Em bom português, Syril Karn (Kyle Soller) é o protótipo do coitado — e nem se encaixa na categoria de vilão. Provavelmente, ele gostaria de ser um, mesmo que, em sua visão deturpada, esteja do “lado certo” da História (o do Império). Sua trajetória em Andor é trágica e triste como a de Cassian (Diego Luna) — ou, em alguns aspectos, ainda pior. Afinal, se a Galáxia e a Rebelião tiveram uma chance de derrotar as forças imperiais, foi graças ao sacrifício de Cassian e Jyn Erso (Felicity Jones). Mas Syril? Nem o Império reconhece o valor de sua obsessão, e os Rebeldes sequer o conhecem para temê-lo. Ele é, de fato, um coitado.
Mas coitados podem ser perigosos.

O frustrante em Syril é que ele está certo em querer capturar Cassian e fazê-lo pagar por seus “crimes”. Sua “estupidez” — o crime que ele quer ver punido é insignificante perto do que Cassian já fez ou ainda fará — o impede de compreender como provar que está certo. Até sua “namorada”, Dedra Meero (Denise Gough), o subestima e o utiliza para fins próprios. A fraqueza de Syril chega a doer no nosso coração.
Como nasce um coitado?
Desde sua primeira aparição em Andor, Syril se apresenta como um personagem rígido, obcecado por ordem e disciplina, mas, acima de tudo, carente de pertencimento. Seu perfil psicológico revela alguém que não apenas valoriza a hierarquia — ele precisa dela para existir. Estrutura, protocolos e regulamentos não são só ferramentas profissionais: são escudos contra o caos interno.

E é justamente na relação com sua mãe, Eedy Karn (Kathryn Hunter), que essa fissura emocional se evidencia. Eedy é invasiva, controladora, crítica — uma figura materna que usa a humilhação como método de domínio. Ela reforça em Syril um sentimento constante de inadequação: ele nunca é suficiente, nunca está certo, nunca faz o bastante. Seu tom passivo-agressivo e suas investidas manipuladoras fazem com que o filho internalize uma culpa crônica.
Syril não aprendeu afeto — ele aprendeu cobrança. E, para agradar, passou a se moldar aos ideais de ordem que a mãe exalta — e que, não por acaso, espelham os princípios do Império: controle, aparência, reputação. Sua identidade é uma construção defensiva: o terno impecável, o cabelo milimetricamente penteado, a obsessão por cargos, regras e punições. Tudo isso não é vaidade — é um esforço desesperado por aprovação e pertencimento.
Ele não é psicopata. Nem sádico. É reprimido. Alguém cuja bússola emocional foi quebrada na infância e que, em vez de afeto, aprendeu a medir valor em termos de obediência.

Syril e a mãe: um caso de neurose obsessiva à moda freudiana
Eedy Karn encarna a figura clássica da mãe castradora e narcísica, moldada pela frustração e pela projeção. Ela é crítica, invasiva, hipercontroladora. Em Freud, figuras como ela costumam gerar no filho uma hipertrofia do superego — uma consciência moral inflada e rígida, que paralisa emocionalmente e condena à culpa constante.
Desde o início da série, vemos como Syril é incapaz de agir sem o julgamento materno. Ele tenta agradá-la — mesmo quando ela reforça sua insuficiência. Quando ele é demitido, Eedy o recebe com desprezo disfarçado de “preocupação”, e o submete a uma série de humilhações veladas: critica suas roupas, seu comportamento, até o que ele come. Tudo sob o verniz do “amor materno”.
Do ponto de vista freudiano, isso sugere um complexo materno não resolvido: Syril jamais conseguiu se separar psiquicamente da figura da mãe. Sua identidade é construída em função de um desejo que não é dele — o desejo dela, que nunca se satisfaz, mas também nunca o deixa partir.

Perfil psicanalítico de Eedy Karn
Eedy é o retrato da mãe narcísica e frustrada. Segundo Freud, ela teria investido toda sua libido (energia psíquica do desejo) no filho — não para amá-lo, mas para viver por meio dele. Trata-o como uma extensão de si mesma e, simultaneamente, como receptáculo de suas frustrações. Destrói sua autoestima para manter o controle.
Sua fala é performática: “Você precisa ter ambição”, “Veja seu primo”, “Você não está fazendo o suficiente”. O objetivo é sempre o mesmo: gerar culpa, inadequação e dívida eterna. A mãe, assim, mantém o poder — se Syril se sentir eternamente em débito, jamais sairá de sua órbita.
A ponte emocional para Dedra Meero
Quando Syril encontra Dedra Meero, algo acende nele — mas não é exatamente amor, nem desejo sexual. Dedra representa a autoridade idealizada, tudo que ele deseja ser: fria, respeitada, implacável, poderosa. Mais que isso: Dedra é a mãe idealizada. Ao contrário da real, que o diminui, Dedra é a figura de poder que ele pode venerar.

Essa relação carrega traços claros de transferência emocional: Syril projeta nela o desejo de reconhecimento e submissão que nunca teve com Eedy. Sua insistência em procurá-la, sua devoção quase religiosa — tudo ecoa o padrão familiar: “Se eu fizer o suficiente, ela vai me ver”. Mas Dedra não é afetuosa. Ela responde à lógica do Império: utilidade e eficiência.
E aí reside a tragédia: Syril ama como alguém que nunca foi amado direito — e por isso, ama errado.
Da mãe à amante: repressão, desejo e ruína
A fixação em Dedra é um deslocamento da dinâmica edípica mal resolvida. Em vez de se libertar da figura materna, Syril encontra uma nova mulher com os mesmos traços estruturais de poder, frieza e controle. Dedra torna-se uma substituta simbólica de Eedy: uma mulher que o despreza, mas que ele deseja agradar; que o rejeita, mas que ele persegue; que domina, e ele idolatra.
A tentativa de se aproximar de Dedra é, no fundo, um esforço para dar sentido ao trauma. Mas o que nasce entre eles não é amor — é cumplicidade em controle, dominação, repressão. É um romance doentio — e perfeitamente coerente com o universo autoritário em que vivem.

No fim, Syril não quer apenas servir ao Império. Ele quer que o Império o ame. E como nem o Império nem Dedra sabem oferecer isso, tudo o que resta é a ruína emocional. Um homem que buscava estrutura para se encontrar — e termina despedaçado pelas mesmas estruturas que idolatrava.
Daí, quando sua trajetória se conclui, sentimos pena. A tragédia de Syril é jamais ser reconhecido — mesmo quando, em algum nível, ele estava certo. Isso o torna um dos personagens mais trágicos de Andor, porque sua vilania não nasce da ambição ou da crueldade — mas da carência e da internalização do abuso emocional.
Um coitado — e dos mais perigosos.
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