Como publicado em Bravo!
A imagem sensual de Margot Robbie como Cathy Earnshaw, a anti-heroína clássica saída da imaginação de Emily Brontë sacudiu as redes sociais ontem, dia 14 de fevereiro, o Dia de São Valentim e o “Dia dos Namorados” no mundo, menos no Brasil. Seus dedos nos lábios, misturados com grama já sinalizam que a diretora Emerald Fennell vai destacar toda camada sexual do amor tóxico, carnal e trágico de Cathy e Heathcliff. Mas há algo paradoxal aqui: lançar um filme tão “anti-romântico” no dia dos namorados em 2026? Não seria hora de reconhecer que O Morro dos Ventos Uivantes como uma obra sensacional e universal que é, mas não um exemplo de história de amor?

O debate não é novo, não estou tentando criar polêmica. Por que essa história sombria e destrutiva continua sendo vendida como um grande romance? Desde sua publicação em 1847, o livro de Emily Brontë tem sido cercado por uma aura romântica que, na realidade, pouco se sustenta quando se observa a história em sua totalidade.
Seus elementos mais perturbadores—obsessão, vingança, possessividade e crueldade—são frequentemente reembalados sob uma ótica de paixão arrebatadora. Essa distorção foi reforçada ao longo dos anos, tanto por adaptações cinematográficas que suavizaram a narrativa quanto pela cultura popular, que transformou a relação entre Heathcliff e Cathy em um ideal de amor trágico. Mas quão romântica pode ser uma história na qual o amor é menos sobre conexão genuína e mais sobre destruição mútua?
O Mito do Amor Predestinado
A relação entre Cathy e Heathcliff é frequentemente vista como um amor impossível, quase sobrenatural, como sugerido pela célebre frase de Cathy: “I am Heathcliff” – Eu Sou Heathcliff. Mas essa fusão de identidades não representa um amor altruísta ou saudável—é um laço sufocante, baseado na incapacidade de existir separadamente. Cathy e Heathcliff não encontram felicidade juntos nem separados. Eles são almas ligadas, sim, mas por algo mais próximo da ruína do que da redenção.
Além disso, a ideia de predestinação que envolve os dois ignora que Cathy deliberadamente escolhe casar-se com Edgar Linton, um homem gentil e socialmente respeitável, sabendo que isso destruiria Heathcliff. Sua decisão não é apenas pragmática; é também uma escolha de status e conforto que desafia a noção de amor transcendental.
Vamos voltar à frase “I am Heathcliff”. Sob a ótica da psicanálise freudiana, que descreve o desenvolvimento psíquico como um processo de individuação, no qual o sujeito deve diferenciar-se do outro para formar um ego autônomo, a frase de Cathy revela que sua identidade não está separada de Heathcliff, que ela não se vê como um ser independente, mas como uma extensão dele. Isso remete ao que Freud chamou de identificação primária, um estágio inicial do desenvolvimento infantil em que a criança não distingue entre si mesma e a figura materna ou paterna.

Ao afirmar que ela é Heathcliff, Cathy rejeita a ideia de um eu separado, como se ambos fossem uma única entidade. Esse tipo de fusão é problemático na perspectiva freudiana, pois sugere uma regressão a um estado onde o ego ainda não se consolidou de maneira saudável.
Vale lembrar que há 111 anos, quando Freud publicou Introdução ao Narcisismo, ele falava pela primeira vez sobre dois tipos de amor: o amor objetal e o amor narcísico. O primeiro ocorre quando uma pessoa ama alguém como um ser separado, enquanto o segundo acontece quando o sujeito ama no outro aquilo que reflete a si mesmo. Emily, que escreveu sua obra 70 anos antes de Freud, em 1847, não tinha noção “técnica”, mas foi brilhante em ilustrar a existência desse tipo de relacionamento.
Na ótica freudiana, a relação de Cathy com Heathcliff pode ser interpretada como narcísica porque ela não o ama como um indivíduo distinto, mas como uma extensão de si mesma. Sua frase não é apenas uma declaração de amor, mas uma afirmação de identidade. Nesse sentido, Heathcliff funciona como um espelho para Cathy, reforçando a ideia de que ela o vê como parte de seu próprio eu.
Isso também explica por que Cathy escolhe Edgar Linton como marido. Apesar de declarar que é Heathcliff, ela opta por um casamento que lhe proporciona status e estabilidade. Isso sugere um conflito entre sua identificação simbiótica com Heathcliff e seu desejo consciente por segurança.

Freud também abordou a compulsão à repetição, em que indivíduos recriam inconscientemente padrões de sofrimento ligados a traumas passados. Se considerarmos que Cathy e Heathcliff cresceram juntos sob condições abusivas e desestruturadas, podemos ver seu amor não como uma paixão saudável, mas como uma repetição de um vínculo traumático.
Heathcliff representa para Cathy tanto o lar e a liberdade da infância quanto a dor do abandono e da rejeição. O desejo dela de ser Heathcliff pode estar enraizado em uma tentativa de recuperar algo perdido ou de curar uma ferida emocional profunda.
Portanto, na visão freudiana, o amor de Cathy por Heathcliff não seria um amor maduro e saudável, mas sim um reflexo de fusão narcísica, trauma e compulsão à repetição. Sua frase “I am Heathcliff” não expressa apenas um sentimento intenso, mas um colapso de fronteiras entre o eu e o outro—um sintoma de um vínculo que é menos romântico e mais patológico.


Assim, longe de ser uma declaração de amor ideal, essa frase revela uma relação marcada pela dependência emocional e pela perda da própria identidade, o que ajuda a reforçar por que O Morro dos Ventos Uivantes não deve ser interpretado como um romance convencional, mas sim como um estudo psicológico das paixões mais sombrias.
Heathcliff: O Amante ou o Algoz?
Outra distorção recorrente é a imagem de Heathcliff como o arquétipo do “homem torturado” que ama com tanta intensidade que beira a loucura. Embora sua história de origem—um órfão rejeitado, humilhado e violentado—gere empatia, ele cresce para se tornar um homem brutal, que aterroriza não só aqueles que o prejudicaram, mas também inocentes.
Ao longo do livro, Heathcliff se casa com Isabella Linton apenas para machucar Edgar, submetendo-a a abusos psicológicos e físicos. Também trata seu próprio filho, Linton, como uma peça de vingança, manipulando-o para casar com Cathy Linton apenas garantir sua herança. E persegue obsessivamente a memória de Cathy, recusando-se a seguir em frente mesmo décadas após sua morte.
A paixão de Heathcliff é avassaladora, mas não redentora. Ele não é um amante trágico no sentido clássico, mas sim um homem consumido por ressentimento e ódio, disposto a destruir tudo ao seu redor para aliviar sua dor.

As Adaptações que Reescreveram a História
Grande parte da idealização de O Morro dos Ventos Uivantes vem das adaptações cinematográficas, que frequentemente eliminam os aspectos mais sombrios da trama. O filme de 1939, com Laurence Olivier e Merle Oberon, por exemplo, corta toda a segunda geração de personagens e foca apenas na relação entre Cathy e Heathcliff, encerrando-se antes da espiral de vingança na qual a maldade de Heathcliff é indenfensável.
Outras versões suavizam Heathcliff, transformando-o em um amante sofredor, em vez do homem cruel que Emily Brontë concebeu. Ou mesmo ignoram a frieza e maldade de Cathy, manipuladora, vingativa e puramente cruel. Essa abordagem transforma a tragédia da história em um romance intenso, mas deturpa sua essência original.

O Lançamento no Dia dos Namorados: Ironia ou Estratégia?
O fato de a nova adaptação ser lançada no Dia de São Valentim de 2026 apenas reforça o quanto a percepção do livro se distanciou de sua realidade. Escolher essa data sugere que a história ainda é vista como uma das grandes narrativas românticas da literatura, quando, na verdade, deveria ser reconhecida por seu caráter sombrio e visceral.
Talvez o que fascina o público não seja o amor de Cathy e Heathcliff, mas sim sua intensidade destrutiva. Há algo de irresistível em histórias onde o amor se mistura com tragédia, onde a obsessão substitui o afeto e onde os personagens não encontram paz nem na vida, nem na morte.
Mas será que não é hora de parar de romantizar a dor?
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