A História do Bolero de Ravel: Música e Cinema

Maurice Ravel escreveu várias obras brilhantes e inovadoras, mas, até para sua contrariedade, será sempre lembrado por uma peça de 17 minutos, com uma melodia simples que se repete e criada para um balé. Sim, você já está cantarolando o Bolero, a sinfonia que segundo consta é uma das mais populares de todos os tempos. Bolero hoje é lembrado pela coreografia de Maurice Bejart, que foi usada de forma fantástica por Claude Lelouch em 1981 no filme Retratos da Vida (Les Uns et Les Autres) e inesquecível em Mulher Nota 10 (10), a comédia romântica com Dudley Moore e Bo Dereck dois anos antes. Mas poucos sabem a história original da música ou do compositor e é o que o filme Bolero, A Melodia Eterna (Bólero) quer mudar.

Um dos títulos principais do Festival Varilux, a exibição contou com a presença do ator principal, Raphaël Personnaz (com quem conversei e o papo será um artigo da BRAVO! na próxima semana), que antes de começar comentou que a proposta da diretora Anne Fontaine é preencher as lacunas com ideias sugeridas, uma vez que o misterioso compositor realmente não tem uma biografia explorada. O resultado é delicado, bonito e interessante.

A trama não é contada de forma linear, o que é uma boa metáfora para a música de Ravel. O filme começa em 1928, quando a dançarina Ida Rubinstein (maravilhosamente interpretada Jeanne Balibar, que vimos em Franklin) encomendou uma peça exclusiva para seu novo balé. O problema é que Maurice Ravel (Personnaz), um homem extremamente reservado, complexo e dedicado à música, está passando por um momento de crise de inspiração. No processo criativo, ele revisita momentos traumáticos e marcantes de sua vida, incluindo uma relação única com sua musa, Misia Sert (Dora Tillier) e finalmente compõe a obra que veio a ser a sua mais popular: Bolero.

Eu gosto de “Bolero de Ravel”, como todos falam popularmente, mas a minha obra favorita dele ainda é e sempre será Pavane Pour Une Infante Défunte, que toca apenas rapidamente em Bolero, A Melodia Eterna (Bólero). O que é justificado e óbvio quando a proposta era justamente elaborar sobre os bastidores dessa peça.

Antes de falar do filme, todo rodado na própria casa do compositor (sim, usam o piano verdadeiro onde ele escrevia sua música), vamos falar do misterioso artista considerado um dos maiores mestres da música impressionista e que segue um tanto indecifrável. No período em que desenrola o filme era o auge de sua carreira, quando chegou a ser considerado internacionalmente o maior compositor vivo da França.

Quem foi Maurice Ravel e o que o fez famoso?

Nascido em 1875 e falecido em 1937, aos 62 anos, Maurice Ravel é conhecido por composições que combinam harmonias inovadoras, ritmos complexos e orquestrações detalhadas, explorando cores e texturas musicais que deixaram um grande impacto na música clássica do século 20.

Sua família era de origem basca do lado de sua mãe, com seu pai sendo um engenheiro, inventor e fabricante educado e bem-sucedido. Maurice era extremamente próximo de sua mãe, Mari, que o encorajava em sua paixão pela música e marcou muito com sua herança basco-espanhola, cantando canções folclóricas desde pequeno.

Dos dois filhos, Maurice sendo o mais velho, ele foi o único a seguir com estudos musicais, mas sua originalidade não era bem vista pelos conservadores que comandavam o Conservatório de Paris. Ao longo do tempo, ele incorporou elementos do modernismo, barroco, neoclassicismo e até jazz nas suas composições, nem sempre sendo imediatamente elogiado por isso.

Maurice Ravel nunca foi considerado prodígio. Ao contrário, sua biografia deixa claro que sempre foi lento e meticuloso, por isso tem um acervo bem menor quando comparado aos seus contemporâneos como Claude Debussy. Ficaram peças para piano, música de câmara, dois concertos para piano, música de balé, duas óperas e oito ciclos de canções. Suas obras em geral são tocadas ou inteiramente no piano ou orquestradas e consideradas extremamente difíceis de serem tocadas.

Ele ficou mais famoso por seu Bolero, uma peça hipnotizante e repetitiva que mesmo com uma estrutura simples, é monumental por causa das variações de timbre e orquestração. Essa obra, assim como muitas outras composições dele, reflete a habilidade incomum de Ravel para criar atmosferas e evocar emoções com simplicidade e elegância.

A importância de Ravel reside na forma como ele expandiu as possibilidades da orquestração e trouxe uma nova sensibilidade e sutileza à música. Seu trabalho influenciou não apenas outros compositores clássicos, mas também músicos de jazz, compositores de trilhas sonoras e artistas de outros gêneros, consolidando-o como uma figura essencial na história da música ocidental.

Mas sua vida pessoal é envolta em uma aura de mistério porque, como mencionado, era reservado, quase recluso, e preferia manter distância das luzes da fama, o que fez com que muitos aspectos de sua vida permanecessem pouco conhecidos.

Ele nunca se casou e, ao que se sabe, não teve relacionamentos românticos duradouros. Algumas especulações sugerem que ele pode ter sido homossexual, mas não há evidências concretas sobre isso, e ele jamais falou abertamente sobre sua orientação. O que o filme Bolero, A Melodia Eterna (Bólero) respeita é o fato que esse silêncio sobre sua vida íntima era em parte porque se dedicava inteiramente à música, quase como se ela fosse a principal companhia de sua vida. No eu círculo restrito de amigos estavam o pianista Ricardo Viñes e o compositor Igor Stravinsky.

As mulheres na vida do compositor: Misia e Ida

Respeitando o segredo de Maurice, a diretora Anne Fontaine mostra a presença de várias mulheres na vida do compositor. Há duas liberdades que são importantes citar como diferentes das biografias oficiais. A relação com sua mãe, Marie Delouart, é mostrada como amorosa, mas na verdade há sugestões de uma relação patológica bem mais densa, até abusiva, por parte dela. A origem de Maria é um mistério e ela era uma figura sufocante tanto para para Maurice como seu irmão Edouard, algo que só é citado na carta que ele escreve para ela. Descrita como “uma agnóstica violenta, atípica de seu tempo e lugar”, enquanto viva ela foi, no entanto, a pessoa mais importante na vida do músico.

A outra mudança é a fantasia de que a relação de Ravel com Misia Sert foi uma história de amor platônica. Não há fatos concretos que confirmem isso.

Misia foi uma influente patrona das artes e uma das figuras mais marcantes da vida cultural parisiense no início do século 20. Nascida na Rússia em 1872, filha de uma família de origem polonesa, Misia foi educada na França, onde se tornou amiga de artistas, músicos e escritores, os apoiando financeiramente e emocionalmente. Ela se casou três vezes, sempre com homens influentes no mundo das artes: Thadée Natanson, Alfred Edwards e o pintor espanhol José-Maria Sert, que lhe deu o sobrenome pelo qual ficou mais conhecida.

Misia foi mesmo uma das principais amigas e confidentes de Maurice Ravel, além de inspirá-lo em algumas obras e o filme não mostra, mas também teve forte ligação com Debussy e Stravinsky, além do coreógrafo Sergei Diaghilev, fundador dos Ballets Russes.

Por sua beleza, charme e espírito livre, Misia personificava o ideal da mulher moderna da época, participando ativamente da vida cultural e rompendo com muitas das convenções sociais de então. Fica a sugestão de houve uma conexão mais profunda entre ela e Ravel.

A outra mulher impactante na vida dele foi a bailarina Ida Rubinstein, famosa por seu talento, carisma e personalidade magnética. Nascida em 1885 em São Petersburgo, em uma família judia abastada, ela começou sua carreira no teatro, mas foi na dança que se destacou. Rubinstein tinha uma presença cênica fascinante e um estilo de dança único, que misturava teatralidade e uma sensualidade exótica, cativando o público europeu na virada do século 20.

Inicialmente treinada por Mikhail Fokine, coreógrafo dos Ballets Russes, Rubinstein fez sua estreia com a companhia em 1909, interpretando Salomé, o que gerou bastante controvérsia por sua sensualidade. Rubinstein também foi uma das intérpretes principais de Cléopâtre, uma produção luxuosa e exótica que exaltava sua beleza e presença de palco.

Ao longo de sua carreira, Rubinstein colaborou com grandes nomes das artes e da música. Em 1928, foi ela quem encomendou a Maurice Ravel a obra que se tornaria seu famoso Bolero. Ravel criou a peça para acompanhar uma coreografia de Rubinstein, que idealizou uma dança hipnótica e repetitiva para ela. A estreia, com Rubinstein no papel principal, foi um grande sucesso e consolidou o Bolero como uma das peças mais icônicas do repertório clássico.

Além de seu talento e magnetismo, Ida teve um papel crucial em ajudar a transformar a dança moderna e a promover colaborações entre música, dança e teatro. Rubinstein viveu uma vida longa e reclusa após a Segunda Guerra Mundial, falecendo em 1960. Sua influência, contudo, permanece significativa, especialmente na história da dança e da performance teatral na Europa.

Detalhes excluídos e não explorados

Porque é impossível excluir a influência que a vivência na 1ª Guerra Mundial teve na vida de Ravel, Bolero, A Melodia Eterna (Bólero) faz alguns flashbacks para tentar explicar como isso aconteceu. Ele quis servir na linha de frente, mas foi recusado por problemas de saúde. Mesmo assim, atuou como motorista de ambulância para o exército francês. A ausência da existência de Édouard é estranha pois ele é citado na correspondência nesse período, mas o fato de que ele sobreviveu à Maurice é importante. Falarei mais à frente.

Anne Fontaine deixa evidente os problemas de saúde que eventualmente se estenderam, e eu particularmente fico me perguntando se Ravel não tinha algum espectro autista. Sua saúde sempre foi frágil, ela sugere que ele até tentou acabar com sua própria vida em algum momento e nos anos finais, sofreu de uma doença neurológica que afetou sua capacidade de compor. Acredita-se que ele tenha tido afasia, mas o filme não esclarece isso.

O que é triste e até trágico é que ele tenha morrido após uma tentativa malsucedida de cirurgia cerebral, ficando 9 dias em coma antes de falecer, em 1937. Essa passagem é um tanto rápida e confusa pois parece ter sido imediata após o sucesso de Bolero, sem ficar claro quando o problema realmente avançou.

As disputas legais de hoje

O filme Bolero, A Melodia Eterna (Bólero) quer mesmo enaltecer a peça musical e não deixa nem a referência dos problemas autorais dela ainda em pleno século 21. Ficamos na dúvida se houve uma “inspiração” de uma canção popular da época, mas nem é esse o problema.

A disputa judicial mais famosa relacionada a Maurice Ravel envolve os direitos autorais de todas suas obras, especialmente o Bolero, mas isso porque ela ainda gera uma receita significativa e a disputa é quem pode receber a fortuna após a morte do compositor.

Maurice Ravel faleceu sem deixar herdeiros diretos e, em seu testamento, confiou sua obra e propriedade ao irmão, Edouard Ravel. Quando Edouard morreu em 1960, ele deixou os direitos para sua esposa, mas, como o casal também não tinha filhos, surgiu uma disputa sobre quem herdaria quando ela também falecesse, o que aconteceu, em 1965.

Nesse meio tempo, os herdeiros do cenógrafo Alexandre Benois, que trabalhou na performance original de Ida Rubistein trabalhando nos sets, alegam que a criação do balé foi conjunta, portanto eles teriam direitos aos lucros da música também.

A briga vem se estendendo desde 1965, quando os direitos autorais do Bolero passaram a ser administrados pelo governo francês. É que, seguindo a legislação que rege os direitos autorais no país, que determina que a obra cai no domínio público 70 anos após a morte do autor, desde 2007 quem arrecada os valores é o governo. Os herdeiros de Benois esperavam reverter a autoria e assim receber não apenas os milhões arrecadados nas décadas passadas como ainda estender o prazo de domínio público para 2039, uma vez que o artista morreu em 1960.

No entanto, os ganhos e royalties gerados antes desse prazo ainda são alvo de briga judicial entre parentes distantes e outros administradores de herança, devido ao valor comercial significativo da obra. Isso piorou quando a legislação mudou, levando a diferentes interpretações sobre quando exatamente o Bolero se tornaria de domínio público.

Com isso, Bolero passou a ser um dos exemplos mais conhecidos das longas batalhas legais envolvendo heranças de compositores, refletindo também o valor contínuo de obras clássicas no mercado musical moderno. Um ruído bem maior que seus 17 minutos repetitivos e algo que em junho de 2024 parece ter chegado ao fim: a peça hoje é definitivamente classificada como uma peça orquestral independente e que Ravel é o único autor. Fim do drama?


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