Na dança clássica, há trechos tirados de balés completos que acabam ficando mais famosos do que a obra completa onde estavam inseridos. Quando ainda sonhava com os palcos, os balés com cenários espanhóis pareciam sempre estar entre os mais fascinantes: havia agilidade, humor, exotismo. No entanto, embora Paquita estivesse entre umas das peças mais lindas e dançadas por várias companhias, custei a conseguir ver seu balé completo. Algo que só consegui recentemente, devo confessar.
Fosse a expectativa ou desconhecimento, fiquei decepcionada… mas tenho que explicar. Visualmente, considerando a coreografia, fiquei abismada com a beleza e brilhantismo de um Petipa no auge de seu poder criativo. Mas a música de Minkus não me emocionou e a trama? Quanta confusão. Achava O Corsário excessivamente confuso, Paquita dispensava a parte dramática.
Mas qual é o histórico de Paquita e sua relevância? Vamos avaliar.

Criação de Paquita
Paquita foi criado em 1846 para o Ballet de l’Opéra de Paris, com coreografia de Joseph Mazilier e música de Édouard Deldevez. A trama romântica reflete as tendências da época, com uma heroína que transita entre diferentes camadas sociais e enfrenta desafios para revelar sua verdadeira identidade. O balé se passa na Espanha ocupada por Napoleão, o que dá um toque de exotismo e drama histórico.
Paquita foi o segundo balé de Delvedez, meio que um compromisso da direção de dar a ele uma nova oportunidade depois que seu primeiro trabalho não foi bem recebido, não pela música, mas pelo libreto. Em Paquita, o roteiro foi escrito pelo autor Paul Foucher, que era cunhado de Victor Hugo e queria um enredo simples, direto e fácil de seguir. Exatamente o que não achei que seja, mas a narrativa mistura romance, intriga e um senso de aventura que agradou o público parisiense.
Em vez de apostar em Jean Coralli, que tinha assinado Giselle, o contratato foi Mazilier que era considerado mais musical. Tudo estava alinhado!
Recepção na França
No século 19, Paquita foi bem recebida por sua combinação de técnica virtuosística e elementos narrativos populares. A coreografia de Mazilier enfatizava as habilidades dramáticas e técnicas das principais bailarinas, consolidando sua popularidade no repertório francês. Apesar disso, sua fama na França não teve a mesma longevidade que ganhou na Rússia.
Carlotta Grisi, já saída do retumbante sucesso de Giselle, foi a Paquita da estreia, ao lado de seu partner, Lucien Petipa. Ambos foram extremamente elogiados, claro.

Apesar do sucesso de Paquita, o balé foi esquecido rapidamente. Não teve mais do que quarenta apresentações em Paris antes de ser retirado do repertório, em 1851. Levou outros 150 anos até voltar aos palcos do Opéra. De novo, fácil entender a razão.
Adaptação por Marius Petipa na Rússia
Em 1847, Marius Petipa, recém-chegado ao Império Russo, assumiu a montagem de Paquita para o Ballet Imperial de São Petersburgo. Ele dançou no papel que foi originado por seu irmão, fazendo sucesso na sua estreia. Naquele momento, ele não desconfiava que estaria na Rússia para ficar, mas o balé seria fundamental para a carreira do coreógrafo. A ideia de montar Paquita não foi dele, mas caiu como uma luva.
Reza a lenda que na primeira apresentação em São Petersburgo, um membro da plateia jogou um gato preto morto no palco com um pequeno cartão amarrado em seu rabo que dizia “Para a première danseuse”. Obviamente, a bailarina desmaiou na hora. O efeito foi o oposto do que a agressão almejava: a plateia passou a apoiar a estrela e o sucesso de Paquita foi estrondoso.
Passados os anos, em 1881, Petipa revisou a obra significativamente e incluiu um apêndice chamado Grand Pas Classique, com música adicional composta por Ludwig Minkus. A essa altura, ele não dançava mais e os papéis principais ficaram com Ekaterina Vazem e Pavel Gerdt.
Em geral, Petipa não mudava produções de outros coreógrafos significamente e seguiu de perto a direção de Mazilier com relação ao libreto e às cenas de ação/mímica. Por outro lado, há dúvidas se o resto é todo de Petipa ou de Mazilier. Mas o que ninguém discute é que o que foi aqui acrescentado, é genial.
Petipa simplesmente transformou Paquita no melhor veículo para exibir pura técnica clássica, mesclando musicalidade, danças de conjunto e solos virtuosos. Além disso, criou a Mazurka des Enfants que até hoje é uma das peças para apresentar alunos no palco. Mas, o mais importante é que ele adaptou o balé à estética russa, que valorizava a grandiosidade e a virtuosidade técnica, tornando sua contribuição atemporal. Tanto que o que é mais popular até hoje é justamente o Grand Pas Classique.
O Legado de Paquita
Atualmente, o ballet Paquita é conhecido principalmente por essa versão de Petipa, que permanece no repertório de várias companhias de balé pelo mundo. O balé também é um exemplo do intercâmbio cultural entre França e Rússia no século 19, ilustrando como uma obra pode ser reinterpretada e transformada ao longo do tempo.

Quem popularizou o Grand Pas Classique de Paquita como uma peça independente foi Anna Pavlova, que usava uma versão resumida do balé (mas o grand pas completo) em suas turnês. Paquita ficou tão associado à ela que estava em uma das suas últimas apresentações em vida. No entanto, mesmo mais popular do que na França, a versão completa de Paquita também caiu no esquecimento depois da Revolução russa.
A primeira tentativa de resgatar a obra completa começou nos anos 1950s, mas depois só voltou aos palcos no final dos anos 1970s, sempre na Rússia. Já o Grand Pas seguiu ultra popular, com versões de Rudolf Nureyev e Natalia Makarova em várias companhias no ocidente.
Pierre Lacotte trouxe Paquita para Paris em 2001, com mudanças significativas, mas apenas na versão de 2014, Alexei Ratmansky que a visão de Petipa voltou aos palcos. Na Rússia, Paquita completo só voltou em 2017, com a assinatura de Yuri Smekalov para o Balé Mariinsky, mas alterando o libreto, se baseando em Miguel de Cervantes.
A versão que me encantou foi a do Péra de Paris, gravado em 2023, na versão completa.
Apesar do libreto, uma obra linda
Falamos tanto das obras mais famosas de Petipa, mas fiquei encatanda com a beleza técnica de Paquita. Há tantas sequências fascinantes de solos e grupos que é uma pena ter uma história tão fraca e esquecível interrompendo as sequências. O desafio de Paquita agora é apenas superar isso.
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