O título do filme É Assim Que Acaba é irônico diante da realidade dos bastidores e dos dramas que desenrolaram em 2024. Quando o elenco chegou ao tapete vermelho sem mencionar ou posar para fotos com o diretor, Justin Baldoni e vazaram as fofocas de brigas nas gravações. Mas, aos poucos, a narrativa foi mudando. E não melhorou. Daí a notícia de que a atriz Blake Lively entrou com um processo judicial contra Baldoni o acusando de assédio sexual e de coordenar uma campanha para prejudicar sua reputação, o mundo voltou a se dividir. Sim, Blake tem sido apelidada de “Amber Heard 2”. E agora?
Pois é, depois de Johnny Depp ter encarado processos públicos contra sua ex-mulher, Amber Heard e vencer um deles, aparentemente todas as estrelas de Hollywood querem a mesma vitória. Basicamente, uma vingança pública. O processo de Blake contra Justin é muito próximo à história de Depp, assim como em 2025, também veremos Brad Pitt e Angelina Jolie passando pela mesma coisa.


As alegações de Blake incluem comportamentos inadequados de Justin no set, como exibir imagens de mulheres nuas, fazer comentários sobre suas conquistas sexuais e mencionar um antigo vício em pornografia. Além disso, Lively afirma que o diretor questionou seu peso e mencionou assuntos pessoais sensíveis, como a morte de seu pai. A defesa de Justin Baldoni nega as acusações, classificando-as como “falsas e ultrajantes”. Aliás, a defesa dele é a mesma equipe de Johnny Depp, para costurar toda a história.
Nas redes sociais, a reação do público tem sido mista. Alguns usuários expressam apoio a Blake Lively, elogiando sua coragem em denunciar o comportamento inadequado. Outros, no entanto, questionam o momento das acusações, considerando que o filme foi lançado em agosto de 2024 e obteve sucesso de bilheteria, arrecadando 350 milhões de dólares mundialmente e ela só tornou a história pública quando seu passado esnobe e arrogante veio à tona. E o pior é que os dois lados estão certos. E errados.

Quando Blake Lively se viu involuntariamente no centro de um debate público intenso sobre sua personalidade, ela não entendeu nada. Literalmente. Ela sempre agiu da mesma maneira desde o início de sua carreira e a adoração já era hábito. Porém ela – a meu ver – erradamente se vitimiza sem reconhecer seus próprios deslizes. Para piorar, claramente acredita que está sendo falsamente acusada de insensibilidade por conta de alguma ação de seu desafeto, Justin Baldoni.
Vamos esclarecer algumas coisas: como princípio, jamais questiono uma acusação de assédio sexual ou misoginia porque a vivência me faz entender que 99% dos casos elas são verdadeiras. Sim, acreditei em Amber até não acreditar mais, e hoje acredito em Blake, mas vejo os problemas separadamente.
É fato, e ela não pode negar, que o filme, que é uma adaptação do best seller de mesmo nome, trata de assuntos como violência doméstica, mas o fato de que a atriz queria mais falar de florais, anéis e produtos cosméticos nas entrevistas, acabou a transformando em alvo de críticas severas e surpreendentes. Blake vê que sua personagem é uma sobrevivente e sua força não está na vitimização, mas definitivamente não foi eficiente em elaborar esse posicionamento. O que ficou aparente foi uma indiferença, um pedantismo e falta de preparo intelectual para lidar com o tema.
A essa altura, já sabíamos que ela e Justin se detestaram nos bastidores, que bateram boca e que ela como produtora, interferiu em tudo. O clima ficou tão ruim que ela não posou para fotos com ele, não deram entrevistas juntos e Blake não fez a menor questão de mostrar seu desprezo por ele. O apoio do elenco à ela, no entanto, não pareceu genuíno mas sim um grupo de pessoas elegendo a mais popular para dar suporte, ou seja, uma Regina George de Garotas Malvadas. Essa percepção só piorou quando Justin, dolorosamente isolado, falou tudo certo sobre violência doméstica, foi humilde e sensível. Orientado judicialmente e ação maliciiosa? É o que Blake alega em seu processo.

Esse caso levanta uma questão importante sobre a responsabilidade das figuras públicas na condução de narrativas sensíveis. Não se trata apenas do conteúdo do que é dito, mas de como ele é apresentado e recebido em um mundo onde a opinião pública muitas vezes transforma casos complexos em batalhas morais simplistas.
A postura de Baldoni e o contraste com Lively
Justin Baldoni certamente estava mais do que ciente de que seu comportamento nos bastidores seria usado contra ele por Blake, tanto que contratou advogados há seis meses e já está com todo histórico público favorável para sua narrativa. Nessa ótica, dá para concordar com a atriz que houve uma intenção de prejudicá-la, porém se ela não estivesse atenta ou fosse genuína, não teria caído na armadilha.
Enquanto Justin se limitou a declarações públicas de respeito e solidariedade às vítimas de violência doméstica, mantendo uma imagem de sensibilidade e equilíbrio que ressoou positivamente com o público, o contraste com Blake Lively foi evidente. Não apenas pela divergência em suas perspectivas, mas pela forma como sua abordagem foi percebida. A postura de Justin ofereceu o tipo de narrativa que o público espera de um homem em posição de destaque: contida, empática e focada em questões mais amplas. Blake perdeu a oportunidade tanto de ter saído na frente como ter reconhecido seu erro. Aparentemente prefere acusá-lo em vez de olhar para ela mesma.
A responsabilidade de figuras públicas
É inegável que as palavras de uma figura pública têm um peso especial. Declarações mal calculadas podem não apenas prejudicar a percepção de sua imagem, mas também afetar causas maiores. Nesse caso, Lively parece ter subestimado o impacto de sua abordagem no contexto de um debate tão sensível.
Isso não significa que ela deva ser silenciada ou que suas declarações não tenham mérito, mas sugere a necessidade de uma reflexão sobre a maneira como figuras públicas conduzem suas narrativas, especialmente em questões tão polarizadas. A crítica aqui não está em sua posição, mas em como essa posição foi comunicada, abrindo espaço para interpretações que desviam o foco da questão central.

Além da polarização: o papel da opinião pública
A reação do público a Blake Lively pode ser lida também como um reflexo de um problema mais amplo. A sociedade frequentemente exige que mulheres em situações controversas mantenham uma postura impecável, sob o risco de serem vistas como emocionalmente desequilibradas ou egoístas. Isso contrasta com a tolerância maior para erros de homens em posições similares.
Ao mesmo tempo, a tendência de simplificar casos complexos em narrativas de vilões e heróis pouco contribui para um debate significativo. Justin Baldoni pode ter sido mais estratégico em suas declarações, mas será que isso, por si só, é suficiente para invalidar os sentimentos ou a experiência de Blake Lively?
Blake não é a pessoa doce que muitos imaginavam ser e foi deliberadamente grosseira com jornalistas e pessoas ao longo do caminho. E essa informação é relevante quando ela usa como defesa ser vítima de uma campanha difamatória. Como o caso deve ir a julgamento, veremos ainda o que mais virá à tona. Não sou simpática à ela, mas não estou do lado de ninguém.
O caso de Blake Lively e Justin Baldoni oferece uma oportunidade para refletirmos sobre como figuras públicas navegam em questões sensíveis e sobre como a opinião pública rapidamente escolhe lados, muitas vezes sem considerar nuances. O debate, no fim das contas, transcende os envolvidos e nos convida a repensar a forma como julgamos, consumimos e perpetuamos narrativas públicas. Afinal, estamos realmente interessados em justiça, ou apenas em reforçar nossas próprias convicções?
E o triste é pensar o como Amber Heard simboliza tão negativamente uma briga tão séria. Assunto para muita reflexão ainda…
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