Embora muitos discutam se foi Agatha Christie mesmo a maior e a inventora do “WhoDunIt” (quem matou), segundo consta, o termo veio antes dela começar a publicar seus livros, criado pelo crítico Donald Gordon em 1930, na sua avaliação do romance policial Half-Mast Murder escrito por Milward Kennedy.
O gênero é na verdade um quebra-cabeça policial, onde a diversão é tentar descobrir quem cometeu o crime juntando as pistas do caso e decifrando alguns segredos. A investigação é geralmente conduzida por um detetive excêntrico, amador ou semiprofissional, mas há variações.

Há muitos exemplos recentes de novos títulos que exploram o gênero, sendo os mais famosos a série Only Murders in The Building e Entre Facas e Segredos (Knives Out), e eu sou muito fã. Infelizmente, sofri para conseguir chegar até o fim de Assassinato na Casa Branca (The Residence), a última produção de Shonda Rhimes para Netflix com atores maravilhosos no elenco. Por que?
Antes, vamos falar da série. Criada por Paul William Davies e inspirada no livro de Kate Andersen Brower, The Residence: Inside the Private World of the White House, a história se passa na casa mais poderosa dos Estados Unidos, a residência do Presidente e onde – ó Deus! – um assassinato ocorre durante um jantar oficial para o governo australiano. O assassino está certamente entre funcionários, residentes ou convidados e o mistério tem que ser solucionado em poucas horas, antes que o fato fique conhecido pela imprensa.

A grade dualidade da história é meio como se fala da Firma na Família Real: os funcionários da Casa Branca são responsáveis pelo imóvel – meio museu, meio escritório e a casa de quem esteja na presidência no momento – portanto há uma dinámica complexa de quem pode fazer o que e quem cuida de tudo. Aí já teria material suficiente para muita coisa, mas, com o crime, vira um quebra-cabeça bem difícil de manter o interesse.
O morto é o antipático chefe da Casa Branca, Usher A.B. Wynter (Giancarlo Esposito, escalado para o papel depois que o ator que já estava filmando, Andre Braugher, faleceu antes de terminar o trabalho) e a narrativa é em flashback, porque claro, o Congresso questiona tudo que aconteceu naquela noite. A detetive aficcionada por pássaros, Cordelia Cupp (Uzo Aduba, sempre maravilhosa), é quem usa de seus métodos inotordoxos para decifrar o crime, auxiliada pelo Agente Especial do FBI Edwin Park (Randall Park também maravilhoso).
Com ótimos diálogos e grandes atuações Assassinato na Casa Branca (The Residence), tem um problema essencial: não é interessante. Certamente a vítima é, assim como os dois detetives, mas os suspeitos são todos insossos que isso dificulta muito sequer gastar tempo tentando adivinhar quem matou.
Mesmo em um cenário tão árido, Uzo Aduba brilha. Ela é expert em acrescentar camadas em personagens facilmente unidimensionais, como esquecer Crazy-Eyes de Orange Is The New Black? Cordelia tem métodos particulares de conduzir a investigação que são sensacionais, desde jamais dizer que há suspeitos, ouvir todas as versões atentamente sem trocar uma palavra e nos fazer sensibilizar com sua vocação de detetive, nascida de um trauma pessoal que a faz ser uma pessoa de aparência fria, mas internamente de completa empatia. Sou fã, admito, mas ela dá show. E Randall Park é o perfeito parceiro dela nessas circunstâncias, se não fossem os dois, daria para pular a série completamente.

Toda história teria sido bem resolvida em quatro episódios, ter oito mostra onde está a falha do roteiro. Ainda assim, há quem aposte que a Netflix vai encomendar uma nova temporada, justamente pela dinâmica aprovada entre Aduba e Park. O criador, Paul William Davies (showrunner de Scandal) disse já ter ter ideias para reunir Cordelia Cupp e Edwin Park novamente. Será que numa segunda acerta?
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