Estive viajando e por isso sem conseguir escrever com frequência, vamos retomar os posts?
Há cinco anos estamos achando tudo esquisito em Hollywood, embora a verdade é que a esquisitice sempre fizesse parte do sistema e as mudanças de negócios (após as culturais) ainda são sentidas nas telas. Precisamos da pausa obrigatória da Pandemia de Covid-19 em 2020, que demandou o isolamento e depois a distância física por quase dois anos para que as festas de premiações na capital do cinema americano ficassem mais constrangedoras do que já eram. Greves e outros problemas não colaboram, em especial a proliferação de eventos entre janeiro e março que nos fazem ver as mesmas pessoas, falando as mesmas coisas, apenas com roupas diferentes. Mas 2025 já provou ser “diferente”.


Drama é preciso para manter acesa a chama do interesse por essas festas que não dão espaço para autenticidade ou improviso (todos estão falando a coisa certa, usando as roupas lindas, etc) e graças ao filme com maiores indicações ao Oscar, o musical Emilia Perez, temos o suficiente para ficar comentando. Nem uma década de Angelina Jolie, Brad Pitt e Jenniffer Aniston renderam tantos posts, capas de revistas e opiniões sobre um mesmo assunto, o que só ficou pior graças à “imperdoável” e “abordagem autodestrutiva” (palavras do diretor do filme, Jacques Audiard) da atriz Karla Sofía Gáscon, que esava fazendo história por ser a primeira trans indicada como Melhor Atriz mas agora é protagonista de um dos anos mais complexos da trajetória do Oscar por reunir preconceito contra ela, dela e de todos sobre uma série de temas delicados.
A implosão do marketing bem sucedido de render 13 indicações a um filme que o México rejeita oficialmente (a história se passa no país, mas é um filme francês com atores espanhóis, americanos, venezuelanos e porto-riquenhos), que é um musical que fala de tráfico de drogas, mudança de sexo, aceitação e redenção, é ímpar em qualquer premiação. Karla Sofía tinha menos chances de ganhar se comparada à Fernanda Torres ou Demi Moore, mas não apenas jogou para o alto sua oportunidade como ameaçou sua colega de elenco, Zoe Saldaña, a favorita para categoria de Melhor Atriz Coadjuvante. Sim, porque de queridinha da crítica, Emilia Perez passou a ser o pepino indefensável da hora.

Portanto, as “vitórias” do Critics Choice Awards soaram fora do tom, e precisa ser contextualizada também. A festa, que como avisa, é a escolha dos Críticos americanos, era para ter sido realizada há algumas semanas, mas os incêndios de Los Angeles forçaram o adiamento da festa, sendo que os votos já tinham fechado ANTES de tudo isso e ANTES do drama Karla Sofía. Essa longa introdução é necessária para olhar para os vencedores e provocar o que sinaliza para as próximas festas. Tem muita coisa mais interessante do que Emilia Perez, acredite.
Primeiro, os filmes. Anora ganhou fama de “azarão”, mas todos os críticos (posso me incluir neles?) a-ma-ram essa preciosidade de Sean Baker. Sempre esteve entre os favoritos, embora O Brutalista ainda pareça ter mais chances no Oscar. Falando nisso, Adrien Brody já é esperado como Melhor Ator em março, ele vem ganhando TUDO nos Estados Unidos, dividindo a liderança com Ralph Fiennes nos prêmios internacionais. Está entre os dois, mas apenas o SAG Awards vai confirmar o eleito, acho difícil tirar de Brody seu segundo prêmio da Academia (por um papel parecido com O Pianista).


Da mesma forma, Ator e Atriz Coadjuvantes estão fechados em Kieran Culkin por A Dor Verdadeira e (aff), Zoe Saldaña por Emilia Perez. A única real disputa é justamente entre as Melhores Atrizes, que tem tantas boas interpretações que nem são as mesmas indicadas a cada prêmio. Aqui, Fernanda Torres, Kate Winslet, e Nicole Kidman foram “esnobadas” e com isso quem teve vantagem foi Demi Moore, a vencedora da noite.


Demi e Cynthia Erivo são as duas que estão em todas as festas, poderíamos argumentar que seriam as favoritas do ano, mas o fato de não serem é o que torna 2025 tão interessante. Karla Sofía foi a sombra da noite, mesmo em sua esperada e estudada ausência. Ela avisou que “após a entrevista do Jacques” [Audiard, que falou com a CNN se queixando da atriz por estar “prejudicando pessoas que eram muito próximas a ela”] que ia se silenciar para que “o filme seja apreciado pelo que é“, pedindo desculpas “a todos que foram feridos ao longo do caminho”. Ainda é cedo para saber se deu certo porque os votos dos críticos foi anterior a tudo, mas desconfio que Saldaña ainda será a vencedora.
Curiosamente Jon M. Chu foi eleito o diretor por Wicked, uma febre nos EUA e também um filme cercado de “crítica” por várias alterações do material original. Essa vitória nos lembra que não podemos ignorar a força do musical na disputa, até porque o drama deles é insignificante perto dos demais. Será que muda a maré?


Coralie Fargeat ganhou como Melhor Roteiro Original por A Substância, que não é injusto e que mostra sim suas chances nas próximas festas, assim como Peter Straughan levou como Roteiro Adaptado por O Conclave. Rende discussões sobre os trabalhos mais interessantes de Sean Baker em Anora ou Dennis Villeneuve em Duna 2, mas não se pode gritar que foi surpresa ou errado.
No campo das séries, poucas surpresas.
Shogun ainda comparece aqui, mesmo depois das vitórias do Emmy, porque estreou em 2024 depois das premiações daquele ano. É um atraso que ainda reflete o ano que passou. Na categoria de drama, levou quase tudo: de melhor série à melhores atores principais e coadjuvantes e até atriz coadjuvante, todos merecidos. Anna Sawai perdeu para Kathy Bates em Matlock, o que é bizarro pois o posicionamento da série é sempre ressaltando a comédia, mas ainda assim está como Drama. Anna já ganhou o Emmy, o Critic’s Choice seria apenas bonus, dá para viver sem ele.


Já a comédia está clara a rejeição à The Bear e a idolatria de Hacks. Sou louca por Jean Smart e celebro cada vez que ela vence, e a série também está na preferência dos prêmios à frente. A vitória de Adam Brody pela comédia romântica Nobody Wants This (outra com polêmica nos bastidores) é um refresco bem-vindo, assim como dar à Michael Urie o prêmio de coadjuvante por Shrinking, mas vou ser a do contra: não vejo nenhum dos dois como algo brihante.

O maior embate nas séries foi no campo das limitadas, pois a força de Bebê Rena, no mesmo delay de Shogun, ameaçava a minha favorita de 2025: O Pinguim. Foi uma escolha Salomão: Bebê Rena ficou com Melhor Série e Melhor Atriz Coadjuvante, ambos inegáveis, mas Melhor Ator e Melhor Atriz foram Cristin Milioti e Colin Farrell, meus favoritos e os preferidos para o Emmy em setembro.


Sei que há quem questione a vitória de Squid Games 2 em cima de Senna, mas eu coloco assim: como levar à sério o resultado quando não apenas indicam Liev Schreiber pela lastimável The Perfect Couple e ainda o premiam? Temos que sempre dar muito desconto para quem ganha assim como para quem perde.
Próxima parada? A noite do SAG Awards, dia 23 de fevereiro.
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