Halle Berry e o Oscar: Uma Vitória Solitária

Como publicado em CLAUDIA

Se tudo der certo, e se desenha para isso, Fernanda Torres não será apenas a primeira brasileira a ganhar o Oscar, mas a primeira atriz latino americana a chegar lá. Em quase 100 anos de premiação, não precisamos nem pensar duas vezes para ver que o histórico da Academia está longe, muito longe, do inclusivo. Mas hoje queria lembrar de outra realidade muito complexa da festa: a falta da representação feminina e negra nos prêmios mais importantes. Sim, precisamos falar disso sempre.

O Oscar carrega um histórico problemático: até hoje, apenas uma mulher negra venceu na categoria principal e isso há mais de duas décadas. Halle Berry foi reconhecida por sua atuação em A Última Ceia em2002, uma vitória que continua isolada e é um lembrete incômodo das barreiras estruturais que atrizes negras ainda enfrentam em Hollywood.

Quando Hattie McDaniel venceu o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante em 1940 por E o Vento Levou, ela não pôde nem se sentar com seus colegas de elenco na cerimônia, devido às leis segregacionistas da época. Sua vitória foi histórica, mas também limitadora: depois dela, Hollywood manteve atrizes negras confinadas a papéis estereotipados de empregadas ou figuras subalternas. E as indicações ao Oscar não eram frequentes. Tanto que Após McDaniel, passaram-se nove anos para que Ethel Waters fosse indicada (também como coadjuvante) e 15 para que Dorothy Dandridge fosse a primeira indicada na categoria principal.

As indicações, alternadas e sem chances claras de vitórias foram se acumulando e, efetivamente – entre 1939 e 1992 – foram nada menos do que 53 anos até que outra atriz negra vencesse um Oscar, novamente na categoria de coadjuvanteWhoopi Goldberg, por Ghost. O intervalo por si só já era absurdo, mas o padrão permanecia claro – papéis principais continuavam inalcançáveis para mulheres negras. Entre Whoopi e a vitória de Jeniffer Hudson em Dreamgirls? Outros 15 anos.

A conta é necessário, confie em mim. De 2006 em diante é que as atrizes negras passaram a “dominar” a categoria coadjuvante: Mo’Nique ganhou por Precious, no ano seguinte Octavia Spencer ganhou por Histórias Cruzadas (The Help), Lupita Nyong’o por 12 anos de Escravidão,e Viola Davis por Um Limite Entre Nós (Fences). No caso de Viola, é preciso reconhecer que ela era a protagonista, mas foi indicada como coadjuvante. Mais três atrizes ganharam na categoria até hoje, Regina King (Se a Rua Beale Falasse), Ariane DeBose (West Side Story) e Da’Vine Joy Randolph (Os Rejeitados (The Holdovers)). Sim, Zoe Saldaña vai se juntar à lista por Emilia Perez.

Vendo assim até parece que há maior equilíbrio, mas não há. Em quase 100 anos, apenas 14 atrizes foram indicadas como Melhor Atriz (Cynthia Erivo duas vezes) e por isso, quando ao aceitar seu Oscar, Halle Berry disse: “Este momento é muito maior do que eu” esperava-se que fosse a virada, mas ela nunca aconteceu.

A questão, no entanto, vai além da falta de troféus. O número reduzido de indicações já denuncia um problema anterior: a escassez de papéis de destaque para atrizes negras. Enquanto atrizes brancas têm oportunidades de interpretar personagens complexas em dramas prestigiados, atrizes negras são frequentemente limitadas a papéis que reforçam estereótipos ou que se enquadram na temática da dor e da superação racial, como se suas histórias fossem válidas apenas dentro desse recorte.

Outro fator que agrava essa desigualdade é a composição da Academia. Embora nos últimos anos tenha havido esforços para diversificar seus membros, a instituição ainda é predominantemente branca e masculina, o que impacta diretamente as escolhas dos indicados e vencedores. Sem mudanças estruturais mais profundas, o Oscar continuará sendo um reflexo de uma indústria que privilegia certas narrativas e certos perfis de artistas.

A história do cinema está repleta de atuações brilhantes de mulheres negras que foram completamente ignoradas pelo Oscar. Angela Bassett não ganhou por TinaAlfre Woodard não foi indicada por ClemencyLupita Nyong’o, mesmo aclamada e vencedora em 12 anos de Escravidão, foi ignorada por seu trabalho em Nós. Recentemente, a polêmica em torno da não indicação de Danielle Deadwyler e Viola Davis em 2023 reacendeu a discussão sobre como a indústria ainda resiste a reconhecer essas performances, assim como em 2025, ter apenas Cynthia Erivo entre as finalistas.  

Para não deixar de lado, vale mencionar que entre os atores negros, mesmo longe do ideal, há significativamente mais indicações e vitórias. Há uma pegadinha. As mulheres são mais indicadas como coadjuvantes (28 atrizes até 2025) com 10 vitórias enquanto 20 atores negros indicados e 7 venceram, como Louis Gosset Jr., Morgan Freeman, Denzel Washington, Cuba Gooding Jr. Daniel Kaluuya e Mahershala Ali, que ganhou duas vezes na categoria. Porém entre os Melhores Atores, desde que Sidney Poitier fez história em 1958 com a primeira indicação do Oscar para um ator negro, seguido de sua vitória em 1964, outros quatro atores homens ganharam como Melhor Ator: Denzel Washington, Jamie Foxx, Forest Whitaker e Will Smith. É pouco, mas é mais do que apenas uma atriz apenas, né? No total, 16 atores negros foram indicados ao longo dos anos (e apenas 13 atrizes). Aqui há muito o que avaliar.

Para que essa realidade mude, não basta apenas diversificar a Academia; é preciso que Hollywood repense suas práticas, ampliando os tipos de histórias contadas e garantindo que atrizes negras tenham espaço não apenas para serem indicadas, mas também para vencerem. Enquanto essa mudança não acontece, a pergunta permanece: quantos anos mais até que outra mulher negra suba ao palco para receber o Oscar de Melhor Atriz? Seria a chance para Cynthia Erivo, mas no dia 2 de março quero outra história. E essa, desculpem, é a da vitória de Fernanda Torres.


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