Will Smith e a Verdade por Trás de ‘Based on a True Story’

Com o lançamento de seu novo álbum, Based on a True Story, fiquei surpresa ao perceber que se passaram apenas três anos desde que vimos, ao vivo, uma das maiores lendas de Hollywood destruir sua carreira. Isso mesmo, naquela noite de março de 2022, Will Smith entrou para a História do cinema como protagonista de uma das cenas mais bizarras, inesperadas, constrangedoras e tristes que alguém poderia imaginar. Um tapa, muitos xingamentos, várias lágrimas e um astro completamente destruído diante de bilhões de pessoas ao redor do mundo.

Como um ator e cantor adorado nos quatro cantos do planeta, uma lenda em uma indústria tão árida como a do entretenimento, como ele conseguiu colocar tudo a perder tão rapidamente, justamente na noite em que foi coroado um dos maiores astros negros de todos os tempos com sua vitória como Melhor Ator no Oscar? Seu descontrole emocional ao subir no palco e dar um tapa na cara do apresentador Chris Rock se tornou uma das imagens mais icônicas e inesquecíveis do século 21. Algo que nenhum dos dois, mesmo com o ódio mútuo, gostaria de carregar.

O que todos esperavam era um pedido de desculpas sincero, que jamais aconteceu. Smith, barrado do Oscar por 10 anos, ficou com a estatueta, o casamento tóxico com Jada Pinkett-Smith e o fardo de lidar com as consequências imediatas de um gesto impensado. Houve um comunicado com um meio pedido de desculpas, mas claramente Will Smith faria tudo diferente, embora ainda não se arrependa. Ele está emocionalmente envolvido, e aqui está o drama moderno: a internet não perdoa.

Se Smith quer perdão e esquecimento, infelizmente não vivemos no universo de um de seus personagens mais icônicos, o Agente J da franquia Homens de Preto, que apagava a memória de qualquer um com um simples gesto. Não funciona assim.

Não sei para os outros fãs, mas aquela noite de 2022 partiu meu coração em pedaços que nem a esperança de Will Smith, de que o mundo, como ele e Meghan Markle, possam comparar tudo à técnica japonesa de kintsugi — na qual se juntam os cacos de uma peça de cerâmica quebrada com pó de ouro, deixando as fraturas evidentes, em vez de disfarçadas — poderia remendar. É fácil entender que essa metáfora seja uma esperança para eles, mas o ditado popular “apenas o tempo cura as feridas” é imbatível. E o tempo real, não o tempo digital. A espera é uma tortura.

Para Smith, essa jornada é conflituosa, pois, um ano antes, todos os meios de comunicação já expressavam preocupações com sua saúde mental, agravadas por seu casamento “aberto” com Jada, onde o processo terapêutico dela de honestidade brutal e pública expôs ainda mais o astro, antes conhecido por ser brincalhão, talentoso e leve.

Jada compartilhou verdades íntimas do casal, revelando fatos que ninguém queria saber. Desde questioná-lo sobre que mulheres ele gostaria de ter em seu “harém”, até admitir um breve caso com o rapper August Alsina (amigo do filho de Will e Jada), falar sobre os abusos que Will sofreu em sua família, as brigas violentas com o pai, e até revelar que o ator nem sempre sabia satisfazê-la sexualmente. Ela também revelou que Will tinha ciúmes dela com Tupac Shakur e, em sua crise de meia-idade, experimentou com ayahuasca. Quando Will comentou que havia contemplado o suicídio, nós quase o acompanhamos. Para que saber disso tudo sobre ele, ainda mais quando ele ostensivamente seguia sorridente e feliz nos tapetes vermelhos?

Mas quem sabia disso tudo gelou quando ele subiu no palco e se aproximou de Chris Rock após o comediante fazer uma piada sem graça sobre Jada. O mais inesperado foi que, ao invés de conquistar a simpatia dos fãs, com um único tapa, Will Smith perdeu tudo. Só ficou com Jada.

A relação dos dois, apesar de toda a transparência dispensável, não nos diz respeito. Qualquer leigo percebe que não é saudável, e a tragédia já estava anunciada. Ao dar o tapa, Will Smith cometeu o suicídio público, pois retornar dessa ação é virtualmente impossível.

É óbvio que é complexo para o ator “reconhecer o erro” quando ele ainda encontra justificativas para o que fez. Existe uma lógica para o que ele fez, ninguém nega, mas, além de insuficiente, ela não o isenta de culpa. Usar cenas de Bad Boys, fazendo piadas com tapas, ou agora fazer raps onde afirma ser “apenas humano” e “odiar quando perde o controle” é, ainda, uma forma de negar a raiz do problema e insistir em sua versão emocional da verdade.

Há apenas quatro anos, Will Smith era o único ator negro da História a quebrar recordes com oito filmes consecutivos, arrecadando mais de 100 milhões de dólares nas bilheteiras. Ele queria o Oscar e, em 2022, “chegou a sua vez”. Agora, com 56 anos, ele ainda tem fãs, mas é na música que encontra espaço para ser quem gostaria que continuassem pensando que ele é. Based on a True Story é seu primeiro álbum inédito em 20 anos. Pena que de “verdadeiro”, haja pouco. Resta saber se a nostalgia será suficiente para seu retorno.




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