Jon Hamm: De Don Draper a Anti-Herói em Seus Amigos e Vizinhos

Há algo curioso (e talvez surpreendente) para te contar sobre Jon Hamm. Você provavelmente o conheceu quando fez história como o enigmático Don Draper em Mad Men, entre 2007 e 2015. Mas antes disso, ele já tinha passado por CSI: Miami, Charmed, Gilmore Girls (em todas fazendo pontas) e várias outras séries que provavelmente nunca prenderam sua atenção. Como Don Draper, chegou a ganhar um Emmy de Melhor Ator e virou uma estrela internacional.

Com tanto reconhecimento, seria natural esperar que ele migrasse direto para o cinema ou ganhasse outra grande série como protagonista. Mas Jon Hamm escolheu outro caminho: intercalou papéis cômicos e dramáticos, tanto em filmes quanto em séries, quase sempre sem ser o centro das atenções. Sua temporada em Fargo é espetacular, por exemplo. Em Landman, se despediu antes que tivesse que realmente abraçar a série, e em The Morning Show, reaparece como antagonista — e interesse romântico — da personagem de Jennifer Aniston.

Mas em Seus Amigos e Vizinhos, Hamm finalmente volta a ter uma história que depende inteiramente dele. E dá show.

O título da série remete ao clássico de Neil LaBute dos anos 1990, mas embora compartilhe do mesmo humor ácido e tom provocador, é outra história. Aqui, Andrew “Coop” Cooper ainda tenta digerir seu divórcio, depois que sua esposa (Amanda Peet) o traiu com seu melhor amigo. Para piorar, foi demitido de forma fria e inexplicável do cargo de gestor de fundos de hedge e agora caminha para o colapso. Sua família ainda depende financeiramente dele — incluindo uma irmã bipolar — e, para manter seu estilo de vida em Westmont Village, Coop começa a roubar casas de seus vizinhos ricos.

O que inicialmente parece uma oportunidade, logo vira chantagem: a intermediária das peças roubadas passa a ameaçá-lo. E, como se não bastasse, Coop descobre que por trás das fachadas perfeitas de riqueza e status de seus vizinhos existem segredos tão perigosos quanto os seus próprios.

A premissa de um homem desesperado que recorre ao crime não é exatamente nova. Mas Seus Amigos e Vizinhos consegue algo difícil: nos fazer torcer pelo anti-herói — o que, convenhamos, é bem mais fácil quando ele é interpretado por Jon Hamm e as “vítimas” são milionários insuportáveis. Hamm está impecável no papel de um homem à beira do abismo, que ainda tenta manter as aparências.

Narrada em off (e sim, começa no presente e depois volta no tempo — seguindo a narrativa não linear que virou regra), a série acompanha Coop em busca de sentido. Tudo pelo que lutou — família, carreira, status — foi por água abaixo. E agora, como o inevitável cínico que se tornou, já não se identifica mais com seus antigos valores ou com o paraíso artificial onde vivia. Ao invadir as casas de seus vizinhos, acaba descobrindo mais do que objetos de luxo: encontra segredos e podridões que colocam em xeque sua própria visão de mundo.

Cooper é arrogante e misterioso como Don Draper, mas com uma empatia e sensibilidade raramente vistas em personagens desse tipo. A ex-mulher o acusa de um distanciamento que não combina com o sofrimento que vemos nele — o que promete nos surpreender mais adiante. Cooper não é sombrio como Draper: ele é um tanto engraçado, bastante triste e, de algum modo, estranhamente simpático. O papel exige uma sutileza que Jon Hamm domina com precisão.

Ainda assim, a sombra de Mad Men paira. A crítica, em geral, aplaudiu a “volta” de Hamm como estrela de uma série, mas muitos gostariam que Seus Amigos e Vizinhos pendesse mais para o drama do que para a comédia, explorando com mais peso as consequências dos atos de Coop. Bobagem. Ter um bom ator em um bom papel já é algo raro — e precioso. Nem toda série precisa reinventar o mundo.

Claro, há sinais de alerta. Séries como Dead to Me começaram muito bem e depois se perderam em melodrama. Paradise (que ainda devo uma crítica aqui) também. Sabe o que elas têm em comum? James Marsden. Por isso, o anúncio de que Seus Amigos e Vizinhos terá uma segunda temporada com Marsden no elenco me desanima um pouco.

Mas até lá, vou aproveitar cada minuto com Jon Hamm em cena. Porque essa performance vale o investimento.


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