Quando algumas pessoas, como eu, passam mais tempo tentando decifrar o MacGuffin de The White Lotus, que é o assassinato que abre cada temporada, Mike White vem e nos relembra de sua aguçada habilidade de retratar o mundo como ele é através de personagens de cara insossa, até distantes, mas tão reais ao redor do mundo.
Na 1ª temporada a acidez e irritante esnobismo milenial de Olivia (Sydney Sweeney) e Paula (Brittany O’Grady) nos alucinaram; na 2ª, a proposital alienação de Daphne Sullivan (Meghann Fahy) que se fingia de tonta, deixando a ligadíssima Harper Spiller (Audrey Plaza) de mau humor. Agora, o trio das loiras ricas, Kate Bohr (Leslie Bibb), Laurie Duffy (Carrie Coon), e Jaclyn Lemon (Michele Monaghan), as três “amigas de longo tempo” – jamais digam “velhas” amigas – que têm sido pauta de conversa desde que colocaram política na mesa.



Sim, eu sei que todos torcem que o nojento Saxon Ratliff (Patrick Schwarzenegger) seja o corpo boiando no lago, mas hoje é sobre as mulheres. Como alguns já definiram, as “Sex and the City representantes da realidade”, ou, ainda mais preciso: as musas do MAGA (o termo americano conservador que é o mantra de Donald Trump: make America great again).
Três loiras ricas, de fachada amigável mas internamente complexas não seriam necessariamente a âncora internacional da temporada, mas, quem não esteve com amigos ou parentes fingindo estar tudo bem até que eleições ou pontos de vistas religiosos venham à tona? A sequência na qual Laurie e Jaclyn “descobrem” que Laurie agora é religiosa e eleitora do Trump entrou já para uma das melhores da franquia. Até nós nos engasgamos em casa assistindo.

“Vamos mesmo falar sobre Trump hoje à noite?”, Laurie cortou com uma suavidade violenta as críticas das “amigas”, veladamente traçando o limite do que aceitaria ouvir das duas. É só trocar Trump por “você sabe quem” ou “aquele que não deve ser nomeado” e estaremos representados na Tailândia. Até aqui, o nome do atual presidente americano era tabu em The White Lotus, mesmo que boa parte dos hóspedes da rede hoteleira fictícia fossem seus eleitores.
Por isso, em um episódio da semana passada no qual parecia que muito pouco aconteceu (eu pelo menos estou vidrada na derrocada de Greg/Gary (Jon Gries), mas também fiquei lembrando do trio), mesmo que a personagem mais popular da hora, Chelsea (Aimee Lou Wood) tenha pela segunda vez esbarrado com a quase morte, ou que Timothy Ratliff (Jason Isaacs) esteja ciente que sua vida acabou e que será preso, o fato de que a realidade do MAGA tenha entrado nominalmente no circuito foi a maior mudança da série até o momento.

Se voltarmos ao mistério de “quem morrerá” e “quem vai matar” que abre cada temporada, não colocaria Kate, Jaclyn ou Laurie no topo da lista, mas e se elas surtam e saem atirando pelo hotel depois de se confrontarem por todas as fofocas que estão fazendo pelas costas uma da outra?
A tensão das três representantes da elite americana é inegável e a cara de viagens escapistas onde virtualmente três estranhas com intimidade tentam navegar em terreno incerto. Paula e Olivia eram amigas, mas Paula se sentia exibida como bicho de estimação da “woke” (outro termo importante que é a hipocrisia dos liberais radicais) Olivia. Daphne seria super amiga de Kate na fé cega de manter as aparências de tudo ser mágico e bonito, super ciente de tudo ao redor, mas se fazendo de tonta, enquanto Harper estaria à vontade com Laurie (não sei se alguém se identificaria com Jaclyn, a “famosa” que não tem um papel no mundo corporativo). Aproveito para resgatar Nicole Mossbacher (Connie Britton), a empreendedora milionária e mãe de Olivia que estaria igualmente ao lado de Harper e Laurie nesse time de hóspedes do White Lotus.


Todas elas, menos Paula, são as pessoas brancas ricas que usam como privilégio excluir pessoas ou problemas numa temporada em um lugar exótico que só desperta o pior nelas. E a genialidade de Mike White é apresentá-las, desenvolvê-las e explorá-las de forma coloquial, quase inexpressiva, para realçar todos os conflitos e problemas da sociedade mundial no século 21. É brutal, empático, satírico e realista ao mesmo tempo.
A bomba relógio das três amigas está particularmente tenso porque elas são mulheres de 50 anos, não jovens como Paula e Olivia; meras acompanhantes como Harper e Daphne, que estavam na Itália apenas porque os maridos eram amigos e queriam se reencontrar; ou mesmo Nicole, que tem a idade delas, mas estava viajando com o marido e filhos. Laurie, Jaclyn e Kate estão sozinhas para um tempo entre “as meninas” e isso tá com toda a cara de que não terá final feliz.

A carreira de Jaclyn não é mencionada, mas ela é “atriz de TV” casada com um homem muito mais novo, o que implica que sua fachada não é muito efetiva. Ela vive encorajando Laurie, a única amiga oficialmente solteira depois de um divórcio doloroso, a ter um caso com o funcionário russo do hotel Valentin (Arnas Fedaravičius), numa insistência obvia que se pudesse estaria fazendo isso ou mais. A advogada, que prefere um copo, tem recusado engajar e se irrita com a insistência da pauta.
Mas mesmo diferentes, Laurie e Jaclyn estão na mesma vibração. É com Kate, agora abertamente conservadora em tudo, que está o desalinho, mas também é ela quem determina como as três se relacionam. Quem é a verdadeira abelha rainha ali? Lembrando Garotas Más, Jaclyn é oficialmente a Regina George das três, mas é Kate que está à beira de um colapso de ser coadjuvante. Ela gosta de lembrar que é mais rica ou pelo menos tanto o quanto a amiga famosa, que ela tem moral e comprometimento social, como se as amigas nem tanto. Isso realmente não vai dar certo…
E quem tem particularmente brilhado entre elas é Leslie Bibb, numa atuação tão forte que já começa o bochicho de Emmy. Seu tom de voz que não esconde os sentimentos, o sorriso que é uma facada e a altivez ao ser massacrada pelas amigas é um show de perfeição. Vi algumas Kates representadas ali em um piscar de olhos.

Segundo Michele Monaghan, o showrunner escreveu as três amigas para mostrar pessoas cuja positividade tóxica é uma fachada mais identificável do que seus atributos físicos, no caso, mulheres ricas e loiras. Para a atriz, o que o público está apreciando é justamente como White conseguiu traduzir o que está em todas as culturas: o condicionamento feminino de comparar e julgar uma à outra, questionar escolhas e usar como base para comparação fracassos ou sucessos de outras mulheres. “Existe uma maneira especificamente feminizada de lavar os impulsos mais cruéis por meio da linguagem mais gentil”, ela disse no podcast da série.
Michele também ri que o público esteja na relação de amor e ódio com as amigas, tentando descobrir se se parece com uma ou outra. E há algo mais profundo também na tentativa de reencontro delas: ao longo da vida, seus amigos de infância são mesmo seus melhores amigos porque te conheceram “antes da vida acontecer” ou são lembranças de quem você ainda gostaria de ser e não é mais?

Quando Kate, Jaclyn e Laurie entram no papo nostalgia, nem tudo está alinhado: o que para uma é uma memória divertida para a outra foi esquecida e a terceira tem vergonha. Percebem como não há resgate do que já foi?
O que as une no momento é o que evitam falar: suas vidas estão vazias. Laurie porque está com a autoestima abalada com o divórcio; Jaclyn porque está em um relacionamento de fachada e ansia por algo carnal e inconsequente; e Kate porque tem matéria e conforto, mas não tem uma vida fascinante como as amigas. Elas sabem disso tanto quanto nós sabemos delas. Mas, a três episódios do final há ainda mais para vir à tona. Antes que um corpo fique boiando no lago…
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