Nenhuma mulher pode negar a precisão da visão e do texto de Mike White sobre vários tipos de mulheres e como elas se relacionam com homens e, sobretudo, entre elas mesmas. E nessa terceira, vale obviamente discutir um dos grandes sucessos: as três amigas de infância que se reencontram em uma viagem para Tailândia para matar saudades e curtirem o tempo sozinhas.
Em contraste à Olivia e Paula, na primeira temporada, e Harper e Daphne, o que torna a amizade entre Laurie, Kate e Jaclyn tão fascinante em The White Lotus é o modo como suas personalidades complexas e suas jornadas individuais se entrelaçam, realçando as várias camadas da psique feminina contemporânea. Cada uma delas, com seus medos, inseguranças e contradições, busca se afirmar e se encaixar, mas, ao mesmo tempo, se vê em constante conflito com a necessidade de se manter fiel a si mesma. A amizade delas, que à primeira vista pode parecer uma reconexão sincera e alegre, logo revela tensões ocultas.

O que torna essas três personagens tão intrigantes é o fato de suas relações não serem baseadas em uma conexão genuína e profunda, mas sim em uma busca constante por algo que elas não sabem ao certo o que é. A amizade delas, embora intensa em alguns momentos, está sempre permeada por um jogo de máscaras, onde cada uma tenta se encaixar nas expectativas da outra, sem conseguir se libertar totalmente das próprias inseguranças. Laurie expõe as falhas do sistema com sua honestidade brutal, enquanto Kate tenta manter o controle sobre sua imagem e Jaclyn tenta sustentar uma vida perfeita que, no fundo, a sufoca.
Cada amiga representa um arquétipo
Laurie, interpretada por Carrie Coon, que ainda em 2025 estará em The Gilded Age, emerge como uma das personagens mais fascinantes e ambíguas da temporada. Psicologicamente, Laurie é a representação da mulher que está em uma fase de transição em sua vida, lidando com o envelhecimento, com o desgaste das suas expectativas de juventude e com uma profunda insatisfação com a sua identidade. Ela parece estar em busca de algo que a preencha, seja isso a validação dos outros, o prazer momentâneo ou, mais visceralmente, a tentativa de resgatar um poder sobre sua própria narrativa, que parece ter se perdido ao longo dos anos. Sua autenticidade, por vezes brutal, é uma maneira de mascarar suas inseguranças mais profundas.
O monólogo final de Laurie, onde ela expõe sua vulnerabilidade e frustrações, é um grito de autolibertação e, ao mesmo tempo, de resignação. Ela percebe que, apesar das suas tentativas, a sociedade não a enxerga mais da mesma maneira, e ela não consegue mais se encaixar nos moldes que havia tentado seguir. É tão impactante e importante como o monólogo de America Ferrera em Barbie, com a necessidade de que fique guardado para a História da TV assim como o do filme.

A psique de Laurie pode ser analisada através da lente de uma pessoa que vive uma constante luta interna entre o desejo de se encaixar nos padrões sociais e a necessidade de se libertar das expectativas impostas. Sua busca incessante por prazer e reconhecimento é uma tentativa de preencher o vazio deixado por sua própria insatisfação existencial. Sua interação com as outras amigas revela a maneira como ela se vê no espelho da sociedade: uma mulher envelhecendo, sem o controle total sobre sua narrativa, e tentando desesperadamente encontrar uma forma de reconexão com um mundo que já não a vê como antes.
“Eu simplesmente sinto que minhas expectativas eram muito altas ou simplesmente sinto que, conforme você envelhece, você tem que justificar sua vida e suas escolhas. E quando estou com vocês, é tão transparente quais foram minhas escolhas e meus erros.
Eu não tenho um sistema de crenças. Bem, quero dizer, eu tive muitas delas. Quer dizer, o trabalho foi minha religião para sempre, mas eu definitivamente perdi minha crença lá. E então eu tentei o amor e isso foi apenas uma religião dolorosa que só piorou tudo. E então, mesmo para mim, assim como ser mãe, isso também não me salvou. Mas eu tive essa epifania hoje: eu não preciso de religião ou Deus para dar sentido à minha vida, porque o tempo dá sentido a ela.
Nós começamos essa vida juntas. Quer dizer, estamos passando por isso separadas, mas ainda estamos juntas. E eu olho para vocês e parece significativo e eu não consigo explicar, mas mesmo quando estamos apenas sentadas ao redor da piscina falando sobre qualquer coisa e merda de nome, ainda parece muito profundo. Estou feliz que você tenha um rosto bonito e estou feliz que você tenha uma vida bonita. Estou feliz apenas por estar na mesa.”
Kate, interpretada por Leslie Bibb, traz para a trama a figura da mulher que, ao contrário de Laurie, tenta controlar a sua imagem e manter uma fachada de estabilidade. A personagem de Kate está imersa nas expectativas do que é socialmente aceitável: uma mulher politicamente conservadora, casada, religiosa e, em certa medida, conformada com os papéis tradicionais que a sociedade espera dela. No entanto, como boa parte da sociedade, ela carrega também o fardo da dissonância entre o que parece ser e o que sente. Em diversos momentos, Kate se vê confrontada com questões sobre suas próprias crenças, valores e a pressão de ser vista de maneira “adequada”. Psicologicamente, ela é uma personagem que tenta se encaixar, mas que é constantemente desafiada por suas próprias contradições internas.

Sua postura política conservadora, que se torna um ponto de atrito nas interações com as amigas, reflete um desejo de se manter enraizada em certezas, talvez como uma defesa contra o caos interno que ela não consegue controlar. A forma como Kate lida com as tensões em seu círculo de amizades é uma manifestação de sua dificuldade em lidar com as complexidades da própria identidade e da própria autonomia.
Ao se posicionar sobre assuntos como política, religião e moralidade, ela tenta reafirmar seu espaço no grupo, buscando segurança em um mundo que, ao mesmo tempo, parece rejeitá-la. Sua amizade com Laurie, especialmente, se torna uma espécie de espelho que a confronta com a fragilidade de sua própria construção identitária.
Jaclyn, interpretada por Michele Monaghan, representa a mulher que tenta se manter firme em uma vida de aparências, mas que também está ciente de suas próprias fragilidades e falhas. Sua psique revela uma pessoa que se esforça para manter uma imagem idealizada, não só para os outros, mas também para si mesma. Em sua relação com Laurie e Kate, Jaclyn parece querer manter um controle, talvez uma necessidade de ser aceita dentro de um padrão que ela considera ser o único válido. Sua relação com os outros é permeada por momentos de busca por validação e, ao mesmo tempo, uma tentativa de escapar de suas próprias insatisfações.
Sua interação com Laurie, ao incentivar a amizade dela com Valentin, revela que Jaclyn está projetando seus próprios desejos não realizados e suas frustrações sobre as outras. Ela tenta preencher um vazio que é inevitavelmente seu, mas que é disfarçado por uma fachada de “vida perfeita”. Essa dinâmica com Laurie, em especial, revela o quanto ela também está à procura de algo, mesmo que, em muitos momentos, ela se recuse a admitir isso para si mesma.


A dinâmica entre Laurie, Kate e Jaclyn é um jogo de máscaras e necessidades não ditas. Cada uma delas está lidando com suas próprias inseguranças e tentando encontrar seu lugar no mundo, mas sem a disposição de confrontar profundamente o que realmente desejam. Apesar de aparentarem estar unidas, cada uma está, na verdade, em uma busca solitária por algo mais profundo, algo que talvez nem elas mesmas saibam o que seja.
Em termos psicoanalíticos, a relação entre essas personagens reflete a luta constante entre o desejo de aceitação externa e a busca por autenticidade interna. Elas tentam se adaptar aos papéis que a sociedade lhe impõe, mas isso vem com um custo emocional significativo. As tensões entre essas três mulheres não são apenas questões de rivalidade ou desentendimentos superficiais, mas sim um reflexo de suas próprias lutas internas para encontrar um equilíbrio entre o que são e o que o mundo espera delas.

Por fim, a conclusão do arco das três amigas pode ser vista como uma metáfora para as complexas relações entre mulheres na sociedade contemporânea. Elas estão sempre em um processo de adaptação, de busca por pertencimento e aceitação, mas ao mesmo tempo, cada uma delas carrega o peso de suas próprias contradições internas. A amizade entre elas, marcada por momentos de afeto, mas também de frustração e incompreensão, é um reflexo da luta constante entre o desejo de se conectar de maneira verdadeira e a imposição de papéis sociais que limitam essa conexão.
Assim, a reconexão das três sugerem uma aceitação das falhas e imperfeições de cada uma, um reconhecimento tácito de que, embora o sistema e as expectativas externas tentem moldá-las, elas, em última instância, são responsáveis por suas próprias narrativas. Isso se torna um ponto de reflexão importante: embora as mulheres da série busquem a felicidade e a realização, elas o fazem dentro de um contexto social que constantemente limita suas opções e suas possibilidades de serem plenamente elas mesmas.

Essa luta interna é o que torna The White Lotus uma série tão fascinante, pois, através dessas relações e dinâmicas complexas, Mike White consegue criar um retrato preciso e colorido das mulheres na sociedade contemporânea, que, mesmo quando se reencontram em busca de conexão e lazer, se veem confrontadas com suas próprias questões não resolvidas e com as expectativas que o mundo insiste em impor sobre elas.
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