Temos uma nova temporada de Black Mirror, que, sete anos depois de sua estréia já pode ser considerada um gênero. Ela foi criada por Charlie Brooker e sempre explora as implicações sombrias e muitas vezes perturbadoras da tecnologia na sociedade. Cada episódio é autônomo, com personagens, histórias e cenários diferentes, mas todos compartilham uma visão crítica sobre o impacto da tecnologia na vida humana, frequentemente abordando temas como isolamento, vigilância, ética digital, controle de dados, redes sociais, e as possíveis consequências da evolução tecnológica desenfreada. A série é muitas vezes comparada a uma versão mais sombria de The Twilight Zone, no sentido de usar a ficção científica para questionar questões morais e sociais.
Em 2023, o episódio Joan is Awful foi um dos mais interessantes e diferentes da série, mas 2025 muitos repararam uma diferença editorial de Black Mirror. “Temos seis episódios desta vez, e dois deles são basicamente longas-metragens. Alguns são profundamente desagradáveis, alguns são bem engraçados e alguns são emocionantes,” disse o showrunner. O elenco é mais uma vez incrível: de Issa Rae, Awkwafina, Paul Giamatti, Emma Corrin, e Cristin Milioti, entre outros. São todos interessantes, mas há dois em particular que emocionam: Eulogy e Hotel Reverie.

O difícil processo de “lembrar” a dor
Há uma canção perfeita sobre Lembranças, que é The Way We Were: “As memórias podem ser lindas, mas o que é doloroso demais para lembrar nós simplesmente escolhemos esquecer. Então é do riso que nos lembraremos, sempre que nos lembrarmos de como éramos“. E como é verdadeiro.
A mente humana é um território complexo e, muitas vezes, desconhecido, e o processo de acessar o inconsciente para revelar memórias reprimidas ou esquecidas é um dos maiores desafios da psicanálise. Isso porque são memórias dolorosas ou perturbadoras e como “proteção”, o que causa sofrimento psicológico imediato é “esquecido”. Até porque, muitas vezes são associadas a traumas ou experiências emocionalmente intensas, por isso são armazenadas no inconsciente, fora do alcance da consciência. Mas, apesar de “evitar” a dor, as lembranças não desaparecem completamente. Elas continuam a influenciar o comportamento e o estado emocional da pessoa de maneiras indiretas.
As memórias reprimidas não permanecem inacessíveis para sempre. Com o tempo, ou por meio de intervenções terapêuticas, é possível acessar essas lembranças e trazer à tona os conteúdos do inconsciente. Isso não é algo simples, pois envolve o enfrentamento de experiências que o ego tenta manter escondidas. E o episódio Eulogy mescla esse processo e – claro – o uso de Inteligêngia Artificial para “ajudar” a quebrar a defesa.
A inspiração para o episódio une curiosidade e algo pessoal para Brooker. A primeira veio com o que viu no documentário The Beatles: Get Back, em 2021, onde a tecnologia aprimorou imagens e extraiu os vocais de John Lennon de forma a melhorá-lo. A outra, foi o falecimento de seu pai. “Tive que fazer um elogio fúnebre no velório dele, e estávamos procurando fotos dele para exibir em um projetor na parede. Antes dos smartphones, era muito fácil esquecer que você simplesmente não tinha muitas imagens”, ele comentou. “O que isso significa é que essas fotos são realmente evocativas quando você as vê, porque há menos fotos, mas também são imperfeitas. Hoje, tiramos fotos e você pode ajustar para que ninguém pisque ou todos fiquem felizes. Naquela época, metade das minhas fotos eram superexpostas.” […] Então, havia algo de especial nisso. E se, num acesso de raiva, você esfregasse o rosto de alguém, você destruiria um artefato precioso.”

E assim nasceu o episódio onde Phillip (Paul Giamatti), um homem bastante fechado e isolado, recebe uma ligação de um representante em nome de uma mulher chamada Kelly Royce (Patsy Ferran), informando-o de que a mãe de Kelly, Carol, sua ex-namorada, faleceu e que a família dela gostaria da ajuda dele com o memorial. Há um problema central: obviamente ainda magoado com Carol, Phillip tem problemas para lembrar corretamente dos fatos e ‘esqueceu o rosto dela’.
A alternativa é buscar fotos antigas que ele tem com Carol, tanto para ajudá-lo a lembrar como ter fatos para a homenagem. Mas o processo pessoal não é simples: a angústia é incrível porque no tortuoso processo de librar seu inconsciente – e lembrar do que “escolheu esquecer” – não usa dos métodos ensinados por Freud (associação livre, análise dos sonhos ou transferência) mas como a IA tampouco é alguém que ele tenha relação (dica, aqui tem twist), ele é forçado a revisitar sua dor. A metáfora perfeita é que o programa pode processar até 1.500 fotos, mas recomenda no mínimo seis imagens. O processo de escolha de Phillip é revelador.
Paul Giamatti está espetacular na tristeza, agonia e culpa de um homem revisitando memórias antigas com uma nova perspectiva. A história sentimental, tem, como alertei, uma virada inesperada que volta ao que Black Mirror costuma confrontar que é a inabilidade de voltar ao tempo e fazer tudo diferente.
A viagem de Philip ao inconsciente é uma viagem emocionante. Isso porque, na fantasia pessoal de cada um, fatos são sentidos e lembrados de formas distintas. Não apenas Phillip finalmente lembra do rosto, mas entende sua parte em toda história e percebe que a transformou em uma vilã na cabeça dele. “Ele tem uma nova visão sobre o que ela estava passando, algo que ele não se permitiu ver [na época]. Como consequência disso, ele se apaixona por ela novamente no final, o que é Agridoce porque ela se foi,” alerta Brooker.
Revisitar filmes antigos: o medo de Hollywood em nova perspectiva
Hotel Reverie é menos pessoal, mas merece destaque. Justamente porque a discussão de IA provocou uma greve importante em 2023 e muito do que foi discutido está aqui, com elementos a mais, claro. É uma espécie de Cliente Morto Não Paga e A Rosa Púrpura do Cairo.
Temos a atriz Brandy Friday (Issa Rae) frustrada por ser estereotipada e anseia por algo atemporal e romântico — como o clássico de Hollywood, Casablanca. Ao mesmo tempo, a chefe de um grande estúdio com problemas financeiros, Judith Keyworth (Harriet Walter), é convencida a usar o software Redream, que insere estrelas modernas em filmes do passado para remakes interativos. Assim Brandy é a estrela da nova versão de seu filme favorito, Hotel Reverie. Um sonho que pode virar pesadelo.

Ela insiste em inverter o gênero do herói e ela mesma interpretar “Alex Palmer”. Além do desafio tecnológico, Brandy vai poder trabalhar com sua atriz favorita, Dorothy Chambers (Emma Corrin), que estrelou o original de 1949 e agora é gerada por IA. O problema, sempre há um, é que manter a história original é mais fácil na teoria do que na prática.
Para resolver pequenos detalhes que saem do roteiro e criam buracos na trama, Brandy precisa garantir que a história chegue até onde possa acionar os créditos finais e assim poder sair, senão há o risco de ficar presa na realidade alternativa para sempre, com seu corpo real entrando em coma.
O pior acontece quando um acidente tira o Redream do ar com Brandy ainda dentro do filme. No meio tempo em que – no mundo real todos voam para resolver o problema – na realidade virtual Brandy e Dorothy se apaixonam, o que faz todo o processo ganhar nova camada dramática.
Aqui, Charlie Brooker comentou que o final era determinado antes do começo (vou evitar SPOILER). Segundo ele, a inspiração para o episódio veio de uma idéia de que um dia restaurar um filmes antigos possa incluir conversar com alguém na obra. E, claro, se desse errado. Mas os cinéfilos vão pescar que a maior inspiração mesma, e citada no episódio, é o clássico de David Lean, Brief Encounter.

Assim, a nova temporada de Black Mirror nos traz uma reflexão mais profunda e complexa sobre os desafios e dilemas do nosso cotidiano, São temas universais como o luto, o amor, a identidade e o arrependimento com a crescente presença da inteligência artificial, da realidade virtual e da manipulação da memória, criando uma narrativa inquietante e, ao mesmo tempo, profundamente humana. Se antes Black Mirror era uma distopia sobre o futuro, agora ela se torna uma reflexão sobre como o presente pode ser igualmente perturbador quando as ferramentas que criamos para melhorar nossa vida começam a desafiar nossa humanidade. Algo que sempre demanda uma pausa para reflexão.
Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
