A Importância de O Leopardo na Netflix

Tenho que admitir que, embora não curta as “atualizações” de obras clássicas ou de biografias da Netflix, é extremamente relevante que a plataforma traga esse conteúdo para novas gerações que, de outra forma, teriam acesso limitado à conteúdos atemporais e importantes. Entre eles, com data de estreia prevista para 5 de março de 2025, está O Leopardo.

A produção de época italiana revisita uma das obras mais emblemáticas da literatura italiana, escrita por Giuseppe Tomasi di Lampedusa e publicada postumamente em 1958, dois anos após a morte do autor. O Leopardo (Il Gattopardo), o livro, é considerado um dos maiores romances italianos do século 20 e teve grande impacto não apenas na Itália, mas no mundo inteiro, sendo traduzido para várias línguas. E o filme de 1963, dirigido por Lucchino Visconti é uma das mais importantes e aclamadas do cinema mundial, ou seja, é extremamente ousado da plataforma apostar em sua refilmagem.

Considerando que ambas obras são menos conhecidas pelo grande público, vale revisitá-los antes da chegada da série.

Contexto Histórico e Cultural para o livro

O Leopardo se passa na Sicília do século 19, durante o período de transição da sociedade feudal para uma nova ordem política e social, marcada pela unificação da Itália sob a liderança de Giuseppe Garibaldi (que mais tarde viria para o Brasil) e pela abolição das antigas estruturas aristocráticas. Esse contexto histórico é contado sob a ótica de uma família nobre siciliana, os Salinas, cujo patriarca é o príncipe Fabrizio Salina, um aristocrata que testemunha e, de certa forma, simboliza o fim de um mundo tradicional e a ascensão de uma nova classe burguesa. Através dele, o autor explora questões de classe, poder, decadência e a inevitabilidade das mudanças sociais e políticas.

Dessa forma, a trama é liderada pelo príncipe que acompanha a ascensão do movimento de unificação italiana, liderado por Giuseppe Garibaldi (uma figura real). Fabrizio é melancólico e reflexivo, profundamente consciente da decadência de sua classe e das dificuldades que essa transição de poder impõe aos aristocratas. Ele observa com resignação a ascensão da burguesia e das novas dinastias políticas que irão tomar o lugar da antiga nobreza.

Em contraste, representando a nova geração de aristocratas, há também seu sobrinho Tancredi, que é uma figura carismática que aceita a mudança para manter sua posição na sociedade. Tancredi se alinha com Garibaldi e as forças da unificação, buscando sobreviver e manter sua posição através da aceitação do novo sistema, enquanto o príncipe Fabrizio observa com distanciamento e resignação. E, para completar, o jovem se apaixona por Angelica, a bela – e rica – jovem e o romance dos dois reflete também a relação entre gerações e as complexas interações entre elas.

O título da obra, O Leopardo, é uma referência à figura do leopardo, que é ao mesmo tempo imponente e ameaçado, assim como a nobreza siciliana. O leopardo é também o símbolo da família Salina, que se vê em declínio. Lampedusa, seguindo o perfil de seu personagem principal, conduz o leitor em uma viagem profundamente reflexiva e introspectiva, ricamente descrita em detalhes. O que faz do livro universal e ainda atual.

Sim, atual! Afinal, a metáfora do declínio da monarquia tradicional e o avanço de novos sistemas políticos e econômicos pode ser refletida em conflitos de gerações pré-digitais e digitais, por exemplo. O livro questiona como as instituições sociais se moldam e são moldadas pelo tempo. Ele também aborda os limites do poder aristocrático frente às forças da modernidade e do capitalismo, o que é um paralelo com as questões contemporâneas de desigualdade social, mobilidade de classe e as transições políticas que muitos países ainda enfrentam.

E o que os críticos ressaltam como grande diferencial é que em vez de se concentrar na ascensão de uma classe ou na luta heroica, O Leopardo é um estudo da decadência e da desilusão, onde a realidade, as esperanças e os idealismos de uma geração são desfeitos por fatores históricos implacáveis e inevitáveis. O tom de resignação e fatalismo, muitas vezes associado à literatura existencialista, proporciona uma leitura mais sombria e introspectiva, questionando a natureza da transformação social e a posição do indivíduo diante da história.

A Adaptação Cinematográfica por Visconti

Ainda no auge do sucesso do livro na Itália (e no mund), o diretor Luchino Visconti decidiu adaptá-lo para o cinema. Lançado em 1963, O Leopardo é considerado uma das obras-primas do cinema italiano e uma das maiores adaptações literárias já realizadas. Visconti, um dos cineastas mais influentes da Itália, conseguiu traduzir a complexidade e a profundidade do romance de Lampedusa para a tela grande, mantendo a densidade emocional e a crítica social do livro, com um elenco liderado por Burt Lancaster, Alain Delon e Claudia Cardinale.

Um dos desafios do filme, que a série da Netflix terá como vantagem, foi a de reduzir os 20 anos da história em menos de 3 horas, o que demandou mudanças quanto ao livro, mesmo que se mantenha fiel ao espírito e à essência das questões centrais: a transição entre gerações, a decadência da nobreza e a inevitabilidade das mudanças sociais e políticas.

O Leopardo é conhecido por sua visão estética deslumbrante, pela produção luxuosa e pela precisão histórica. Visconti, que tinha uma profunda ligação com a aristocracia italiana e um olhar crítico sobre as transformações políticas, trouxe para o filme uma aura de realismo histórico, mantendo a fidelidade aos detalhes da vida na Sicília do século 19.

Visconti também utiliza o filme como uma crítica à hipocrisia da nobreza e às suas falhas em se adaptar a um mundo em mudança, refletindo a maneira como as classes dominantes em toda a história tendem a proteger seus privilégios enquanto se adaptam à nova ordem, frequentemente de forma dissimulada.

Embora não tenha ficado feliz com a escolha do estúdio de dar o papel principal à um americano, Visconti e Burt Lancaster eventualmente se entenderam e a interpretação do ator como Fabrizio Salina é marcada por uma melancolia e uma sabedoria silenciosa, capturando a essência do personagem do livro – um homem que aceita a queda de sua classe com uma resignação triste e digna. Já Alain Delon, no auge de sua beleza, juventude e a energia, é perfeito como Tancredi e Claudia Cardinale, também no auge, é encantadora como Angelica.

Outro grande destaque, claro, é a trilha sonora do genial Nino Rota, melancólica e sofisticada, refletindo o tom da história e a decadência que permeia o romance. As música do compositor italiano amplifica o senso de perda e de inevitabilidade que o romance e o filme transmitem.

O Leopardo é considerado uma obra-prima e recebeu a Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes em 1963, consolidando Visconti como um dos maiores cineastas de sua geração e influenciando como produções de época e adaptações literárias para o cinema.

O Baile

Como vários clássicos como a corrida de cavalos em Anna Karenina ou o banquete em Madame Bovary, o baile de O Leopardo é um momento metafórico de grande relevância tanto no livro como no filme, não apenas por sua grandiosidade visual, mas também por sua profundidade simbólica e emocional. Ela une todos os temas centrais da história: a transição entre velhas e novas gerações, a decadência da nobreza, e a ascensão da burguesia. E, no filme, com uma impressionante coreografia, figurinos suntuosos e uma direção de arte primorosa, a cena encapsula a tensão entre o antigo e o novo, além de transmitir a melancolia e o fatalismo dos personagens. Com a música de Nino Rota, claro!

O baile ocorre em no palácio do príncipe Fabrizio Salina (Burt Lancaster), onde a aristocracia siciliana, com seus códigos e pompas, ainda tenta manter o controle e a aparência de poder, mesmo diante da ascensão da nova classe burguesa representada por figuras como Tancredi (Alain Delon) e sua noiva, Angelica (Claudia Cardinale).

Antes da entrada no salão de baile, a cena é preparada com grande atenção ao detalhe. O palácio está adornado com tapeçarias, candelabros, e móveis luxuosos. A câmera de Visconti se move com suavidade, capturando o luxo da decoração e a formalidade das interações entre os convidados. O vestuário das mulheres, com seus vestidos de alta-costura e penteados elaborados, é digno de um baile da alta sociedade, enquanto os homens, com suas vestes formais e expressões sérias, carregam uma certa rigidez, refletindo as convenções rígidas da época.

Quando a cena finalmente chega ao salão do baile, a câmera começa a percorrer a grande sala, mostrando uma multidão de nobres dançando e se entrelaçando nas danças formais. O salão, amplamente decorado e iluminado por candelabros dourados, é um espetáculo visual de luxo e pompa, refletindo o poder e a importância da nobreza siciliana antes da unificação da Itália.A música, tradicional e vibrante, começa a tocar enquanto a câmera acompanha os movimentos das danças. Os ritmos das músicas clássicas, que acompanham os casais dançando, reforçam a ideia de uma aristocracia decadente, ainda imersa em sua pompa e circo social, mas já ciente de que a época dourada está chegando ao fim.

Em dado momento, Angelica, com seu vestido exuberante, entra no salão e é rapidamente notada. A sua presença é marcante não apenas pela sua beleza física, mas também porque ela representa a ascensão da nova classe burguesa, a classe que se coloca em oposição ao mundo aristocrático. A música, ao se tornar mais vibrante e quase hipnótica, sublinha a tensão entre o velho e o novo, entre as gerações. A câmera foca em Tancredi, que observa Angelica com desejo e um certo encantamento. O olhar de Tancredi, com sua atitude mais jovial e moderna, é contrastado com o olhar do príncipe Salina, que vê, com uma mistura de dor e resignação, a jovem como a personificação de uma mudança inevitável. O príncipe, como a velha ordem que ele representa, sente que está sendo substituído, mas não pode fazer nada para impedir isso.

A dança entre Angelica e Tancredi simboliza não apenas a atração pessoal entre os dois, mas também a aliança entre a velha e a nova classe. Tancredi, embora ainda parte da aristocracia, começa a se alinhar com o novo poder que Angelica representa. Durante a dança, a câmera os segue de perto, e suas expressões faciais se tornam mais intensas, refletindo a complexa relação entre os dois mundos. O príncipe Salina, observando à distância, vê o futuro se aproximar, embora, como personagem melancólico, não se envolva diretamente. A dança em si é formal e elegante, com passos precisos e coreografias que reforçam a ideia de um mundo que se move dentro de um conjunto de normas e regras imutáveis. No entanto, essa formalidade está sendo gradualmente substituída pela fluidez e a energia da juventude de Tancredi e Angelica, que simbolizam um novo futuro.

O príncipe Salina observa o baile com uma expressão de desapego e melancolia. Em contraste com os outros personagens, ele parece deslocado, como se estivesse em outra dimensão temporal, completamente ciente de que a aristocracia à qual ele pertence está morrendo. Essa cena revela a alma do personagem, que se sente desgastado pelo tempo e pela inevitabilidade das mudanças que acontecem ao seu redor. O olhar de Lancaster é profundamente carregado de tristeza e resignação, tornando-o um dos pontos mais tocantes e complexos da cena.Visconti utiliza a câmera para capturar esse sentimento de perda e de olhar para o passado. A câmera é lenta e reverente, como se quisesse preservar esse momento de luxo e formalidade, embora saiba que ele está destinado a desaparecer. O contraste entre o príncipe e os outros personagens é palpável, e sua posição distante, na borda do salão, é uma metáfora visual para sua desconexão com o mundo em mudança.

O baile, portanto, é mais do que apenas uma sequência social; ele funciona como uma representação da sociedade siciliana em um momento de transição. As danças, as músicas e os trajes são uma fachada de grandeza e dignidade, mas há um subtexto de decadência. O príncipe Salina, ciente do fim de sua classe e da chegada do novo poder, percebe que o futuro está além de seu alcance. A entrada de Angelica e a dança com Tancredi são os pontos culminantes desse processo de transformação.

A aura de perda e a melancolia da cena são amplificadas pela direção de Visconti e pela cinematografia de Giuseppe Rotunno. A atenção aos detalhes, a luz suave que banha os rostos dos personagens e os adornos do ambiente criam uma sensação de nostalgia e despedida, como se o baile fosse uma última tentativa da aristocracia de preservar sua identidade em um mundo que está mudando rapidamente.

A cena também é simbólica por capturar o passo do tempo – a decadência dos velhos costumes e o renascimento da nova ordem. A música, as danças e os diálogos são como uma metáfora para o tempo em movimento, e o baile é um retrato visual da impossibilidade de evitar a mudança.

A série da Netflix

A versão de 2025 terá seis episódios e estreia quase 62 anos depois do filme de Visconti, com elenco de estrelas italianas, como Kim Rossi Stuart, Saul Nanni, Deva Cassel e Benedetta Porcaroli.

A trama segue Don Fabrizio Corbera (Kim Rossi Stuart), o príncipe de Salina, que leva uma vida repleta de beleza e privilégios. Mas quando a unificação da Itália ameaça desmantelar a aristocracia siciliana, Fabrizio decide proteger sua linhagem — inclusive arranjando um casamento entre a rica e bela Angelica (Deva Cassel) e seu sobrinho Tancredi (Saul Nanni), correndo o risco de partir o coração da amada filha de Fabrizio, Concetta (Benedetta Porcaroli), que ama Tancredi. No filme de VIsconti, o drama de Concetta foi reduzido e a série promete colocar maior destaque ao sofrimento da personagem.

A minissérie mantém Fabrizio como um observador desencantado do declínio progressivo e inescapável da aristocracia siciliana à medida que a burguesia ganha poder e influência. A histórica Expedição dos Mil, liderada por Giuseppe Garibaldi, assim como o ocaso do governo Bourbon ea tensão da Sicília, destinada a ser anexada pelo Reino da Sardenha, servem de pano de fundo, assim como no livro. Assim como a clássica conclusão de Tancredi sobre a realidade da nobreza, que tem impacto no livro e no filme de 1963: “Se quisermos que as coisas permaneçam como estão, as coisas terão que mudar,” ele diz à Fabrizio.

A plataforma trata a produção como o investimento de um épico. E certamente, um dos grandes destaques do ano.


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