Para apreciar Clube dos Vândalos (The Bikeriders) é preciso entender o impacto da obra de Jack Kerouac nos anos 1950s e figuras como Marlon Brando, James Dean e, em especial, O Selvagem (The Wild One), de 1953. A união disso tudo contextualiza o filme cuja história é inspirada em fatos reais, mas não é uma história “verídica”.
Isso porque saiu das imagens e do livro do fotógrado Danny Lyon, publicado em 1965 e que reúne fotos e depoimentos de uma gangue de motociclistas chamada Chicago Outlaws. Danny tinha apenas 23 anos e era acreditava que a melhor maneira de fotografar um sujeito era “de dentro para fora”, ou seja, passou um ano “infiltrado” e se afeiçoando aos membros da gangue.

O espírito de liberdade: um conceito irresistível
Nas páginas eternizadas nas páginas do On the Road, de Jack Kerouac captou e romantizou o conceito da viagem sem destino transformadora, a que captura o espírito de liberdade e inquietação. Para Danny Lyon era uma grande referência, assim como o repórter Hunter S Thompson, que tinha passado um ano com os Hell Angel’s para seu livro, Hells Angels: The Strange and Terrible Saga of the Outlaw Motorcycle Gangs. De olho nessa brecha, Lyon, que já tinha registrado momentos importantes do movimento dos Direitos Civis e, como dizia “era atraído por forasteiros”, viu na gangue Chicago Outlaws um material que daria a ele, certamente, material para um livro.
Como um fotojornalista de destaque e talento, as imagens que ele capturou fazem parte do imaginário pop até hoje. Mas era arriscado, como o próprio Thompson tentou alertá-lo. O resultado de seu trabalho é o livro The Bikeriders, publicado em 1968 e a base do filme de mesmo nome.
Sair dos Direitos Civis para um grupo tão oposto como de motoqueiros, começou quando Lyon, voltando do Sul, estava indo para Chicago, onde tinha estudado. A bordo de uma moto, o fotógrafo se juntou ao Chicago Outlaws, e foi gravando as conversas com cada membro do grupo. O líder deles era obcecado por O Selvagem (The Wild One) e Marlon Brando e por isso criou o clube que batizou como Os Fora-da-Lei de Chicago.
Lyon pode ter feito imagens lindas, mas rapidamente se assustou quando testemunhou brigas e alguns motoqueiros com a bandeira nazista.”Naquela época, eu tinha percebido que alguns desses caras não eram tão românticos assim”, disse mais tarde. Esses relatos estão no filme estrelado por Tom Hardy, Austin Butler, Jodie Comer, Mike Faist, e Michael Shannon, entre outros.

A visão romântica dos motociclistas
Danny Lyon eternizou os membros originais dos Chicago Outlaws no livro que impactou anos depois o diretor Jeff Nichols, tanto nas imagens quanto as histórias, recontadas com autencidade e eternizando uma América rebelde e marginalizada. Nichols, que sempre foi atraído pelo material por causa de seu interesse em histórias regionais, personagens complexos e subculturas americanas, levou anos para transformar Clube dos Vândalos (The Bikeriders) em filme.
Uma das decisões interessantes de Nichols foi a de expandir a abordagem documental de Lyons para criar uma narrativa ficcional e focar em um clube de motociclistas fictício ao longo de várias décadas, explorando as dinâmicas internas do grupo, os relacionamentos entre seus membros e o impacto da cultura de motociclistas na sociedade americana. Há um campo cinzento: há muitas imagens que refazem em detalhes as fotos e há diálogos, como os do depoimento da personagem de Jodie Comer, que repetem as palavras exatas do livro. Isso porque, o enredo é uma obra de ficção criada pela junção das entrevistas.
Ele queria queria capturar tanto a energia e o espírito rebelde da subcultura dos motociclistas quanto suas nuances emocionais, descrevendo o filme como um estudo de personagem que examina o impacto emocional e social de fazer parte de um grupo tão intenso e apaixonado.

Tributo e emoção nas telas
Ao final, Clube dos Vândalos (The Bikeriders) não é apenas um tributo ao livro de Danny Lyon, mas também uma exploração cinematográfica das ideias de pertencimento, individualidade e rebeldia. Todos os atores homens, mesmo que bem, repetem figuras que já interpretaram em um filme ou outro, mas Jodie mais uma vez nos surpreende com uma interpretação bem diferente de tudo que já a vimos.
Austin, finalmente se livrando da sombra de Elvis Presley, é agora uma versão atualizada de James Dean, com poucas palavras e longos olhares. E Hardy, sempre com uma voz e dicção esquisita, traz profundidade para o líder da gangue.
A história parece demorar a decolar, mas captura bem a sensação de vazio, ou melhor, “de liberdade das autoestradas e estradas abertas, o tal “espírito dos motociclistas” que Lyon imortalizou no livro. O drama, como vemos, é que há também a versão romanceada do espírito fora da lei tão presente na cultura americana.
A geração que viveu tantas mudanças sociais no pós-segunda Guerra Mundial (além de serem os que lutaram no Vietnam) encarava problemas para se ajustar à vida civil e os grupos eram como as redes sociais daquela época: pessoas que se identificavam tanto pela realidade como pela aspiração de um estilo de vida. A camaradagem, as toxicidade da amizade masculina, a repressão e as angústias comuns contribuíram para a formação da gangue e, depois, o desvio para crimes e violência.

Clube dos Vândalos (The Bikeriders) é contado por Kathy (Comer), que se apaixona e entra para a guange quando conhece Benny (Butler). Na primeira parte é uma junção das histórias do livro, mas a sehunda já mostra como era inevitável que o lando sombrio e violento acabasse acabando com o “sonho” dos motociclistas. Segundo Nichols, importante para não glamourizar a violência ou crimes do grupo.
Segundo pesquisas, ainda hoje há mais de 300 gangues de motociclistas fora da lei em operação nos Estados Unidos, com mais de 1.700 membros, a maior parte envolvida com atividades criminosas. Portanto os Chicago Outlaws ainda existem, mas bem diferentes do que Danny Lyons conheceu, tanto que não foram consultados para o filme. O que ele deixa claro é que a idéia é mesmo refletir sobre as pessoas do livro, não a vida dos motociclistas contemporâneos. E funciona muito bem assim.
Assim, Clube dos Vândalos (The Bikeriders) transcende sua premissa de um simples relato sobre motociclistas e, ao explorar as tensões entre camaradagem e individualidade, sonho e realidade, Nichols cria uma narrativa que ecoa as angústias de diferentes gerações. No final, o filme não apenas presta um tributo ao livro de Lyon, mas também reflete sobre as aspirações e contradições do espírito rebelde que moldou a cultura americana.
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