Eu não consigo me encantar pela trama de A Roda do Tempo e à princípio começo a justificar por considerar que há “fantasia demais”, mas ao mesmo tempo sou capaz de gastar horas e posts discutindo uma série que envolve dragões, uma saga para destruir um anel ou uma guerra intergalática. Então é mais uma rejeição pessoal mesmo quanto à história. Ainda assim, acompanho a série e entendo seu sucesso, com a conclusão de sua terceira temporada onde os valores de produção são inegáveis.
O sucesso da série da Prime Video confirma que a fantasia épica está vivendo um novo fôlego, mais maduro, denso e emocionalmente ressonante. Baseada na obra monumental de Robert Jordan, essa adaptação traz para as telas um universo em que o tempo é cíclico, os destinos são tecidos como fios e o herói, longe de ser glorificado, é tratado como um presságio de ruína. No centro de tudo está Rand al’Thor, o Dragão Renascido, uma figura profetizada que deve salvar o mundo da destruição… mas pode destruí-lo no processo.

O dilema que envolve Rand é, ao mesmo tempo, trágico e fascinante: embora ele seja o único capaz de enfrentar o Tenebroso, sua simples existência traz medo, divisão e desconfiança. A lembrança de sua vida passada como Lews Therin Telamon, o herói que salvou o mundo apenas para depois enlouquecer e dizimá-lo, paira sobre todos como um aviso sombrio. Por isso, quando as profecias anunciam a volta do Dragão, o mundo não celebra, mas se prepara para o pior. Essa rejeição ao herói, mesmo sabendo que ele é necessário, é uma inversão poderosa do arquétipo messiânico que a série trabalha com grande inteligência.
Ao longo dos episódios, vemos Rand tentando equilibrar seu dever com seu senso de humanidade. Ele começa como um jovem simples, sem pretensões heroicas, mas é progressivamente esmagado pelo peso de sua identidade. Seu isolamento é palpável, sua transformação é lenta e dolorosa, e a série tem o mérito de não apressar esse processo. Diferente de outras adaptações fantasiosas que apostam em ação ou efeitos visuais, A Roda do Tempo investe no drama psicológico e na tensão moral. Rand precisa salvar o mundo — mas será que ele pode fazer isso sem se perder completamente?
Esse tipo de questionamento é o que torna a série tão relevante. Em vez de um herói triunfante, ela nos apresenta um salvador trágico, que se aproxima mais de figuras como Frodo, Paul Atreides ou até Anakin Skywalker: personagens cujo heroísmo custa caro demais. Mas ao mesmo tempo, A Roda do Tempo se diferencia ao propor que o destino não é fixo — que há brechas no tecido da Roda, que talvez, só talvez, seja possível quebrar o ciclo.

Além disso, o sucesso da série também se apoia na força de seu universo: um mundo ricamente construído, onde as mulheres ocupam posições de imenso poder — especialmente as Aes Sedai — e onde culturas, crenças e estruturas sociais são complexas, diversas e verossímeis. O elenco, cuidadosamente escolhido, traz diversidade e carisma, e o cuidado visual com os cenários, vestuário e coreografias de magia tornam o espetáculo visual tão impressionante quanto seu conteúdo filosófico.
A Roda do Tempo não quer apenas entreter — quer fazer pensar. Ela propõe que o verdadeiro heroísmo pode vir acompanhado de solidão, dúvida e até rejeição. Que nem sempre a salvação vem da figura adorada, mas do ser mais temido. Que o destino pode ser desafiado, mesmo quando ele parece inevitável. Em tempos de narrativas rápidas e soluções fáceis, essa é uma história que convida o público a caminhar mais devagar, a observar as rachaduras nos mitos e a aceitar que, às vezes, salvar o mundo exige perder uma parte de si.

A conclusão épica da terceira temporada deixou os fãs ansiosos. As duas primeiras temporadas da série tiveram um custo total de mais de 260 milhões de dólares, conforme registros financeiros da produtora Little Island Productions no Reino Unido. Isso sugere um custo médio de aproximadamente 130 milhões de dólares por temporada. Em tempos atuais manter no ar conteúdo de fantasia (sem esquecer que a plataforma tem Anéis de Poder também) deixa A Roda do Tempo com risco de parar justamente no auge.
Particularmente – pelo sucesso e aprovação superiores à Anéis do Poder – seria um tiro no pé se a Prime Video não renovasse a série, mas ela é tão complexa que “completá-la” seria tão louco como Rand com o super poder que tem. E assim aguardamos!
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