A heroína mais triste de Jane Austen

Ler Jane Austen é um escapismo onde o final feliz é garantido. Será mesmo? No ano em que celebramos 250 anos do nascimento da escritora, me proponho a embarcar em uma discussão conhecida entre os fãs de sua obra: qual seria a sua heroína mais triste?

Não é uma resposta fácil ou clara. Em geral, os dedos se voltarão para Anne Elliot, a protagonista de Persuasão, justamente porque, ao longo do livro, ela, uma mulher de 27 anos, é considerada velha e sem perspectivas de casamento, lidando com um profundo arrependimento ao refletir sobre as consequências de sua decisão de ter rompido seu noivado com o Capitão Frederick Wentworth. Embora seu eventual reencontro com Wentworth ofereça uma pitada de esperança, é inerentemente agridoce, destacando tanto a natureza duradoura do amor quanto a dor das oportunidades perdidas. Ainda assim, minha escolhida é outra, já aviso.

“Quanto mais conheço o mundo, mais me convenço de que nunca verei um homem a quem possa realmente amar.”
Marianne Dashwood em “Razão e Sensibilidade”

Voltemos a todas as “candidatas”, pois há outras que incorporam uma série de lutas e desafios, demonstrando profunda tristeza. Antes de voltar à Anne, me ocorreu outra heroína frequentemente considerada a mais melancólica de Austen: Fanny Price, de Mansfield Park. Crescendo em uma família que frequentemente a maltrata, Fanny luta contra a dúvida e um profundo sentimento de não pertencimento. Seu amor não correspondido por Edmund Bertram, que inicialmente não reconhece seu valor, amplifica ainda mais sua tristeza, principalmente à medida que ela navega pelas complexidades da dinâmica da família Bertram. Sem dúvida, se ampliarmos o conceito de tristeza para algo além de ter um marido, Fanny, como heroína pobre, ganha liderança, mas não é a minha eleita.

Estranhamente, há quem coloque a mimada Emma Woodhouse de Emma no páreo, embora muitas vezes seja vista como confiante e segura de si. Nas entrelinhas, Austen revela tristeza por meio de suas tentativas equivocadas de formar casais e de controlar o destino que a fez órfã de mãe e dependente emocionalmente de um pai constantemente em luto. Os esforços de Emma geram mal-entendidos significativos e turbulência emocional para ela e para os outros. A eventual percepção de Emma sobre suas deficiências, combinada com seu desalinhamento inicial no amor e na amizade, empresta uma qualidade agridoce ao arco de sua personagem.

Finalmente, chegamos a uma figura pungente, ninguém menos do que Marianne Dashwood, de Razão e Sensibilidade. Marianne é caracterizada por suas emoções intensas e natureza apaixonada, mas seu amor por John Willoughby, um homem encantador que a seduz com promessas implícitas de amor eterno, mas que a abandona por uma união financeiramente vantajosa, é de partir o coração do mais cínico. Esse rompimento a leva a um estado de desespero quase destrutivo, agravado pelo fato de que, ao contrário de sua irmã Elinor, Marianne não sabe (e não quer) conter suas emoções. Seu luto é físico e emocional, a ponto de adoecer gravemente, flertando com a morte antes de, enfim, recuperar-se. A “evolução” de Marianne (mais sobre isso à frente) reflete as restrições sociais de sua época e é uma jornada do idealismo juvenil para uma compreensão mais moderada do amor, ressoando com temas de perda e crescimento. Sim, ela se casa, mas foi mesmo feliz? Para mim, Marianne é a personagem mais complexa e triste do universo de Jane Austen.

O amor não é amor que se altera quando a alteração encontra, ou se curva com o removedor para remover. Oh, não! É uma marca sempre fixa que olha para as tempestades e nunca é abalada
William Shakespeare

Marianne Dashwood é uma personagem central em Razão e Sensibilidade, sendo inicialmente a “sensibilidade” do título, enquanto sua irmã Elinor é a “razão”. Espirituosa, Marianne incorpora o idealismo romântico do início do século 19, que a leva a abraçar a vida com fervor e intensidade, ao contrário das heroínas mais tímidas de Austen. Marianne não tem medo de mostrar seus sentimentos, seja no amor ou no desespero, o que a torna identificável e profundamente humana.

O que também diferencia Marianne no mundo de Austen é sua profunda crença no poder do amor e seu desdém pelas convenções sociais que ditam propriedade e contenção, exemplificada pela paixão impulsiva por Willoughby, que depois a força a lidar com as consequências de idealizar o amor em uma sociedade que valoriza a razão e a moralidade.

Na época, a trajetória de Marianne foi pensada como um exemplo de crescimento e transformação, à medida que ela aprende a reconciliar seus impulsos emocionais com a necessidade de considerações práticas. Mas ver Marianne evoluir de uma jovem impetuosa para alguém que valoriza as virtudes do equilíbrio e da razão também pode ser visto como o retrato de uma alma massacrada pela sociedade. Sua eventual aceitação do amor mais firme do Coronel Brandon é descrita como um reflexo de amadurecimento, onde passa a valorizar a constância e segurança em vez de um amor carnal e passional.

O curioso é que a dualidade entre emoção e racionalidade é um tema recorrente nas obras de Austen, mas, em geral, as protagonistas são a personificação da razão e da contenção, deixando os contrapontos como as personagens mais cinzentas (e até antagonistas). Não é o caso de Marianne, uma das heroínas que Jane Austen nos faz amar.

“Não é o tempo ou a oportunidade que determinam a intimidade; é apenas a disposição. Sete anos seriam insuficientes para fazer algumas pessoas se conhecerem, e sete dias são mais do que suficientes para outras.”

Marianne Dashwood em “Razão e Sensibilidade”

Nos dias de hoje, certamente podemos argumentar que a personagem de Marianne Dashwood ressoa com muitos temas relevantes para a cultura atual, particularmente aqueles personificados pelos Millennials, pois ela reflete a ênfase na autenticidade e na expressão emocional. Em uma época em que muitos defendem a conscientização sobre saúde mental e a importância de ser fiel aos próprios sentimentos, as lutas de Marianne e sua jornada final em direção à autoaceitação ecoam esses sentimentos.

Outra característica “millenial” de Marianne é seu narcisismo inegável, que a cega para perceber o sofrimento silencioso de Elinor e a acusá-la de insensível e resignada de não lutar poe Edward Ferrars enquanto não sabe, ou busca saber, as reais circunstâncias da tristeza constante da irmã.

Ainda assim, Marianne também ilustra uma tensão significativa entre desejos individuais e expectativas sociais. A “punição” por seu excesso emocional pode ser vista como um comentário sobre as consequências de viver apenas pelos próprios sentimentos em um mundo que exige um certo nível de contenção e praticidade. Em discussões contemporâneas, pode-se argumentar que os Millennials frequentemente enfrentam dilemas semelhantes: o desejo de viver autenticamente versus as realidades das pressões sociais, responsabilidades e limitações pessoais.

Portanto, a mensagem final de Razão e Sensibilidade pode ser avassaladora: do idealismo apaixonado para uma aceitação mais moderada de um destino e alegria em uma vida menos alinhada com seus sonhos iniciais, não é necessariamente “um final feliz”. Por isso, ainda hoje, Marianne Dashwood se destaca como uma figura cujas lutas e eventual adaptação podem ressoar com o público moderno, particularmente aqueles que valorizam a honestidade emocional enquanto também enfrentam os desafios das expectativas sociais e do crescimento pessoal.

O que é positivo diante do sofrimento intenso de Marianne é que ela é cercada pelo amor de sua família, incondicionalmente. Seu casamento com o Coronel Brandon pode ser interpretado como um compromisso resignado, mas, como isso era valorizado na época de Jane Austen, o próprio texto sugere que ela abraçou uma segunda chance de felicidade e foi vitoriosa. Só que fica implícito algo mais sombrio nessa “vitória”: Marianne se casa com ele porque precisa seguir em frente, porque sua crença em um amor arrebatador foi destruída, e porque a sociedade não lhe dá muitas outras opções. Para uma jovem sem fortuna própria, permanecer solteira seria uma perspectiva limitada e possivelmente solitária. Assim, seu casamento pode ser visto como um último golpe na destruição de suas ilusões juvenis.

“Marianne nunca poderia amar pela metade; e todo o seu coração tornou-se, com o tempo, tão devotado ao marido, quanto fora outrora a Willoughly”

Jane Austen “Razão e Sensibilidade”

Quando comparada a Anne Elliot, Marianne é uma personagem trágica no momento, mas não na essência. Anne vive uma tristeza silenciosa e constante ao longo de anos, sem qualquer certeza de que algo mudará. Já Marianne se vê esmagada pela dor, mas, por ser tão jovem e tão cheia de vida, tem o luxo de um recomeço. Seu sofrimento é visível, desesperado e quase teatral, enquanto o de Anne é melancólico, resignado e muito mais prolongado. Se Marianne representa a dor avassaladora de uma juventude ferida, Anne encarna a tristeza persistente da oportunidade perdida. A diferença está na conclusão das histórias.

Nenhuma outra heroína de Jane Austen teve que fazer o sacrifício de Marianne Dashwood. Anne, apesar de ter perdido anos de felicidade, mantém sua essência e seus sentimentos intactos e se une a Wentworth. Ela ainda é capaz de amar da mesma maneira. Já Marianne, ao que tudo indica, se transforma completamente. Ela aprende a ser “sensata”, mas perde parte do fogo que a tornava quem era.

Isso faz de Marianne a personagem mais triste de Jane Austen? Possivelmente, se considerarmos não apenas a dor que ela sente, mas o fato de que ela precisa renunciar a si mesma para sobreviver. E a pergunta que fica é: Marianne está realmente feliz ao final da história, ou apenas conformada? Duvido que sua leitura seja a mesma nos dias de hoje…



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