Se depender de duas grandes publicações sérias temos dois cenários estranhos para o futuro de James Bond. Um deles nos dá esperança de conhecer o novo rosto do espião, enquanto outro traça um momento de grande risco. Pior é que acredito mais no Wall Street Journal do que o The Hollywood Reporter.
Na guerra do streaming e das grandes fusões, todas franquias subiram de valor sendo que a do espião inglês não foi diferente. Controlado pela família Broccoli, a casa de James Bond é há décadas o estúdio MGM que foi comprado pela Amazon Prime Video por mais de 6,5 bilhões de dólares. Ou seja, os novos “donos” querem lucrar com a marca, mas esbarram com a zelosa Barbara Broccoli, que tem a palavra inicial e final de tudo em torno do 007. E o clima está péssimo.

Se podemos lamentar algo é que estamos vivendo períodos de “esfolar” o que já deu certo, com prequelas, spin offs, regravações e etc como Senhor dos Anéis, Star Wars e outros. Ao que parece, Barbara não tem pressa. Vou bater muito nessa tecla. Segundo o jornal, ela está emperrando a porta de quem ousa tentar se meter, usando como argumentos algoritmos, inclusão ou modernidade.
A produtora está à frente da franquia há 30 anos, desde que herdou o controle de seu pai, Albert “Cubby” Broccoli. Não importa que faça parte da MGM e que agora seja da Amazon: quem decide é Barbara e ela não gostou de nenhuma proposta de como lidar com a marca até o momento. Mais ainda, segundo o jornal (que diz ter 20 fontes para o artigo), ela está determinada a não fazer o filme com a plataforma. Esqueçam a lista dos Bonds: se ele tiver mais do que 35 já estará naturalmente descartado.
A sombra de brigas por Direitos no universo de James Bond
Os direitos de James Bond estão com a família Broccoli devido a uma série de eventos envolvendo a adaptação cinematográfica dos romances de Ian Fleming, que criou a personagem na literatura. Nos anos 1960s, o autor vendeu os direitos de adaptação cinematográfica de seus romances sem imaginar que se tornaria um fenômeno global.
Em 1961, o produtor Harry Saltzman comprou os direitos para adaptar os livros de Fleming para o cinema e formou uma parceria com Albert R. Broccoli para produzir os filmes. Juntos, eles criaram a EON Productions, a responsável por todas as adaptações oficiais da série desde Dr. No (1962).
A parceira foi desfeita em 1975, quando Saltzman lidava com problemas financeiros e vendeu sua participação na franquia para a United Artists. Isso efetivamente deixou Albert Broccoli como o principal responsável pela série.
Broccoli entendeu que era importante manter a franquia sob controle familiar, por isso passou a responsabilidade pelos filmes para sua filha, Barbara Broccoli, e seu enteado, Michael G. Wilson, que continuam a administrar a EON Productions até hoje. Os herdeiros de Fleming mantém os direitos sobre os romances originais de Bond, mas eles não têm controle criativo ou financeiro sobre a adaptação cinematográfica dos livros. Esse poder pertence exclusivamente à EON Productions, controlada pelos Broccoli.

Exercendo seus Direitos e Poder
Os Broccoli nem sempre são populares com executivos ou fãs, mas têm um poder ímpar nas mãos de negar que as plataformas interfiram com a integridade artítisca do que aceitam para 007. Por exemplo, Barbara recusou liberar a marca para programas de TV, videogames e até mesmo um cassino. Ela tem ciência de que é importante ‘atualizar’ Bond para os valores de gerações mais novas, mas ela toma cuidado para que todos – antigos e novos – apreciem a personagem, uma tarefa árdua que é o centro do drama atual.
Não é de hoje que Hollywood extrapola ao secar um conteúdo bem sucedido até destruí-lo. Sequências são a essência da franquia 007, portanto os produtores não são avessos a considerar formas de estender o alcance da marca. Os filmes de Bond não são fieis 100% aos livros, mesmo que tomem emprestados os títulos, portanto é possível questionar a razão pela qual Barbara Broccoli esteja brecando a proposta de espandir o universo da franquia com prequelas ou spin offs. Talvez ela esteja julgando que Star Wars obliterou seu herói, Luke Skywalker, ao tirar o peso de ser um Jedi para um sem fim de rebeldes e o uso da Força. Ou o fato de que Anéis de Poder também não funcionaram tão bem quanto a trilogia do Senhor dos Anéis. Como saber?
O fato é que Barbara Broccoli tem o Poder e o Direito sobre a franquia e não abre mão deles. Sabiamente. O universo pertence à ela e são suas regras e seu instinto que mandam. Pelo bem ou pelo mal. O maior exemplo de sua autoridade foi ter pessoalmente apostado no ator Daniel Craig e conseguir comprovar que estava certa. No momento, ela está quebrando a tradição da franquia de lançar um filme a cada dois anos. No Time To Die foi problemático do início ao fim, culminando com a Pandemia que atrasou seu lançamento. Estamos há quatro anos sem um novo James Bond ou sequer perto da ideia de como vão recomeçar a narrativa.

Barbara não é menina – terá 65 anos em 2025 – mas não tem pressa. Segundo o artigo do WSJ, ela acredita que “a Amazon não é um bom lar para Bond, já que o negócio principal da empresa é vender de tudo, de papel higiênico a aspiradores de pó”. O principal é que algoritmos imperam nas decisões criativas e essa é a área na qual ela não permite computadores ou calculadoras interferir. Sabe o tema de amor de Bond? We Have All The Time In The World? É a atitude dela. Sem Barbara, nenhum roteiro ou elenco são aprovados e ela (de novo), não tem pressa. Seu mantra, segundo o artigo, vem de seu pai que a ensinou: “Não deixe que pessoas temporárias tomem decisões permanentes.” Amei!
O primeiro embate de Bond na casa nova foi a pressão de lançar No Time To Die nos cinemas ou não, uma vez que vivíamos o isolamento social. Barbara ganhou e o filme ficou guardado por 18 meses até chegar nas telas grandes primeiro. Mas os executivos tinham a expectativa que com o tempo pudessem ganhar maior autonomia nas decisões e estão frustrados. Barbara se recusa que chamem a franquia de “conteúdo” ou que façam estudos de “cálculo de risco” para selecionar o próximo 007 (levando em conta os números) o que impede o que a produtora mais gosta: escolher um desconhecido para James Bond.

Recomendo a leitura do artigo do WSJ que é fascinante. Além dos impasses internos pela forma que a Amazon Prime Video funciona, há a questão central da atualização de Bond no cenário atual. Em No Time To Die, com roteiro também assinado por Phoebe Waller-Bridge houve rumores fortes que após Craig a posição de Bond seria destinada à uma mulher. Lashana Lynch é a nova 007 (James tinha se aposentado) e a atriz foi massacrada na época. Antes mesmo disso, mas certamente após, é que Barbara se mantém firme de que “não tem nenhum problema em escolher um ator não branco ou gay, mas acredita que Bond deve sempre ser interpretado por um homem, e deve sempre ser interpretado por um britânico”.
A longa espera não é novidade para os fãs da franquia. Entre Timothy Dalton (que tentou inovar e foi rejeitado) e Pierce Brosnan se passaram seis longos anos. É mais ou menos a marca atual. Agora, se o WSJ está certo, teremos que esperar ainda mais. Já o The Hollywood Reporter nos dá uma nota de maior esperança. Seja como for, a alma feminina de James Bond é minha ídola. Seu nome é Broccoli, Barbara Broccoli.

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