Se houve um diretor que resumia perfeitamente o termo “avant-garde” esse diretor era David Lynch. Minha formação cinematográfica foi super impactada por ele, com seus filmes quase indecifráveis para uma adolescente como eu era quando ele “explodiu”, sempre com assinaturas visual e musical únicas, histórias ousadas e dramas impactantes. E como ele fazia aniversário na mesma data que o meu pai, também sendo próximo de idade, me doeu muito saber de sua morte hoje, 16 de janeiro de 2025, a poucos dias de seu aniversário de 79 anos. Ele realmente vai fazer falta.

Lynch era visionário e indiferente aos padrões de qualquer época, sua filmografia cobria filmes de terror como Eraserhead, ao drama de O Homem Elefante, aos sexualmente tensos como Veludo Azul e Cidades dos Sonhos (Mulholland Drive), ao clássico sci-fi Duna e o road movie Coração Selvagem (Wild At Heart), sem esquecer quando fez história na TV com a série Twin Peaks. Como poucos antes e depois, um filme de David Lynch é difícil de descrever, nunca é unanimidade, mas todo mundo sabe que é dele. Surreal era uma menção constante para explicar sua narrativa, assim como perturbadora.
As fortes cores de todas suas obras vêm do fato que Lynch era um pintor que virou cineasta, e que com seus filmes influenciou além da TV, mas também música, e literatura, sendo que seu lado ativista o fez popular entre várias gerações. Ele tinha uma linha de café orgânico e uma Fundação para Educação Baseada na Consciência e Paz Mundial, até pouco tempo ultra presente nas edes sociais como a X.
Embora a família não tenha mencionado detalhes de sua morte, imagina-se que seja em consequência de décadas como fumante inverterado porque em 2024 ele mesmo mencionou que havia desenvolvido enfisema e isso limitava seu trabalho. Seu último, o filme Inland Empire, de 2006, foi todo gravado por ele mesmo em vídeo. O surrealismo do Sr. Lynch, no entanto, era mais intuitivo do que programático. Se os surrealistas clássicos celebravam a irracionalidade e buscavam libertar o fantástico no cotidiano, o Sr. Lynch empregava o ordinário como um escudo para afastar o irracional.
É uma nota particularmente triste abrir 2025 com Los Angeles queimando e agora a notícia da morte de um dos cineastas mais influentes e enigmáticos do cinema contemporâneo. Eu me queixo muito, mas nunca de David Lynch, de narrativas não lineares porque ele era o rei desse estilo, mas funcionava porque sempre foi muito inteligente e porque ele usava a fórmula para explorar os recantos sombrios da psique humana, construindo universos que oscilam entre o sonho e o pesadelo.

Filho de um cientista do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, Lynch cresceu em ambientes suburbanos, cuja aparente normalidade contrastava com os mistérios e angústias que ele sentia sob a superfície. Esse contraste se tornaria uma das marcas registradas de seu trabalho. Lynch estudou pintura no Boston Museum School e, posteriormente, na Pennsylvania Academy of Fine Arts, onde começou a experimentar com curtas-metragens, unindo pintura e movimento.
Em 2019, Lynch recebeu um Oscar Honorário por suas contribuições ao cinema e é creditado a ter “descoberto” talentos como Laura Dern e Naomi Watts, assim como é citado como inspiração por diretores como Quentin Tarantino, Darren Aronofsky e Denis Villeneuve.
Além disso, as personagens femininas de David Lynch sempre foram fora da caixa. Enigmáticas, frequentemente são o centro de mistérios ou tragédias. Muitas delas apresentam uma dualidade que reflete tanto pureza quanto corrupção, ou inocência e sensualidade, oscilando entre arquétipos como o de “femme fatale” e o de “donzela em perigo”.
Como Lynch sempre gostou de explorar a perda da inocência, suas mulheres frequentemente enfrentam o lado sombrio da humanidade, muitas vezes de forma violenta ou traumática. Mas também frequentemente exercem um poder sedutor, mesmo que também mostrassem vulnerabilidade profunda, muitas vezes explorada ou manipulada por outros personagens.
Vamos lembrar de cinco personagens icônicas?
Claro, temos Laura Palmer (Sheryl Lee), a figura central de Twin Peaks, que é tanto vítima quanto enigma. Sua vida secreta e seu assassinato desencadeiam a trama, e sua presença assombra a série, sendo um símbolo de dualidade e mistério. Inesquecível como no início dos anos 1990s todos queriam saber “quem matou Laura Palmer” e a revelação foi mais do que chocante.
Dorothy Vallens (Isabella Rossellini) de Veludo Azul, em 1986, a cantora de boate envolvida em um ciclo de abuso e violência, representa o lado mais sombrio da sexualidade e da fragilidade emocional.

No filme apontado como a obra-prima de Lynch, são Betty Elms/Diane Selwyn (Naomi Watts) e Rita/Camilla Rhodes (Laura Harring) são as mulheres de Cidade dos Sonhos (Mulhohhand Drive), sendo que Betty representa a luta entre ilusão e realidade em Hollywood. Betty é uma jovem otimista e sonhadora, enquanto Diane é uma mulher marcada pelo fracasso e pela amargura. E Rita simboliza amnésia, identidade perdida e o lado oculto de Hollywood.
Sem dúvida jamais poderia fechar sem mencionar Lula Pace Fortune (Laura Dern), de Coração Selvagem (Wild at Heart), a jovem apaixonada e impulsiva, que segue uma jornada de autodescoberta ao lado de Sailor Ripley (Nicholas Cage). Lula é ao mesmo tempo frágil e destemida, uma das musas de todo universo lyncheriano.

Claro que há outras, mas com essas cinco conhecemos bem como David Lynch tratava suas personagens femininas.Sejam ricas em nuances e narrativas, elas frequentemente passam por experiências de objetificação e violência, algo que suscita debates porque enquanto alguns críticos vêem as escolhas como uma reflexão sobre a exploração feminina na sociedade, outros questionam se essas representações perpetuam os mesmos padrões que criticam. Pessoalmente, sempre me inclino para essa vertente, mas hoje é dia de reconhecer um gênio e esse era, sem discussão, David Lynch.
David Lynch foi mais do que um cineasta; ele foi um artista completo, que transbordava criatividade em tudo o que tocava, como pintor, músico ou escritor também. Seu impacto no cinema será sempre lembrado como a arte pode ser profundamente pessoal e universal ao mesmo tempo. Hoje o mundo perde uma voz singular, mas o legado de Lynch vive em suas obras – enigmas que continuam a fascinar, perturbar e inspirar. O céu está nublado, mas há um lugar especial para ele, onde o surrealismo e os sonhos jamais terão fim.
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