O Paradoxo de Agradar Fãs na Música

Há um paradoxo no mundo da música: agradar aos fãs é visto, ou parece ser, como algo nem sempre positivo. Artistas fazem sucesso, mas também ficam “escravos” do que agrada, não importa quantas décadas que se passem. No meio dos que reclamam de “tocar a mesma coisa”, “da mesma forma” num loop para eles infernal, há artistas que apreciam o carinho dos fãs e não parecem se incomodar ou tentar surpreendê-los. Artistas como os falecidos Michael Jackson, Prince ou George Michael, faziam shows onde tocavam seus sucessos como os escreveram. E dentre os grupos ainda juntos, The Cure e Keane fazem turnês bem sucedidas e show apaixonantes justamente por estabelecerem uma grande relação com seu público.

Na semana passada, no lançamento de seu primeiro álbum em 16 anos com músicas novas, Robert Smith e companhia fizeram uma live na BBC onde não apenas tocaram o álbum novo como ficaram suas usuais três horas visitando todo o acervo de sucessos de 40 anos, tocados exatamente como foram escritos. Não é sinal de estar parado no tempo ou preguiça: é autenticidade e respeito. Nos quase 20 anos sem lançar nada novo, a banda excurcionou ao redor do mundo revisitando álbuns antigos completos. The Cure acertou dois alvos agradando aos que já o amavam e conquistando novas gerações. Com a metade de tempo de estrada, a banda Keane segue dessa cartilha.

Formada na Inglaterra no final dos anos 1990s, Keane estourou em 2004 com um álbum deliciosamente pop chamado Hopes and Fears. Nele estão os hoje clássicos Somewhere Only We Know e Everybody’s Changing, que são obrigatórios em todos os shows. No vigésimo aniversário de lançamento o grupo mais uma vez veio à América Latina, onde sua base de fãs mais apaixonada está localizada.

Vou aos shows do Keane desde que desembarcaram no Brasil pela primeira vez, em 2007. Num show emocionante de mais de duas horas e casa lotada, a banda tocou músicas a pedido do público, inclusive o cover de Under Pressure, do Queen e as menos tocadas como The Frog Prince e Snowed Under, além de duas outras que não estavam no set list.

Ensaiando falar em português, o vocalista Tom Chaplin, mas magro e grisalho agora, é a mesma simpatia e com o mesmo poder e alcance de sempre, interrompendo alguns momentos para conversar e brincar com os fãs. Visivelmente emocionado, explicou que a banda entrou em um hiato desde 2013 – “porque perdemos o caminho, eu mais do que todos”, se referindo à sua vitória contra a dependência de drogas, antes de emendar com Hamburg Song.

Exaustos no fim do show, mas ainda sorridentes e felizes, Keane se estabeleceu mesmo como uma das bandas mais queridas no Rio de Janeiro, uma que ainda lota qualquer oportunidade que esteja pela cidade (nem todo grupo consegue o mesmo feito). E como ele finalmente aprendeu como o carioca os chamam “Quínê”, eles riram divertidos com o sotaque. “É assim que vocês dizem Keane (Quín, no som em inglês)? Vocês me surpreenderam!”, brincou. E sim, o coro era alto: Olê, olê olê Olê, Quinê, Quinê. Eles voltam, já prometeram!


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