Flávia Lins e Silva: Pilar Ganha Vida no Cinema e Conquista o Mundo

Como publicado em CLAUDIA

Flavia Lins e Silva sempre foi uma referência. No início da minha carreira no jornalismo, já sabia de como ela se lançou como roteirista, escreveu livros e virou uma das escritoras mais respeitadas no país, reconhecida por seu talento de criar mundos mágicos e emocionantes Seu foco sempre foi em literatura infantojuvenil onde incluía questões universais de maneira acessível e profunda. Graças a ela, minha sobrinha se divertiu com personagens já icônicos como os Detetives do Prédio Azul. Bem antes deles tinha a inteligente Pilar, uma menina curiosa e aventureira que adora descobrir os mitos ao redor do mundo, sempre defendendo a natureza, os animais e as pessoas e cujos livros estão traduzidos ao redor do mundo desde o início dos anos 2000 e que chega aos cinemas em uma produção brasileira da Conspiração, com coprodução da Star Original Productions, da Disney. O longa ainda conta com o apoio da RioFilme e patrocínio do Mercado Livre.


Em meio aos trabalhos de novos livros, e com um fuso horário contra a gente (Flavia está morando em Portugal], a escrito parou para bater um longo papo exclusivo com CLAUDIA sobre o filme, sobre Ecologia e o mundo de personagens que não param de sair de sua cabeça super criativa.


CLAUDIA: A gente se cruzou com certeza naqueles corredores lá da Globo, lá nos primórdios, e te acompanhei sempre. Você foi uma das primeiras a deixar o jornalismo para escrever roteiros, livros e novelas. Como foi essa transição?

FLAVIA: Sabe que fiz estágio na Abril antes da Globo, naquele curso que a gente fazia na faculdade? Fui aprovada e já me disseram ’não tenho dúvida se você é jornalista, mas eu vou te provar que eu gostei do seu texto’. [risos] Sempre tive esse flerte com a ficção. Tem o lado jornalístico, mas adoro pesquisar, e amo ainda mais inventar. No sentido de criar, de inventar novos mundos, personagens.

CLAUDIA: E como definiu que o foco no público mais jovem, né? Até o primeiro trabalho que eu fiz para a Globo foi o Caça Talentos, né?
FLAVIA: Porque você tem um espaço para fantasia imenso. Gosto muito desse mundo da fantasia. Então, logo comecei também a criar meus textos, também escrever contos, escrever outras coisas, mas sempre muito fantasioso. Se eu pegar os meus escritores favoritos, eles são mais fantasiosos, mais criativos, no sentido de deixar a fantasia rolar a solta. Em paralelo à Globo, já comecei a escrever meus livros infantis. Entrei na Globo por volta de 1996 e publiquei a primeira Pilar em 2001.

CLAUDIA
: Parece que você tem muito da Flávia na Pilar, não é?
FLAVIA: Eu acho que ela é melhor que eu. [risos] Corajosa, atirada, gosta de viajar, que isso sim eu tenho, essa “gulodice geográfica”. A Pilar ganha do avô uma rede mágica que permite que ela faça mil viagens pelo mundo. A rede vai para algum lugar do planeta. A gente descobre mitologias, e além da cultura, além de tudo mais que ela vai descobrir, ela passa por uma aventura nesse outro lugar. Vai sempre acompanhada do Breno, que é mais no chão, mais científico e tal. E do gato Samba. Então são os três sempre fazendo essa viagem juntos, cada um com a sua característica. Todos têm essa sede de conhecimento, de aprender, de saber. Mas a Pilar vai sem pensar muito e às vezes se mete em umas enrascadas. [risos]

CLAUDIA: E a Pilar nasceu dos livros, saiu das páginas, foi pro teatro, foi pro palco, foi pra animação, tá chegando no cinema… Uma longa viagem por várias plataformas e por quase 25 anos! Como é cada versão?

FLAVIA: No teatro dou sempre total liberdade, para fazerem uma criação em cima. Tem que ficar essa liberdade mesmo. Na animação, não. Com a animação eu trabalhei pensando no audiovisual, a minha praia. Montei uma equipe, criei pequenas viagens da Pilar. Cada viagem dela é um mito que ela vai conhecendo. Adoro a série de animação, ficou linda, maravilhosa. Feita com a equipe da Mono Animation, muito caprichada. E agora, chegando ao cinema! Eu brinco que me sinto como Gepetto do Pinóquio: quando a personagem ganha vida, quando o Pinóquio ganha vida, a galera de lá ganha vida.

CLAUDIA: Como é que foi encontrar a Pilar de carne e osso?
FLAVIA: Emoção pura! Achei ela [a atriz Lina Flor] tão a carinha da Pilar, tão animada, tão cheia de vida, né? E pronta pra essas aventuras, e pronta pra ir pra Amazônia, né? Então, uma emoção muito grande. E acho que ela realmente tem esses talentos, essa menina.

CLAUDIA: Você está morando em Portugal, mas conseguiu acompanhar alguma parte das gravações?
FLAVIA: Conheci a Lina depois dela ter feito todos os testes e depois eu fui ver as locações, porque pra mim isso é muito importante na hora de adaptar o roteiro. Fomos junto para Belém ver as locações e Alter do Chão está muita bonita também. Confio completamente nessa equipe. Estou muito feliz.

CLAUDIA: Quando você faz a pesquisa, porque assim, foi o que você falou, é uma boa oportunidade de educar as crianças, especialmente essa questão toda da Amazônia que estará no filme. Queria que você contasse um pouquinho da história e como é que você faz a pesquisa e como é que você seleciona como colocar essas mensagens nas histórias?  
FLAVIA: A primeira vez que eu fui à Amazônia, eu escrevi um livro chamado Mururu no Amazonas, que ele é um livro mais juvenil, quase adulto. E atualmente ele tá publicado pela Editora Globo, com ilustrações do Roger Mello. Um livro especial pra mim. Aí quando eu quis escrever a primeira Pilar na Amazônia, eu falei, agora eu vou fazer outra viagem, porque essa primeira eu fui subir o Rio Negro. Então eu resolvi descer. O rio Amazonas, barco gaiola mesmo, tudo dentro da rede. Desci e fui até Santarém, de lá, o Alter do chão e fiquei completamente encantada. Recomendo, que, se quiser fazer a primeira grande do Amazonas com os filhos, vai a Alter do Chão, que é demais.  Então, eu comecei, eu escrevi o Diário de Pilar, na Amazônia, muito depois dessa pesquisa que eu fiz, que eu fui descer especialmente para escrever esse livro da Pilar na Amazônia. E depois que voltei à Amazônia, com essa tragédia acontecendo, um desmatamento incessante, não sei onde isso vai parar. Agora, para a pesquisa de locações, a gente encontrou várias madeireiras, exibimos balsas de barco, sabe, passando e carregam 600, 1.000 troncos. Isso não é sustentável. Aliás, estou bem cansada dessa palavra sustentável porque não é sustentável. É completamente insustentável isso que está acontecendo. Essas árvores levam 300, 500, 1.000 anos para crescer. Não dá mais para desmatar. E eu acho que as crianças estão muito engajadas com essa questão ecológica, estão muito preocupadas. Elas querem falar disso, elas precisam conversar e botar pra fora e conversar em turma, em grupo sobre isso. E eu acho que elas são as porta-vozes dessa mudança que tem que acontecer. Não é mais dizer, ah, é manejável, é sustentável. Não, tem que falar. Eu sei que a gente vai ter que ser muito firme e conversar e trazer uma nova maneira de olhar pra essa pra essa floresta como quem olha pra um monumento. A gente não vai tirando pedaço da pirâmide do Egito, né? A gente precisa de um pedaço da Amazônia. Acabou. Acabou. Para aqui. Tem que ter mais madeira legalizada. Tem que ter mais fio na madeira legalizada. É sobre isso que a gente está conversando. Agora, na história, eles [Pilar e amigos] estão enfrentando uma quadrilha que está se matando ilegalmente e tal. E são uns grandes heróis, né? E que tem milhares de quadrilhas chegando ilegalmente fora da Amazônia, né? A gente sabe disso. E se a Amazônia acaba, não sei, o destino do mundo. É muito sério mesmo…

CLAUDIA: E Marcelo Adnet vai viver esse papel do vilão…
FLAVIA: Com humor também, muito bem feito. Filmei pra meter medo, mas é claro que traz essa conversa, né? Sobre “vem cá, conhece a Amazônia? Não conhece? Como é que é? Vamos abrir os olhos pra isso, defender esse nosso monumento que é tão importante. Nossas vidas dependem dessa água, desse oxigênio, de tudo isso”.

CLAUDIA: E do folclore local que tem lá? O que te surpreendeu na época? O que você acha que as crianças vão sentir?
FLAVIA: Quando você chega lá em Alter do chão, tem sempre um contador de histórias. Eu ouvi cada uma! “Meu tio foi à floresta, derrubou uma árvore para fazer uma mesa. E à noite, um telhado começou a sacudir na casa dele. Era a curupira, querendo que ele devolvesse para a floresta”. Então, você escuta relatos e histórias assim, com quem vive aquilo muito de perto. É muito forte, muito bonito isso ouvir. E de muito respeito pela natureza, quem está ali em volta tem esse respeito imenso. Enfim, foi muito rica essa pesquisa. Agora estou indo de novo, agora já estou pesquisando para outra história.

CLAUDIA: Ia encerrar perguntando isso, mas antes como é que foi a resposta de fora do Brasil, em especial do livro da Amazônia e da Pilar?
FLAVIA: A nossa América Latina toda é muito interessada na Pilar. É impressionante, mas a Amazônia é da América Latina, né? Da Colômbia, do Peru, não é só brasileira, né? Então, acho que é um assunto que está muito forte para todos. Acho que a ecologia é um assunto que deveria ser o topo de todas as agendas do mundo porque é uma questão de sobrevivência, de consciência, de mudança de hábitos. Tem que conversar.

CLAUDIA: Na animação a trilha sonora da série contou com nomes como Carlinhos Brown, alguma ideia para o filme?
FLAVIA: Ainda não sabemos quem vai fazer a trilha do filme, mas da série foi um luxo, né? Carlinhos Brown, Arnaldo Antunes, Lenine… meu Deus!

CLAUDIA: Pilar foi sua “primogênita”, né? Veio antes da Paloma, sua filha de verdade. Seu olhar sobre a Pilar, depois de Paloma, mudou?
FLAVIA: Eu acho que não. Passei a escrever mais histórias depois que a Paloma nasceu, que realmente me deu vontade de escrever mais e mais. Então, agora vai sair a Pilar no México, em maio, só, aguardando as ilustrações, que vão ficar lindas, com certeza, da Joana Pena. Acho que pra Bienal do Rio vai estar pronto.

CLAUDIA: E você mencionou que está trabalhando na pesquisa do próximo livro e se o do México já tá pronto, onde vai ser?
FLAVIA: Estou trabalhando em outras histórias, já mandei pra editora, também ligadas à ecologia. Vão ser livros bem bacanas também, estou muito animada. A cabeça não para! [risos].

CLAUDIA: E o filme previsto para janeiro de 2026…
FLAVIA: A Pilar vai lançar dia 15 de janeiro de 2026, mas em julho lançam os Detetives do Prédio Azul 4, que também já filmaram. Acho que vai ser um bom ano para o cinema infantil!


Descubra mais sobre

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário