Há um paradoxo de um flashback bem feito em séries e filmes: ficamos querendo muito mais. E a prova é mais uma vez a volta no passado de Duna: Prophecy. A premissa aqui é contar o início das Bene Gesserit, mas ficamos ainda querendo mais ainda da Butlerian Jihad do que o drama atual, mesmo com um atraente e interessante Desmond Hart (Travis Fimmel).
Isso mesmo, estamos há 10 mil anos (não consigo falar isso sem pensar em Ruy Seixas) do que o cinema vem contando com os filmes Duna, mas há pelo menos duas timelines em Duna: Profecia: a “atual”, com Valya Harkonnen (Emily Watson) no comando das Bene Gesserit e cerca de 30 anos antes, quando a jovem Valya (Jessica Barden) ainda espuma revolta da situação dos Harkonnen e pensa em se vingar as 24h do dia. E é justamente isso que me frustra porque, segundo Valya, a queda dos Harkonnens foi uma má interpretação do que houve na Guerra com Atreides fazendo o gesto humanitário de salvar vidas parecer covardia. Ela tem isso como a mais pura verdade, mas claro que há um estranhamento que ninguém mais veja a História como ela. Ou seja, por que não nos mostrar?

Esse é um sentimento que Game of Thrones soube trabalhar bem, em comparação. A série começa após a Rebelião de Robert e a queda dos Targaryens, mas os flashbacks mostram de forma brilhante as “pequenas” diferenças da narrativa. Ficamos com vontade de voltar no tempo e saber mais, mas os pedacinhos que vimos se resolvem por si só. Aqui, não. A série toda é um grande flashback (como House of the Dragon, seguindo os paralelos), mas inserir flashback dentro de um flashback me parece desnecessário. Por isso, porque queremos mais das jovens do que das adultas. Eu, pelo menos, quero. Querer, não é poder então vamos rever o que aconteceu no terceiro episódio e antecipar os próximos passos?
O plano de Valya
No vai e vem do timeline, a demissão da corte por Desmond Hart demanda que Valya revise sua estratégia imediatamente e dá gatilho de um passado onde ela começou a sua vingança contra os Atreides. Acompanhada por sua protegida, Irmã Theodosia (Jade Anouka), ela traça o plano: por hora, seguem nas casas nobres que as têm e seguem o trabalho, para não perdê-las. Voltar à Casa Corrino vai demandar mais tempo e astúcia.
Valya é informada que Lila (Chloe Lea) não sobreviveu à Agonia, e não demonstra empatia, apenas frustração de não ter feito o contato com a Madre Superiora Raquella Berto-Anirul (Cathy Tyson), e fica aliviada que há sim um recado (“a chave para o acerto de contas é alguém que nasceu duas vezes; uma vez no sangue, uma vez na especiaria”) mas aqui há duas coisas a se prestar atenção: 1) embora o aviso seja vago, sem pestanejar Valya determina que é sobre Desmond Hart. Claro que faz sentido afinal ele sobreviveu à “minhoca gigante do deserto” portanto nasceu do “sangue”(porque é humano) e da “especiaria” porque sobreviveu à Arrakis. Minha teoria é outra*. Mas 2) Valya nem lamentou a morte de Lila. Antes da minha teoria, seguindo os passos de Valya, ela decide fazer uma outra viagem “pra casa”, que veremos no final do episódio.

No passado, as raízes da profecia
Voltamos no tempo e ao planeta gelado de Lankiveil, que é onde a Casa Harkonnen sobrevive em condições simplórias. A jovem Valya odeia sua vida, suas condições e a passividade de sua família. Seus pais, Sonia (Polly Walker) e Vergyl (David Bark-Jones) se queixam, mas querem seguir com a vida. Apenas seus irmãos, Griffin (Earl Cave) e Tula (Emma Canning), compartilham da angústia de Valya, muito por serem influenciados por ela. O tio Evgeny (Mark Addy) menciona que Vorian Atreides está misteriosamente de volta e isso desperta na sobrinha a vontade de imediatamente confrontá-lo sobre “as mentiras que contou sobre a Casa Harkonnen”. Para Valya, seu bisavô, Abulurd Harkonnen, foi um herói que impediu um genocídio, não um covarde e a História precisa corrigir o erro.
Nem sua defesa passional convence aos mais velhos, o que a deixa ainda mais revoltada. Griffin, que um dia foi salvo de um afogamento pela irmã (que o “chamou”, sinalizando que usou a voz) se compromete em ajudá-la. Ele concorda em rastrear Vorian Atreides e enfrentá-lo, mas na passagem do tempo vemos que Griffin é morto. Mais uma vez, Valya grita que é culpa dos Atreides (quem leu o livro sabe que não foi exatamente Vorian que o matou, mas a série deixa em aberto) e mais uma vez, quer vingança. Está parecendo um tanto a Ira de Khan de Star Trek, mas é a mesma vibe. Ela não pode cuidar pessoalmente porque seus pais a enviaram para se juntar à Irmandade em Wallach IX, e ela fala para uma dócil Tula, que argumenta que não dá para ser olho por olho, que ela encontre uma maneira de sair de Lankiveil.
Irmãs acima de tudo
O inferno astral de Valya não pára. Entrar para a Irmandade é meio Arya com os Homens Sem Rosto: ela precisa ser ninguém, mas Valya quer Poder e Vingança, ela é e sempre será uma Harkonnen, como Raquella reconhece. Ainda assim, o ódio em seu coração é bem vindo e Valya é adotada pela Madre Superiora, já plantando a semente do ciúme com a irmã Dorotea (Camilla Beeput).
A rivalidade das duas se reflete pela maneira antagônica que vêem o que estão aprendendo. Para Dorotea, é sobre ajudar a conduzir a melhor natureza da humanidade, mas Valya vê o dom delas como uma ferramenta que deve ser usada para servir a um propósito. E é o que Raquella também pensa, sob o dúbio plano de garantir o avanço da espécie humana. Há algo no porão, de acesso limitadíssimo, que apenas Valya passa a ter conhecimento. E vamos dar logo o spoiler, revelado no final do episódio: as Bene Gesserit usam IA para criar a matriz genética contendo os DNAs de todas as Grandes Casas e eventualmente criar uma pessoa ideal (para elas).


Em algum tempo depois, reencontramos Tula com o namorado, Orry (Milo Callaghan), se preparando para conhecer a família dele e ajudar na caça de um touro Salusan. Logo percebemos que eles não sabem que ela é uma Harkonnen, nem Orry. Recebida com carinho, aos poucos é revelado que Orry é um Atreides e se imaginavam Romeu e Julieta, bem, sentem-se.
Depois de passar a noite com Orry, Tula tenta escapar desapercebida, mas ele acorda e acabam conversando. Tula está emocionada pois genuinamente parece gostar dele, mas confessa que mentiu e que é uma Harkonnen. Surpreso no início, Orry insiste que não será um problema para eles porque a união dos dois pode acabar com a centenária rivalidade de suas casas. Tula diz que nada mudará o fato de que “um Atreides que matou seu irmão” e apenas então Orry percebe que o acampamento está estranhamente silencioso. Ao sair, ver todos mortos: Tula os envenenou sem que percebessem. E antes que pudesse entender o que houve, Tula o mata também. Ela só deixa o pequeno Albert Atreides (Archie Barnes) sobreviver e fugir. Ela consola o namorado, a quem genuinamente amava, até que pare de respirar e vê um touro Salusano a encarando de longe.
Parte do plano
Quando Valya recebe o recado cifrado de Tula, vemos que as irmãs planejaram juntas a vingança e que Tula é capaz de muito mais por sua família. Em Lankiveil, as irmãs se reúnem no túmulo de Griffin, mas quando chegam em casa são criticadas por Sonia, Vergyl e Evgeny que eram contrários ao massacre porque só vai piorar a situação da família no Imperium. Valya acaba usando a voz e exibindo seu poder, mas ao ver que nada faz com que seus pais ou seu tio concordem com ela, faz o teste da Agonia e é salva por Tula, emergindo como uma Reverenda Madre, exatamente como Raquella exigiu. Tula decide se juntar à Irmandade, e elas decidem que será um novo começo e um novo propósito para as duas, firmando um pacto de fidelidade e compromisso entre elas.

Nos dias atuais, Tula (Olivia Williams) está disfarçando, mas segue inconsolável com Lila em estado vegetativo. Quando a Irmã Avila (Barbara Marten), traz um pouco de chá de especiarias e insiste em desligar as máquinas, Tula tem uma ideia. Ela faz a cerimônia de despedida, mas, vemos na cena final, a revelação de que as Bene Gesserit usam as máquinas proibidas e com a inteligência artificial, batizada como “Anirul”, dá o comando de usar especiarias para rejuvenecer a mente de Lila. É algo contra a orientação de Valya, Anirul avisa, mas Tula ordena que siga assim mesmo. Depois de ter sacrificado seu amor, não quer o mesmo destino para sua filha de coração. Conflito entre as irmãs à frente?
*Ninguém perguntou e todos parecem apressados mas Lila também terá nascido do sangue e de especiarias, pelo menos tecnicamente. Será que é ela a responsável pelo acerto de contas?
Seja como for, quando “vai para casa”, Valya queria dizer fazer uma visita ao atual Barão Harrow Harkonnen (Edward Davis), que a chama de “Tia Valya” e pergunta sobre “Tia Tula”. Vemos que Evgeny está vivo e ainda rancoroso com a sobrinha. Pode cantar “irmandade acima de tudo”, mas Valya? Será sempre pela Casa Harkonnen.
E agora?
Sentimos falta de ver Desmond Hart, que obviamente antecipa um contra-ataque de Valya. NO trailer, o ouvimos avisando ao Imperador que quem o desrespeita “ameaça suas leis” portanto pode usá-lo para criar medo. Claro que em seguida ele está em um Conselho alertando que há “predadores entre nós e um limite precisa ser traçado”, fazendo seu agora usual churrasco de pessoas para provar seu ponto.
Ainda não temos o título do episódio 4 para ver o que vem aí, mas na mesma promo vemos Valya alegar que se sente “assombrada por passado do qual não tem como escapar” e, na rebelião em andamento, Keiran Atreides fala com a princesa Inez que “às vezes temos que queimar tudo antes de salvar”, com ela se oferecendo a ajudá-lo. Honestamente, eles são o ponto fraco da série, não me importa o que façam e o “queimar” tem toda cara se ser usado literalmente por Desmond.


“Ninguém está acima da Lei, nem mesmo o Imperador”, ouvimos Valya falar com Harrow. “O futuro pode redefinir o nosso nome”. Depois de vermos as Bene Gesserit asssustadas com todas desenhando um buraco negro, ouvimos justamente Evgeny humilhando uma chorosa Valya que ela é “um buraco negro nessa família”, com ela, ecoando sua versão jovem, perdendo a linha gritando “não vou pedir desculpas por ser forte”. Na Casa Harkonnen, Paz é coisa de conto de fadas.
Como são apenas seis episódios, já chegamos à metade da história. Sim, parece apressada. E infelizmente tem gente demais para pouco tempo, mesmo assim, minha avaliação é ultra positiva para essa primeira fase. Teria sido muito melhor, porque realmente mudou o peso da relação entre Tula e Valya quando passamos pelo flashback, que a história estivesse mais focada nessa briga entre os Atreides e Harknonnen, terminando com as duas irmãs indo para a Irmandade depois da “caçada vermelha”. Esse período no qual o streaming está tateando para ter lançamentos, qualidade e ainda retorno, muito conteúdo será sacrificado. Mas Duna: Profecia já é um acerto.
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