A Música de John Williams: Um Tributo ao Gênio Musical

Como publicado em CLAUDIA

Quem ama cinema sabe que John Williams é Deus. Ao longo de mais de 60 anos de carreira, com 5 Oscars (e 54 indicações), o maestro e compositor americano de 92 anos impactou a vida de milhões de pessoas ao redor do mundo, com tema musicais que imediatamente nos transportam para um mundo de fantasia e mágica. Se fosse listar tudo teria que escrever uma enciclopédia! Pois agora em novembro de 2024, chega à plataforma da Disney Plus, o documentário A Música de John Williams uma homenagem à um dos artistas mais importantes dos séculos 20 e 21.

Embora seja apresentado como ‘documentário’, é mais um tributo do que uma biografia, o que jamais deixa de ser merecido! A simpatia, a simplicidade e a tranquilidade de Williams são surpreendentes para um artista de sua estatura (e altura, ele tem mais de 1m90). E aviso, a viagem musical vai te emocionar.

Uma das coisas mais interessantes do documentário de um pouco mais de 1h é que é uma grande oportunidade para novas gerações resgatarem o longo caminho que John Williams percorreu em Hollywood e no universo da música. Seus temas marcaram nossos pais, avós, e filhos de uma maneira inestimável: você pode não ter visto o filme, mas conhece sua música. E se viu o filme, vai sempre lembrar de suas melodias.

Eu sempre falo isso aqui, sou colecionadora de trilhas sonoras há mais de 30 anos, tenho ainda alguns LPs que herdei do meu pai, tenho a coleção reposta em CDs e nem tudo está nas plataformas de música, portanto sou apegada ao meu acervo cuidadosamente curado ao longo das décadas. Os meus compositores Top 5 são Ennio Morricone, Patrick Doyle, Hans Zimmer, Michel Legrand e, CLARO, John Williams. (Dos mais novos coleciono Danny Elfmann, Ramin Djwadi, Bear Mcreary e Clint Mansell). E dessa lista, Morricone e Zimmer são os que se aproximam mais em versatilidade e volume de trabalho do americano.

A música e o cinema sempre estiveram na vida de John Williams desde o berço. Seu pai era músico profissional e foi por isso, depois tocar em big bands, foi com toda família para Hollywood, trabalhar nos estúdios de cinema gravando trilhas sonoras. O pequeno “Johnny”, portanto, sonhava em ser pianista clássico mas cresceu visitando sets de filmagem e vendo o pai trabalhar com compositores e maestros famosos no universo do cinema e da música americana. Isso criou um impacto que mais tarde tornaria uma força criativa em Hollywood.

Sem surpresa, começou a trabalhar como músico contratado e como pianista está creditado em trilhas sonoras como a da série Peter Gunn e filmes como Bonequinha de Luxo e Amor, Sublime Amor, entre vários sucessos até que começasse a escrever ele mesmo as trilhas sonoras de séries como Perdidos no Espaço, um grande sucesso dos anos 1960s.

Com sua personalidade dócil e uma habilidade impressionante para melodias, John Williams passou para o cinema sendo imediatamente indicado ao Oscar por sua trilha sonora no clássico O Vale das Bonecas, em 1967, e ganhando o primeiro pela adaptação do musical Um Violinista no Telhado, em 1971.

E foi há exatos 50 anos que a parceira de maior sucesso de Williams, com o diretor Steven Spielberg começou, de uma maneira que nenhum dos dois esperava. Spielberg, na época, era um promissor e jovem cineasta, mas virtualmente desconhecido e fazendo a transição da TV para o cinema. Já o músico já tinha um Oscar e vários outros prêmios em casa, além de duas décadas a mais de vida. Ainda assim, foi encontro de almas.

Tudo isso é recontado no documentário com depoimentos dos dois e de outros artistas, no mesmo piano onde o maestro criou tantos temas inesquecíveis. Estou falando de temas como os de Tubarão, E.T. – O Extraterrestre, Indiana Jones, Jurassic Park, Contatos Imediatos do Terceiro Grau, A Lista de Schindler e tantos outros. Você vai se arrepiar e chorar a cada um, sem dúvida. Além deles, Williams também criou os temas de Superman, Harry Potter e, claro, o mais especial para mim, da saga Star Wars. Pura mágica sem palavras.

A Música de John Williams é uma aula de cinema com os tons certos de nostalgia. Em alguns momentos didáticos, mas sempre tocando na tecla da emoção. Como os parceiros diretores e os fãs comentam, a música dele faz parte do imaginário coletivo mundial, conta uma história que vemos na tela assim como a que imaginamos na nossa cabeça, e a humildade com que Williams fala de seu trabalho é inspiradora.

Há algumas “falhas” se considerarmos que seria um ‘documentário’: a parte da vida pessoal de John Williams, marcada pela viuvez inesperada aos 41 anos quando sua esposa, a atriz Barbara Ruick, morreu por causa de um aneurisma no início de 1974, além de uma ausência afetiva para os filhos (insinuada pela filha que diz que estava acostumada a fazer o papel maternal para os irmãos e que assumiu essa responsabilidade após a morte de sua mãe), fica um tanto fora de lugar no que parecia ser um mar de tranquilidade na vida dele. O compositor menciona que “ficou um bom tempo sem trabalhar” vivendo esse luto, mas em seguida já passamos para o que foi a fase mais criativa de seu repertório, justamente os clássicos dos anos 1980s. Williams é um homem discreto, isso fica bem clrao.

Da mesma forma, a conturbada passagem pela Boston Pops Orchestra é citada e comentada, sem se aprofundar tanto na polêmica rejeição dos músicos que o consideravam um compositor de cinema e não o suficientemente clássico para liderá-los, fatos que ficamos sabendo (ou somos lembrados), mas que ficam superficiais.

Outro detalhe que fica omitido no processo criativo de Williams são suas extremamente fortes (estou sendo suave) ‘inspirações’ em compositores clássicos como Tchaikovsky, Dvorak, e sobretudo Stravinksy, entre outros, para criar alguns dos temas mais marcantes como Tubarão e Star Wars. Seria técnico? Sim, claro, mas ao mesmo tempo interessante entender como ele pegou emprestado algumas notas para alterá-las no cinema. Digo isso para não esbarrarem no Youtube ou outra fonte onde há especialistas traçando as comparações.

Mesmo com tudo isso, ninguém tira de John Williams o enorme talento de entender tão bem o processo criativo do cinema, sendo tão versátil e ágil. A timidez dele o fez ser, por muitos anos, meio à parte do circuito porque ele acredita, e tem razão, que sua música fala por si só.

E para quem ama uma trilha sonora orquestral (não imagino outra), é maravilhosa a homenagem ao compositor que foi um dos mais importantes de manter e salvar a tradição que quase foi aposentada e trocada por opções que era mais coletâneas ou que usavam apenas instrumentos eletrônicos. Tubarão usa duas notas para nos dar medo, mas, com cinco, o tema principal de Contatos Imediatos do Terceiro Grau é a perfeita metáfora de como a música é o idioma universal.

O mais empolgado entrevistado do documentário é, sem dúvida, Steven Spielberg. Ele convenceu o recluso John Williams a aceitar o holofote em cima dele e finalmente nos conduzir por seu acervo impressionante de músicas espetaculares. Parece que Williams achava que ninguém se interessaria por ele, nós, fãs apaixonados do cinema, podemos discordar.

A Música de John Williams não é apenas um documentário; é uma celebração de um gênio que transformou cada nota em um pedaço de história cinematográfica


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