O outro lado da história de Jane Austen

Como publicado na Bravo!

O ano de 2025 é um ano especial para os fãs de Jane Austen: em dezembro, completam 250 anos de seu nascimento. Portanto é para lembrar seus clássicos – em livros, filmes ou séries – e à vontade. Incluindo a série mais recente, que traz um olhar diferente sobre a autora a colocando de coadjuvante de outra Austen, sua irmã adorada, Cassandra.

Miss Austen, que estreou no Reino Unido em 2023, mas nos Estados Unidos em 2024, tem quatro episódios e é uma adaptação do romance de mesmo nome, escrito por Gill Hornby em 2021. Hornby se inspirou em um dos momentos mais misteriosos, marcante pouco explorado da biografia da escritora que foi o fato de Cassandra queimar quase todas as cartas pessoais da irmã, “para proteger seu legado”, segundo consta. O que estaria escrito que não poderia vir à público? Ninguém sabe. E Hornby inventa uma possibilidade bem romântica, claro.

A série, como o livro, começa em 1830, 13 anos depois da morte de Jane, e explora por que Cassandra Austen (Keeley Hawes), queimou a maioria das cartas pessoais da escritora, cerca de dois terços delas. Na verdade, Cassandra só tomou a decisão poucos anos antes de sua própria morte, em 1843, mas o mistério torna irresistível a especulação.

Especialistas, que apóiam a decisão de Cassandra, acreditam que o conteúdo muito pessoal e íntimo poderiam afetar a imagem de Jane Austen, endeusada por fãs ao redor do planeta. E não era necessariamente um medo infundado: é como se hoje fossemos descobrir pensamentos que pudesse levar Jane ao cancelamento. E Cassandra viu isso acontecer com outra escritora, justamente uma das que mais influenciou Jane: Frances Burney.

Frances, também conhecida como Fanny Burney e mais tarde Madame d’Arblay escreveu romances e peças teatrais, e ganhou grande destaque ainda em vida, mas, quando suas cartas e diários foram publicados após sua morte, sua reputação literária sofreu um senhor baque.

Até hoje, claro que em vez de olhar para a ficção, todos gostam de saber a verdade atrás da inspiração e com isso, os diários e cartas de Fanny eram cheios de detalhes que, segundo biógrafos, oferecem um retrato mais interessante e preciso da vida do século 18. O problema? Os diários ofuscaram as obras da escritora e seus livros pararam de ser reproduzidos enquanto biografias sobre ela se multiplicavam. Cassandra queria que a intimidade da tímida e reservada Jane fosse protegida.

Cassandra, que era apenas três anos mais velha que Jane, viveu até os 72 anos, 28 anos a mais que a irmã. Algumas de suas cartas, que sobreviveram sem o destino da fogueira, renderam algumas informações importantes, como a escritora confiou à Cassandra sua paixão por Tom Lefroy, uma história que rendeu o doce Becoming Jane, com Anne Hathaway e James McAvoy. Por isso tantos acreditam que poderia haver mais revelações nas cartas destruídas. Como ela amava escrever, estima-se que haveria milhares de cartas durante sua vida, mas apenas 160 sobreviveram. Hornby acredita que a razão era mais simplista: como estava falando com Cassandra, teria “menções indiscretas de parentes irritantes” e o fogo poupou constrangimentos familiares.

Diria que Cassandra, que Jane idolatrava e era absolutamente dedicada, é ainda maior mistério. Ela ficou conhecida como aquarelista amadora e “irmã mais velha de Jane Austen”, mas seria também inspiração?

Como mostram em Miss Austen e Becoming Jane, Cassandra teve uma história trágica. Ela era apaixonada por um eem 1794, um ex-aluno de seu pai, o reverendo George Austen, Thomas Fowle, e os dois ficaram noivos. Como precisava de dinheiro para se casar, Fowle aceitou passar um ano no Caribe com uma expedição militar, mas morreu de febre amarela antes de voltar. Cassandra herdou um dinheiro que a permitiu sobreviver com um pouco de independência financeira, mas, decidiu nunca se casar. Assim como Jane.

Há um paradoxo: se reclamamos das cartas queimadas, é graças à Cassandra que conhecemos o rosto de Jane Austen. Ela, que produziu uma série de ilustrações para o manuscrito da irmã, também é creditada por ter criado duas pinturas de Jane. Uma, em 1804, onde a escritora é vista sentada de costas perto de uma árvore. E, seis anos depois, um retrato frontal incompleto. Quem conheceu Jane criticou a obra como “terrivelmente diferente” da aparência real de Jane, mas é o que restou.

Jane Austen morreu aos 41 anos, em 1817, de uma rápida doença misteriosa. Cassandra sofreu um derrame em 1845, morrendo aos 72 anos, ou seja, há 180 anos.

Jane Austen deixou um legado literário imortal, mas seu lado mais íntimo foi preservado – ou apagado – por Cassandra. Teria sido um ato de proteção ou censura? Nunca saberemos ao certo. O que sabemos é que, sem Cassandra, talvez conhecêssemos menos de Jane, mas, paradoxalmente, também mais. No fim, a irmã devotada garantiu que a autora pertencesse ao mundo, mesmo ao decidir quais partes de sua história seriam contadas.


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