Como a Música de Nicholas Britell Redefine o Som de Star Wars

A cena de Mon Mothma dançando ao som do hit galático Niamos na última temporada de Andor não é apenas um momento de silencioso breakdown ou uma fuga da tensão política da série, mas também se tornou um marco na trilha sonora de Star Wars. Enquanto a série de Tony Gilroy explora a ascensão da resistência contra o Império e os jogos de poder dentro da galáxia distante, a música de Nicholas Britell construiu uma identidade única para a série, marcando uma mudança radical no estilo sonoro de Star Wars. Em vez de recorrer aos temas grandiosos e orquestrais típicos da franquia, Britell foi capaz de trazer uma sonoridade minimalista, intimista e inovadora, desafiando o legado sonoro de John Williams. E, claro, acertou em sua originalidade.

Britell tem uma habilidade incomparável de criar atmosferas emocionais complexas, se encaixa nesse universo tão reconhecido pela sua música épica e como ele está dando um show ao integrar sons modernos e intimistas em Andor, um dos mais aclamados projetos de Star Wars.

Antes de qualquer coisa, vamos falar dessa cena. Em um dos momentos mais memoráveis de Andor, Mon Mothma, interpretada por Genevieve O’Reilly, é vista em uma festa de elite em Coruscant, dançando ao som de uma música eletrônica pulsante chamada “Niamos”. A música, um misto de dance galático e sintetizadores, é o oposto do que poderíamos esperar de uma produção de Star Wars, mas se encaixa perfeitamente com a atmosfera de opressão política e decadência social que permeia a série. O uso da música de Britell aqui não é apenas uma escolha estética, mas também um comentário sobre a fuga da realidade de Mothma – uma mulher presa em um sistema corrupto e tentando manter uma fachada de normalidade.

Nicholas Britell, nascido em Nova York, é um dos compositores mais inovadores de sua geração. Sua carreira decolou com a trilha do vencedor do Oscar, Moonlight , em 2016, que conquistou prêmios e reconhecimento global, mostrando sua habilidade única em misturar música clássica com elementos de hip-hop e música experimental. Ao lado de If Beale Street Could Talk (2018), essas trilhas solidificaram Britell como um dos nomes mais respeitados da música para o cinema contemporâneo.

Contudo, foi seu trabalho na série de HBO, Succession (2018-2023), que rendeu o Emmy e consolidou seu status no mundo da música para TV. Em Succession, Britell foi capaz de capturar a tensão e o drama familiar com uma música minimalista e, ao mesmo tempo, grandiosa, usando temas repetitivos e construções delicadas para ilustrar a podridão moral e a luta pelo poder da família Roy.

Quando Britell foi escolhido para compor a trilha de Andor, sua abordagem de compor para grandes narrativas emocionais e políticas se encaixou perfeitamente. No entanto, o desafio era enorme: como compor para um universo que já foi definido musicalmente pelo lendário John Williams, com sua orquestração grandiosa e temas épicos, mas sem recorrer a eles?

A música de John Williams para Star Wars é, sem dúvida, uma das mais icônicas da história do cinema. Temas como o “Tema Principal de Star Wars”, “The Imperial March”, e a música da Força são praticamente imortalizados na cultura pop. Para qualquer compositor que fosse entrar no universo de Star Wars, seria um desafio monumental lidar com a sombra de Williams, que definiu o som da galáxia distante por mais de quatro décadas.

Além da sombra significativa de uma lenda como John Williams, Britell também tinha o excelente trabalho de Michael Giacchino em Rogue One, mas Andor é completamente diferente. Tony Gilroy, o showrunner da série, optou por uma abordagem mais focada no drama político e nas dificuldades internas dos personagens, e Britell teve total liberdade para explorar novas sonoridades. Uma decisão criativa ousada, coerente e esperta.

Assim, em vez de recorrer aos temas épicos e grandiosos, Britell trouxe uma linguagem musical mais intimista e evitou temas familiares da franquia com escolhas audaciosas, como o uso de sons eletrônicos, texturas minimalistas e composições que refletem mais o psicológico dos personagens, como Cassian Andor. Sua música cria uma sensação de tensão constante, de isolamento e de ressentimento, que são fundamentais para a narrativa da série.

Com isso, Andor tem um som único para a série, que se opõe completamente à grandiosidade orquestral que caracteriza as trilhas tradicionais de Star Wars. Em vez de longas e complexas passagens orquestrais, ele se foca em repetições simples e variações sutis. Isso reflete a dúvida interna e o isolamento emocional de personagens como Cassian Andor, que está tentando descobrir seu lugar em uma galáxia dominada por um Império impiedoso. A música não só ajuda a construir o ambiente, mas também a refletir o desespero silencioso e a fuga emocional dos personagens.

Ao contrário da música orquestral de Williams, Britell usa sons mais modernos e eletrônicos. Ele integra elementos de hip-hop, sintetizadores e sons ambientais, criando uma música que se aproxima da distorção e da tensão vivida pelos personagens. A já mencionada cena de Mon Mothma dançando ao som de “Niamos” é um exemplo perfeito de como Britell usa a música para subverter expectativas e trazer um tom mais contemporâneo e futurista para Star Wars.

Já podemos lacrar que o estilo de Britell é um oposto completo do estilo de John Williams, fazendo história da mesma forma. Os temas de Williams são facilmente reconhecíveis e frequentemente associados à glória heroica e à batalha épica, mas Britell usa a musicalidade mais sombria e introspectiva, uma abordagem que se encaixa perfeitamente com o tom político e tenso de Andor.

Nicholas Britell não só encontrou sua própria voz no universo de Star Wars, mas também redefiniu o papel da música na narrativa da franquia. Ao fazer isso, ele não apenas trouxe uma nova camada de profundidade a Andor, mas também se desafiou a dar algo totalmente novo em um espaço onde a música já é definida por uma das trilhas mais grandiosas da história do cinema.

Na segunda temporada de Andor, seus temas estão presentes mas a assinatura da trilha também é de Brandon Roberts porque devido a um problema familiar, Britell não pôde se comprometer com a temporada inteira e dividiu o trabalho da produção.

A cena de Mon Mothma dançando ao som de “Niamos” se tornou um símbolo do novo senso de liberdade que Britell trouxe para Star Wars. A obra de Britell é uma prova de que, no universo de Star Wars, há sempre espaço para novos sons e novas formas de se conectar com a complexidade emocional dos personagens e da história.


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