Sei que estou sendo polêmica, mas o constrangimento geral quanto a série Disclaimer, de Alfonso Cuarón, uma cafonice em puro estado que apenas Cate Blanchett justifica conferir, só não é superior ao de Before, a nova série pretensiosa da plataforma, que honestamente já era uma piada anunciada por ter Billy Crystal como protagonista de um conto de horror/suspense. E se revelou mesmo um horror, sem suspense. Ou com suspense forçado.
O verdadeiro problema de Before, assim como Disclaimer, é o fiapo de história que precisa ser esticado a seis horas quando 80 minutos seriam mais do que suficientes. Por isso, a antiga discussão de formatos e plataformas (no sentido figurado para discutir se era algo para Cinema ou para TV) ter sido SEMPRE relevante. A nova forma de consumo, streaming, parece querer se vangloriar de ter eliminado a ‘binareidade’ da equação apenas para perceber que, nesse caso, não conseguiu.

Vou bater muito na tecla do “tempo”, uma questão que pode ser filosófica como matemática e aqui são as duas coisas.
O que temos hoje é um volume de conteúdo que não funciona como série, mas tampouco dá para ser um filme. O impacto real foi transformar a TV em um investimento caro como o do cinema, reduzir as horas (eram 26 episódios de 1h ou 30 minutos, passaram para 13, depois 8 e agora a média está em 6), mas mesmo assim ter um gap.
Isso mesmo, vejamos que irônico. Até recentemente, a fronteira TV e Cinema estava no processo de produção. Na TV, com mais horas para serem gravadas em menor espaço de tempo, não havia espaço para nada muito belo (criativo sim!): os cortes e viradas tinham que ser mais rápidos, sem tempo para lindas fotografias ou complexidades artísticas. Cada temporada era produzida anualmente, num processo exaustivo para o elenco e equipe. Daí, em parte, o grande apelo de ser estrela de cinema como algo melhor do que de TV.

Até a metade dos anos 2000 não era absurdo saber que teríamos que esperar apenas alguns meses para continuar com nossas séries favoritas. Isso mudou. Agora como funciona? Não é mais estranho ter de esperar dois ou três anos para seguir com a trama. O que fica bizarro porque, por exemplo, a história de Stranger Things, da Netflix, em tese decorre com crianças de 13 anos, mas o elenco infantil já está indo para a casa dos 25 mais, sem termos chegado à conclusão. No meu livro, isso é uma derrota.
Dito isso, voltemos ao ‘formato’. Por conta da questão prática de que o dia tem apenas 24h e a grade de TV linear está restrita à isso, há um cálculo matemático obrigatório para encaixar o produto na grade de programação. Nos cinemas os filmes são programados também considerando as 24h, mas, em geral, começando a partir do início da tarde e inserindo a última sessão antes da meia-noite. Para que se possa ter um número maior de público e de oferta, a experiência mundial estabeleceu que um filme teria a duração mínima de 1h10 (70 minutos), sendo a média ideal para TV que ficasse entre 1h20 (80 minutos) e 1h30 (90 minutos). Os título longos chegariam à perto de duas horas (120 minutos) e apenas exceções seriam superiores a esse limite, como Titanic (3h15 totalizando 195 minutos) ou a trilogia O Senhor dos Anéis, onde cada filme (no cinema) tinha a média de 3h (180 minutos).


Discutir duração nunca foi um tema fácil. Hoje em dia diretores como Christopher Nolan e Martin Scorcese só entregam obras de mais de 3h, um tema que já discuti aqui em Miscelana. Também já discuti o desafio de transformar livros em filmes ou séries, com resultados e desafios distintos.
Vejamos a duração de O Senhor dos Anéis (os filmes), que engloba esse tema. Adaptar os livros de mais de 400 páginas com um universo rico em cenários, batalhas e seres mágicos em pouco mais de 3h pode ser avaliado como curto. Muitos apostam que o formato de série – com temporadas e episódios múltiplos – seria o ideal. É sim uma discussão subjetiva, afinal, foi justamente esse o argumento vencedor para que Game of Thrones fosse parar na HBO e não nos cinemas.
George R. R. Martin queria um filme, mas resumir o que nem em oito temporadas foi concluído, era virtualmente impossível. Na TV, com investimento de milhões, foi outro assunto. Ainda assim, há a corrente (estou dentro) que questiona se House of the Dragon sustenta quatro temporadas sem ter barriga. Em duas já está dando sinais de desgaste. Tá vendo como a equação parece ser matemática, mas não é?


Parece bizarro estar falando de números e fazendo contas quando estamos falando de Arte, mas minha experiência de programadora fez perceber onde sempre esteve o impasse do mercado. Superá-lo não é impossível, apenas é raro.
Para não ficar apenas reclamando, vejamos o grande acerto da Apple com Slow Horses. A série que é uma ótima adaptação de best-sellers e tem ótimo elenco, já está na quarta temporada com duas mais confirmadas. São 18 livros e quando gravam, são duas temporadas produzidas por vez. Dessa forma, temos uma por ano no ar e a garantia de continuidade.
Ainda na Apple, e é coincidência (ou não?), Ted Lasso é outro exemplo positivo. A série é simples e virou uma febre durante a pandemia, mas, mesmo diante da pressão dos fãs e dos executivos, o showrunner e estrela da série, Jason Sudeikis nunca mudou o que se comprometeu: encerrar a história em quatro temporadas.
Dito isso, a história “acabou” na terceira, mas estávamos viciados e queríamos (e queremos mais). É preciso? Tem o que contar? A discussão segue e em breve pode ser que Ted Lasso volte a ser produzido. Tenho dúvidas se funciona.


A liberdade matemática do streaming, que não se prende às 24h da TV linear, era potencialmente um mar de possibilidades, mas aí entra a questão do retorno do investimento, medido de formas ainda incoerentes, secretas e confusas. Na TV linear esse termômetro é fácil: se assistem na hora que está no ar, é sucesso. Qual o volume no streaming que pode definir esse conceito?
Quem paga a conta, literalmente e emocionalmente, é o consumidor. A pandemia nos fez pensar que teríamos muita novidade toda semana, depois todo mês e agora se tivermos sorte, todo semestre. Sim, as duas greves que pararam os trabalhos em 2023, aquelas que parecias irrelevantes e distantes, acabaram com 2024, onde estamos com a constante sensação de estar faltando algo. Claro que 2025 a realidade será outra (pelo menos no cinema), mas ‘erros’ mais constantes em todas as plataformas me preocupam de estarmos revertendo o streaming para algo novo e ruim.
Claro que ter conteúdos ruins é inevitável, às vezes os executivos erram, o gosto do público muda, etc. Mas se a conta não está fechando é justamente porque a armadilha está no campo cinzento da decisão do formato. Nem toda história sustenta um filme e nem todo livro se resume à poucas horas. Saber decifrar qual é melhor para qual é que demanda um grande time de profissionais.

Dessa forma, o que estamos testemunhando e até sendo cobaias, é um novo movimento do mercado de entretenimento, e uma etapa que já não é apenas tecnológica. As correntes binárias de TV (representado pelo streaming) ou Cinema seguem em discussões acirradas que citam “experiência”, “conforto”, “custo”, e “visão” no universo de lucros e bilhões de dólares. No coração disso tudo está o famoso “storytelling”.
Nós amamos uma boa história e estamos sempre contando ou descobrindo uma. As notícias são histórias contadas e destacadas por jornalistas. Canções por músicos. Livros por escritores. Podcasts por profissionais ou leigos. Tiktoks, Stories, etc. Nossas vidas são tão ficcionalizadas que hoje o conceito de “controlar a narrativa” se aplica a qualquer um e todo mundo. Você saberia determinar se fosse contar a sua vida, se ela seria um livro, uma série, um documentário, um Filme, uma Canção, um musical, um Quadro, uma Foto, uma sinfonia, ou uma ópera? Tudo? Nada? Seria tão obvio ter essa premissa clara, não acha?
Portanto, embora seja compreensível que as plataformas estejam errando ao tentar redefinir modelos e fórmulas, o desafio é que bom senso, embora ainda sendo um termômetro insubstituível, é subjetivo. O fato é que é possível perceber se uma história é rica o suficiente para nos engajar, e, a partir daí, se ela efetivamente nos segura pelo tempo que merece. Acima disso, é tortura. Não acha?
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