Antecipando “Canções de um Mundo Perdido” e um álbum extremamente pessoal do The Cure

Música pra mim é oxigênio. Simples assim. Não vivo sem. Ouço praticamente qualquer tipo, mesmo com alguns autores ou bandas preferidos. Dentre eles, talvez já tenham percebido, está o The Cure e Robert Smith. Por isso, sem surpresa, estou tão ansiosa para o dia 1º de novembro de 2024, quando lançam o álbum Songs of a Lost World porque ele encerra nada menos do que 16 anos de um hiato de músicas novas. A expectativa está na estratosfera.

Há muito que contribui para um cenário de possível histeria em poucos dias: ser fã nos anos 2020s é ser “stan”, que é uma versão de admirador possessivo de seu ídolo, um tipo assustador como a definição sugere e o oposto do que o tímido Smith poderia antecipar.

Tenho certeza que cruzou pela mente dele, como de sua gravadora, que passar mais de 15 anos sem gravar nada novo levaria o The Cure ao esquecimento, mas o efeito – alinhado com os dias atuais – foi o oposto. Os fãs da banda, na casa dos 50 anos pra cima, estão emocionados. Os stans, que são os filhos e netos dos admiradores originais são os citados stans, que, para ser específica, são definidos como “fãs extremamente ou excessivamente entusiasmados e devotados”. Para os stans, ter algo novo de um dos grupos mais idolatrados dos últimos 40 anos, é um acontecimento.

Quem pode negar que é mesmo algo incrível? Robert Smith escreveu algumas das canções mais representativas e icônicas dos anos 1980s e 1990s, seu estilo é único, sua atenção aos fãs é genuína e sua autenticidade é ímpar. Estive no show deles em dezembro de 2023 e confirmo que ainda são os melhores.

Ao cantar algumas das canções novas nos shows (eles abriram com a emocionante Alone e tocavam outras, como Endsong), o The Cure nos confirmou que amá-los vale a pena porque o paradoxo de ter algo novo que soe familiar é uma viagem confortante que apenas a música (e gênios) conseguem proporcionar.

Como teaser, eles lançaram dois singles em outubro de 2024, Alone e a também deliciosa A Fragile Thing. A outra que consta de Songs of a Lost World é outra que tocaram em shows: I Can Never Say Goodbye, declaradamente ultra pessoal para Robert Smith pois ele cantava chorando e dedicando ao irmão que perdeu há poucos anos. Restam assim, cinco outras canções que ainda não ouvimos.

Sim, são apenas 8 faixas depois de 16 anos de espera, estamos famintos. Críticos que tiveram acesso ao álbum completo avisam: é o melhor e mais melancólico desde o que consideram obra-prima da banda, Desintegration, de 1992. A razão seria a combinação perfeita de letras, melodias e arranjos melancólicos e emocionantes.

Isso é uma grande notícia para os fãs (os stans são obssessivos a ponto de recusar críticas) pois efetivamente os últimos álbuns do The Cure mostraram sinais de desgaste. Nada que Robert Smith não tenha avisado. Há décadas cantava e avisava que ia parar, que não estava mais inspirado.

Os álbuns Wild Mood Swings (1996), The Cure (2004) e 4:13 Dreams (2008) estavam longe do que a banda fazia sem ser nem comercial o suficiente para “compensar’. Bloodflowers, de 2000, foi na época anunciado como “o último do The Cure” e como avisava em Maybe Someday, onde Smith canta “No I won’t do it again, I don’t want to pretend. If it can’t be like before I’ve got to let it end. I don’t want what I was, I had a change of head But maybe someday…” confirmava que ele mesmo estava exausto.

Com isso, em uma entrevista para a NME, o vocalista elegeu o que ele considera que ainda é bom, admitindo o que gosta menos do que fez. Fico feliz de estar 100% alinhada com ele. O álbum de 2004? Não tem orgulho. To Wish For Impossible Things, de 1992, é uma de suas favoritas (e minha!), assim como Faith (sim!) do álbum de mesmo nome de 1981 e Untitled de Desintegration, de 1989.

Embora o álbum seja o primeiro em 16 anos com material inédito, ao longo desses anos o The Cure embarcou em uma série de turnês e gravações ao vivo que sedimentaram a fidelidade de quem clica com eles. De estranhos à famosos e finalmente à lendários eles são hoje uma das bandas mais reverenciadas da atualidade, por músicos ou fãs. Daí a certeza dos stans. Se alguém entra no patamar de Deuses, eles vêm na cola. E não há quem não ame The Cure hoje em dia.

Não que precisasse, nas Robert Smith abriu o coração para explicar o contexto de Songs of a Lost World. Não era (apenas) perfeccionismo que o fez abandonar canções no meio, nem voltar atrás de declarações que estava trabalhando em algo novo. Sua vida pessoal, marcada por perdas, colocou freios inesperados no seu processo criativo. Segundo explicou, seu irmão, irmã, tios e tias morreram nesses 16 anos. Para uma alma melancólica como a dele, o impacto dessa dor contribuiu para transformar a dor em música.

E quem ama o The Cure então aumenta a antecipação. Angústia sempre fez parte do repertório do grupo, o que a certeza da mortalidade pode contribuir para essa sensação? A letra de Alone,This is the end of every song that we sing“, uma citação do poema Dregs, de Ernest Dowson, que explora a melancolia e o desencanto com a vida e o amor, é a resposta.

Descrito como “poderoso”, Songs of a Lost World já chega às plataformas e lojas como um dos mais importantes de 2024. Obrigada, Robert Smith. Certamente, a nossa cura em melodia.


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