uma proposta inicialmente positiva, afinal, o público feminino sempre liderou o consumo de true crime (Freud explica facilmente esse retrato uma vez que são as mulheres as maiores e mais frequentes vítimas) e, como disse, um dos maiores obstáculos para chegar até Francisco foi o fato dele ter sido descrito como “sedutor”. Mas além de interferir com o factual, não criou a conexão com a história, numa atuação forçada e fraca de Giovanna. Para piorar, é como se não definisse o que quer contar: é sobre o crime ou sobre a sociedade machista brasileira? Porque a versão de uma sociedade machista lidando com feminicídio também ficou incompleta.
Até a alternativa de ter uma conversa entre ela e a tia psicóloga, para explicar a motivação do assassino e a vulnerabilidade das vítimas ficou desafinada. Os autores alegam que a opção de omitir as partes mais escrabosas dos crimes, incluindo as histórias de abuso que o assassino sofreu na infância, foi em respeito às vítimas, mas o desafio de ser fiel e delicado é o que faz contar histórias verdadeiras algo tão complexo.
Fico com pena de ser tão dura com O Maníaco do Parque porque tinha uma expectativa bem maior, percebendo todo potencial desperdiçado na tela. A plataforma vai agora lançar o documentário sobre os crimes e esse sim, deve incluir as partes mais assustadoras de tudo.
Portanto, se você tinha idade para acompanhar e lembra da cobertura dos crimes de Francisco de Assis Pereira, O Maníaco do Parque pode não chegar aos pés do pânico que ele infligiu no final dos anos 1990s, mas, por conta da grande atuação de Silvero Pereira e diante da possível liberdade do assassino em poucos anos, é ultra relevante relembrar os crimes. Para respeitar as suas vítimas.
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