A Evolução do Faroeste no Cinema

Uma vez que Hollywood fica na California, não chega a ser uma surpresa que o gênero de faroeste faça sucesso no cinema. Afinal, cowboys fazem parte de sua história. Assim, o auge do gênero aconteceu principalmente entre as décadas de 1930 e 1960, com picos durante a Era de Ouro de Hollywood nos anos 1950s.

Ao longo do tempo, os passaram a ser alvo de críticas pois os mais antigos refletiam a narrativa racista e complexa que marcou a expansão territorial do país e ajudou a moldar a identidade cultural, assim como uma visão “romântica” da história americana, especialmente a ideia da “fronteira” e do “Velho Oeste”. Os índios e mexicanos que foram expulsos eram os vilões usuais e a violência marcante e real da verdadeira corrida pelo ouro, minimizada.

Década de 1930 – 1940: A Consolidação

O gênero faroeste chegou aos cinemas junto com os primeiros filmes, ainda mudos, mas com o som e a evolução tecnológica dos anos 1930, passou a ser uma das maiores fontes de entretenimento para o público americano, especialmente durante a Grande Depressão. Estúdios como Warner Bros., Paramount e MGM produziram grandes quantidades de filmes de western, muitas vezes com enredos simples e focados em aventuras.

Nessa época, nomes como John Wayne, Gary Cooper e James Stewart começaram a se destacar como heróis do gênero, representando o “cowboy” americano íntegro, solitário e corajoso. Filmes como No Tempo das Diligências (Stagecoach), de 1939, dirigido por John Ford, são marcos dessa época, não apenas por sua popularidade, mas por seu impacto na estética e no tratamento narrativo do gênero.

Década de 1950 – 1960: A Era de Ouro

Os anos 1950 e 1960 marcaram o apogeu do western, com uma produção massiva de filmes e séries de TV. Esse período foi dominado por diretores como John Ford, Howard Hawks e Anthony Mann, além da prolífica atuação de estrelas como Clint Eastwood, James Stewart e Henry Fonda.

Curiosamente, o maior clássico de todos, Era Uma Vez No Oeste (Once Upon a Time in the West), de Sergio Leone, foi filmado na Itália, em 1968. Outros consideram que o maior de todos foi Os Brutos Também Amam (Shane), com Alan Ladd dirigido por George Stevens, em 1953. Não se pode esquecer o tenso Matar ou Morrer (High Noon), com Gary Cooper (e uma jovem Grace Kelly), de 1952 ou mesmo Sete Homens e um Destino (The Magnificent Seven), de 1960, com Yul Brynner, Steve McQueen, James Corbun, Robert Vaughn, Eli Wallach e Charles Bronson que era a refilmagem em inglês de Os Sete Samurais, de Akira Kurosawa. Obras que ajudaram a definir os pilares do gênero, com uma ênfase em heróis ambíguos e dilemas morais complexos.

Leone também fez de Eastwood o símbolo do cowboy moderno em três filmes: Por Um Punhado de Dólares (Per un pugno di dollari), de 1962, Por Uns Dólares a Mais ( For A Few Dollars More), de 1965 e sobretudo o brilhante Três Homens em Conflito (The Good, The Bad and The Ugly), de 1966.

A essa altura, a TV também embarcou no gênero com séries (hoje problemáticas) como Bonanza, levando o western para os lares de milhões de pessoas.

O Declínio do Western

Com a chegada dos anos 1970s, as mudanças sociais e culturais relegaram o western ao campo de cafona e menos interessante, marcando o declínio do western.

Diversos fatores contribuíram para essa queda de popularidade, como o movimento pelos direitos civis, a resistência à Guerra do Vietnã e uma crescente crítica à violência e à guerra. O faroeste passou a ser visto como uma glorificação da expansão territorial violenta e do colonialismo, por isso tão antiquado como problemático.

Além disso, com suas mensagens de heroísmo e simplicidade moral, começou a perder relevância em uma época em que o público estava cada vez mais interessado em histórias mais complexas e com uma visão crítica da sociedade. Foi a época dos filmes mais realistas e a ascensão dos gêneros policial e suspense, assim como o início de uma nova onda de filmes de ficção científica e dramas urbanos.

Mas há grandes filmes desse período que é considerado de grande transformação para o gênero e a ascensão dos westerns revisionistas, filmes que subvertiam as convenções clássicas do gênero, desafiando as noções de heroísmo, moralidade e a mitologia do Velho Oeste, frequentemente retratando personagens mais complexos e explorando questões sociais e políticas.

São eles Pequeno Grande Homem (Little Big Man), de 1975, com Dustin Hoffmann e Faye Dunaway; Um Homem Chamado Cavalo (A Man Called Horse), de 1970, com Richard Harris; Pat Garrett & Billy the Kid, de 1973, com Kris Kristofferson e Bob Dylan, e Mais Forte Que A Vingança (Jeremiah Johnson), de 1972, com Robert Redford, entre outros.

O Resgate do Western

O resgate do western, especialmente em sua forma mais moderna, pode ser visto a partir da década de 1990. Esse processo se deu de duas formas principais: a reinterpretação e atualização do gênero por novos cineastas e a resposta a uma nostalgia cultural do público por temas de aventura, moralidade e identidade americana. O grande clássico dessa nova fase foi com o ainda perfeito Os Imperdoáveis (The Unforgiven), de Clint Eastwood, é amplamente considerado o filme que “revitalizou” o western moderno em 1992. Eastwood, um ícone do gênero, criou uma obra mais madura e introspectiva, que subvertia os estereótipos do herói tradicional e abordava questões como a violência e a moralidade de uma maneira mais sombria e realista.

Este filme foi uma resposta à saturação do gênero e ao cansaço com os clichês do western. Ele não apenas se destacou pelo seu tratamento mais reflexivo do gênero, mas também foi aclamado pela crítica e conquistou prêmios, incluindo o Oscar de Melhor Diretor e Melhor Filme.

Dois anos antes de Os Imperdoáveis, Dança com Lobos solidificou o estrelado de Kevin Costner e também ganhou prêmios da Academia, mas embora Tombstone tenha feito sucesso, Wyatt Earp e Rápida e Mortal (The Quick and the Dead) não agradaram tanto.

Chegando nos anos 2000, diretores como Quentin Tarantino (com Django Livre, de 2012) e Jim Jarmusch (com Os Mortos Não Morrem, de 2019) trouxeram uma nova energia ao gênero, muitas vezes misturando western com outros gêneros (como ação, comédia ou até horror). Meu favorito da época é a refilmagem de 3:10 para Yuma, de James Mangold, com Russell Crowe e Christian Bale, mas o lindíssimo O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford, com Brad Pitt e Casey Affleck, em 2007, traz uma narrativa mais filosófica e é espetacular. Todos esses filmes, são exemplos de como o gênero foi adaptado para refletir temas mais contemporâneos e complexos.

Os irmãos Coen têm dois excelentes westerns na década passada: Onde os Fracos Não Têm Vez que aborda temas de violência e moralidade de uma maneira mais soturna e filosófica, criando um “western moderno” que resgatava a tensão e os dilemas morais do gênero sem perder a crítica social, e a refilmagem de True Grit – O Corajoso, em 2010, com uma visão mais sóbria e realista do western. O Segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee, jamais poderia ficar de fora de uma lista.

Atualmente, o western foi também ressignificado por diretores que exploraram temas de racismo e justiça social, retratando o oeste americano de uma maneira mais crítica, como as séries da Netflix Terra Indomável (American Primeval) ou The English.

Ou seja, mais do que um gênero cinematográfico, o faroeste é um reflexo da própria identidade cultural americana e das transformações pelas quais a sociedade passou. Seu renascimento em produções modernas que ressignificam temas e personagens ainda inspiram e desafiam os fãs. Hoje, ele não apenas revisita o passado, mas também lança luz sobre questões contemporâneas, mostrando que, mesmo com seus tropeços históricos, ainda tem espaço para expandir fronteiras e cativar novos públicos. Qual o seu faroeste favorito?


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