De Heroína a ‘Louca’: A Jornada de Sofia Falcone em ‘O Pinguim’

Estou me preparando para dar adeus à uma das personagens femininas mais interessantes de 2024, Sofia Falcone Gigante, da série O Pinguim e interpretada pela sensacional Cristin Milioti, mas, me me faz pensar que mais uma vez, estou avaliando uma mulher considerada “louca” ou “implacável”, mesmo que popular e incrível. Será que apenas as mulheres levadas à instabilidade emocional são as únicas interessantes em qualquer storytelling? Por que isso?

Na minha coluna de CLAUDIA já discuti várias e embora entenda que a jornada do herói seja o caminho de desafios, tristezas e perdas, raramente vejo uma personagem feminina em posição de vitória plena. Ou as heroínas sacrificam sua vida emocional para um bem maior ou, em posição de poder, são (mesmo que veladamente) criticadas como “loucas”. E aqui entra logo o aviso: nunca chame uma mulher de “louca”.

O mito da “mulher louca” é um estereótipo que existe há milênios e em várias culturas ao redor do mundo, com raízes bem fincadas em construções sociais e culturais que marginalizam mulheres cujas emoções, comportamentos ou estilos de vida fogem do que é considerado “normal” ou “aceitável” para o gênero feminino. Esse estigma historicamente serviu para deslegitimar a voz e a autonomia feminina, e, além de filmes e séries, sua presença é visível na literatura, na ciência e até na psicanálise. E hoje vou filosofar!

Em termos de contextos religiosos, desde a Bíblia até outras mitologias antigas, mulheres que não se encaixavam nos papéis sociais esperados eram frequentemente demonizadas ou vistas como possuídas por espíritos malignos. Em vez de evoluir, só piorou. Quando chegamos na Idade Média, essas mulheres que ousavam ser diferentes continuaram sendo consideradas “loucas”, mas ainda pior: “bruxas” também. A Inquisição perseguiu e executou milhares de mulheres acusadas de feitiçaria. Tudo só piorava quando alguma tentava mostrar independência ou comportamento sexual menos passivo.

Quando chegamos no século 20, o termo “histeria” era um diagnóstico comum para mulheres que exibiam emoções intensas ou rebeldia. Sim, é um conceito com raiz machista porque a palavra “histeria” vem do grego “hystera” (útero), e os médicos acreditavam que era uma condição exclusiva das mulheres, causada por problemas no útero. Pois é, “ser louca”, ou “histérica”, era uma propensão genética feminina e esta noção transformou a feminilidade em um sinônimo de fragilidade mental, justificando tratamentos violentos e abusivos, como o confinamento em hospitais psiquiátricos, eletrochoques e a prescrição de terapias invasivas. Em Pinguim, como vemos, a inocente Sofia Falcone foi confinada no manicômio Arkhram e torturada por anos. E se foi ‘quebrada’ inteiramente ou parcialmente é aberto para discussão, o fato é que nunca mais foi a mesma. Já volto à Sofia!

Com a ascensão da psicanálise, criada por Sigmund Freud, ele e outros psicanalistas fortaleceram o estigma, associando as neuroses e psicoses das mulheres a supostos conflitos com sua própria sexualidade e ao complexo de Édipo. Essa proposta, obviamente, é simplista e disputada pelos defensores de Freud, mas o movimento feminista nas décadas de 1960 e 1970 fez esse questionamento e criticou o uso da psicanálise para deslegitimar a experiência feminina. Estudo Piscinálise e sei que já avançaram muito e que não é mais tão preto no branco assim.

Nas páginas dos livros, escritoras como Sylvia Plath, Charlotte Perkins Gilman e Virginia Woolf, entre outras, trouxeram o tema da “mulher louca” para a literatura, expondo a angústia mental feminina como uma reação às pressões sociais.

Quando chegamos à rádio, cinema ou TV há um dilema. Artisticamente, é muito mais interessante acompanhar ou viver personagens no limite e, com isso, o mito da “mulher louca” foi reforçado com personagens emocionalmente desestabilizadas. Um dos grandes exemplos, também citados por mim em CLAUDIA, foi o tratamento da personagem Alex Forrester, tanto no filme como na série Atração Fatal, que exploram a ideia de que mulheres instáveis emocionalmente são perigosas. O mito da amante louca reforça um estigma da ameaça. No caso da série, nem menos os 36 anos entre o filme original e a continuação “salvaram” Alex (Lizzy Caplan): ela ainda foi apresentada como a clássica mulher impulsiva, intensa e, muitas vezes, vingativa, mesclando manipulação emocional e obsessão. Até que a série tentou explorar aspectos de saúde mental, mas manteve Alex como antagonista.

Produções Garota Exemplar e Fleabag também abordaram a “loucura feminina”, mas de uma forma mais complexa, questionando estereótipos e abordando as razões por trás de comportamentos considerados “loucos”. Não podemos esquecer da nossa psicopata favorita, e Love Quinn (Victoria Pedretti), da série You, que teve arco narrativo que a humanizou, mesmo mantendo os clichês da “loucura feminina”.

É triste ainda esbarrar com o termo “mulher louca” sendo usado em situações onde mulheres expressam emoções intensas ou resistência às norma, mesmo com a crescente conscientização sobre a necessidade de questionar esse mito e de enxergar as mulheres através de uma lente mais empática e inclusiva. Escritoras, cineastas e ativistas têm buscado desconstruir essa narrativa para validar a experiência emocional feminina e dar espaço para que as mulheres possam existir e expressar-se fora de padrões estereotipados. Mas ainda estamos um pouco longe da linha de chegada.

Por isso, tenho carinho especial por Sofia Falcone (Cristin Milioti) e setirei sua falta. Ela se encaixa no mito da “mulher louca” em vários aspectos. Na série Gotham e nas histórias em quadrinhos, Sofia é frequentemente retratada como uma figura intensa e implacável, desafiando os estereótipos de feminilidade tradicional. Por isso seu comportamento é muitas vezes interpretado como perigoso, instável ou até “louco,” especialmente devido à sua ambição e vontade de poder. Ela se mostra emocionalmente disposta a usar qualquer meio, inclusive manipulação e violência, para alcançar seus objetivos e proteger seus interesses familiares. Em Pinguim, ganhamos a perspetiva de como ela “chegou lá”.

O triste é saber que o trauma e abuso de Sofia são inspirados em uma história real, isso mesmo, Sofia Falcone tem citações da trágica história de Rosemary Kennedy, a irmã do presidente americano JFK. Por conta de um parto atrasado que retardou o nascimento dela, Rosemary nasceu com deficiência intelectual, e quando chegou aos 23 anos, mesmo com mentalidade infantil, manifestou desejos sexuais que assustaram seu pai, Joe Kennedy. Ele “autorizou” que fizessem lobotomia na jovem, que nunca mais andou ou falou até o fim de sua vida,  em 2005, aos 86 anos. Ela foi, como diziam na época, “domada”. Uma história apavorante e triste ao extremo. Sofia, como vimos, foi internada por recomendação de seu pai e passou por inúmeros e violentos tratamentos de eletrochoque, mas ainda bem, não por lobotomia.

Diante disso, seria correto dizer que Sofia é louca?

Sofia vive em um ambiente tipicamente masculino (o mundo do crime e da máfia), e nele, sua ambição e determinação podem ser vistas como transgressoras, especialmente em um contexto onde homens geralmente dominam. Para os homens, “louca”, para as mulheres, “empoderada”.

Sofia é claramente inteligente, aprendeu a ser manipuladora e estrategista, mas porque é mulher, isso tudo é interpretado como sinal de uma personalidade desequilibrada. Aliás, tudo vai contra ela: se é intensa ou cruel, também é julgada de forma diferente até do nojento Oswald Cobblepot (Collin Farrell), o Pinguim. Vejam só: enquanto ele é apenas chamado de mau mesmo tendo colocado fogo em uma mãe e um filho e sorrido ao vê-los queimando, Sofia é a maluca por ter matado sua família com escapamento de gás. Poderíamos seguir com um mar de exemplos, mas o que é interessante é ver a rivalidade dos dois criando atitudes calculistas, onde cada movimento é guiado por estratégias para preservar e expandir suas influências.

Transformar todas as mulheres em filhotes de Medeia é um hábito milenar que é árduo combater. A princesa grega que fez tudo por amor (matou, traiu, deixou a família e o país) apenas para ser trocada por outra mais jovem quando Jasão se cansou dela é um conto denso e traumático, mas que deixa a sombra maior sobre o comportamento feminino do que o masculino. Por isso, chegando domingo, mesmo sabendo que o Pinguim vai se dar bem, darei meu apoio moral à Sofia Falcone. Aliás, Gigante (ela adotou o nome de solteira de sua mãe). Porque nenhuma mulher pode se diminuir mais aos arquétipos que nos restringem.

E ao nos despedirmos de Sofia Falcone Gigante em O Pinguim, somos lembrados de que sua jornada representa muito mais do que uma simples narrativa de poder e ambição. Ela é um espelho das lutas enfrentadas por mulheres ao longo da história, que frequentemente são rotuladas como “loucas” ou “implacáveis” em um mundo que se recusa a compreender a complexidade de suas emoções e aspirações. É fundamental que, ao refletir sobre personagens como Sofia, estigmas que ainda permeiam a representação feminina na mídia possa ser desconstruídos. Cada vez que uma mulher ousa desafiar normas e busca seu espaço em um ambiente dominado por homens, ela nos convida a repensar o que significa ser “louca”. Portanto, ao invés de relegá-las aos cantos escuros da loucura, vale celebrar suas histórias e sua resiliência, abrindo espaço para uma representação mais empática das mulheres na arte e na vida.

Claro que podemos ter antagonistas mulheres, não é para deixá-las fora da luta não! Mas que a história de Sofia que estamos acompanhando na fantasia não seja apenas mais um conto de tragédia, mas um lembrete de que a força feminina deve ser reconhecida, respeitada e celebrada, sem a necessidade de rótulos que a diminuem. Assim, ao nos afastarmos da tela, levemos conosco a mensagem de que cada mulher, com sua complexidade, merece ser ouvida e compreendida em sua totalidade.


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