O que acontece com Abby em The Last of Us (Spoilers)

Há anos escrevo sobre The Last of Us e lido com os inevitáveis SPOILERS diante da adaptação fiel do jogo para as telas, incluindo que viria a morte de Joel (Pedro Pascal) e a entrada da temida Abby Anderson (Kaitlyn Dever), a arquiinimiga de Ellie (Bella Ramsey) e a personagem que altera toda a narrativa da história.

É preciso reconhecer que a série fez adaptações para a entrada de Abby: desde sua aparência à sua revelação logo cara, sem rodeios. O fato é que, agora que a “surpresa” aconteceu e Joel está fora de cena, a trama será focada na obsessão de Ellie em sua vingança, um espelho invertido da trajetória de Abby até aqui e, mais importante, até o final da história.

O jogo teve duas partes e termina em aberto quanto ao futuro, mas, se você quer ter certeza do que vai acontecer com Abby e se Ellie vai matá-la, fique avisado dos SPOILERS à frente.

Quem é Abby Anderson

Abigail “Abby” Anderson é uma das figuras mais divisivas e inesquecíveis do universo de The Last of Us, sendo tanto protagonista quanto antagonista — dependendo da perspectiva. Sua história, marcada por perda, vingança, trauma e busca por redenção, funciona como um espelho trágico da própria Ellie, com quem ela trava um duelo emocional e físico que atravessa todo o segundo jogo. A construção de Abby em The Last of Us Part II é deliberadamente desconfortável: ela é apresentada como a assassina de Joel, o protagonista amado do primeiro jogo, apenas para depois se tornar jogável e humana, forçando o público a confrontar seus próprios julgamentos morais.

Antes do apocalipse, Abby era filha de Jerry Anderson, o cirurgião dos Vagalumes encarregado de operar Ellie no final do primeiro jogo e da primeira temporada. Jerry seria o responsável por extrair da menina uma possível cura para o fungo Cordyceps, embora isso significasse a morte de Ellie. Joel, ao descobrir isso, mata Jerry para salvá-la — um ato de amor egoísta, mas também brutal e definitivo. No jogo, Abby presencia o impacto dessa perda e, nos anos seguintes, canaliza toda a sua dor em uma obsessiva preparação física e militar. Ela se junta à WLF (Washington Liberation Front), uma facção armada que domina parte de Seattle e que oferece a Abby o ambiente ideal para treinar, endurecer e manter sua raiva viva.

Quando finalmente rastreia Joel com seus companheiros da WLF, Abby o mata de forma extremamente violenta com um taco de golfe — uma cena crua, presenciada por Ellie (e, no jogo, Tommy (Gabriel Luna)). Esse momento é o gatilho para toda a espiral de violência que se segue. O jogo, no entanto, escolhe um caminho radical: após mostrar os eventos do ponto de vista de Ellie em busca de vingança, a narrativa recua e coloca o jogador no controle de Abby, fazendo-o reviver os mesmos três dias em Seattle — mas pela ótica da personagem mais odiada até então. É aí que The Last of Us Part II se revela como um estudo de empatia e desumanização.

A humanização de uma antagonista

A Abby que o jogador passa a conhecer é uma mulher marcada, sim, por raiva e dor, mas também por lealdade, humanidade e complexidade. Sua aparência musculosa — alvo de críticas transfóbicas e misóginas infundadas na época do lançamento — não é um traço gratuito, mas a expressão física da forma como ela lidou com o trauma: transformando o corpo em armadura. Ao mesmo tempo, ela carrega pesadelos recorrentes com a morte do pai, sonhos perturbadores que evoluem conforme suas decisões morais mudam. Esses sonhos se tornam menos sangrentos à medida que ela se aproxima de Lev, um menino Serafita que ela decide proteger, rompendo com os extremismos tanto da WLF quanto da seita religiosa à qual o garoto pertencia.

O relacionamento entre Abby e Lev é o eixo de sua jornada de redenção. Lev é um jovem trans, rejeitado pela própria comunidade religiosa, e encontra em Abby não só uma protetora, mas alguém capaz de compreender o que significa viver à margem, sendo caçado tanto pelos Serafitas quanto pela WLF. Cuidar de Lev leva Abby a trair sua facção, enfrentar antigos aliados e, acima de tudo, encarar quem ela se tornou. Essa escolha não é fácil. Ela perde tudo — amigos, proteção, segurança — mas, pela primeira vez desde a morte do pai, reencontra algo semelhante à paz.

A relação de Abby com outras personagens também revela suas contradições. Owen (Spencer Lord), seu antigo companheiro amoroso, ainda é uma figura importante em sua vida, mas a conexão entre os dois está contaminada por ressentimentos e decisões inconciliáveis. Owen deseja fugir da guerra e encontrar os Vagalumes, buscando um novo começo, enquanto Abby ainda está mergulhada no lodo do passado. Mel, companheira de Owen e médica grávida, representa um lembrete constante do que Abby perdeu — e do que nunca teve. Essa tensão culmina em uma tragédia: Owen e Mel são mortos por Ellie durante sua campanha de vingança. Quando Abby descobre os corpos, a brutalidade da guerra pessoal que ambas travam se torna insuportável.

O confronto final

O confronto final entre Abby e Ellie ocorre em Santa Bárbara, meses depois e com toda cara de só acontecer em uma terceira temporada. Ambas estão física e emocionalmente devastadas. Abby foi capturada por uma milícia canibal chamada Rattlers, torturada e está quase irreconhecível — magra, fraca, com os cabelos cortados à força. Ellie, por sua vez, já perdeu tudo: Joel, Dina, Jesse, e agora até sua sanidade. O duelo entre as duas não é glorioso, mas trágico. Ellie vence, mas no último momento poupa a vida de Abby. Esse gesto de misericórdia interrompe, finalmente, o ciclo de violência, ainda que a redenção pareça distante demais para ambas.

A jornada de Abby é profundamente ligada a temas como justiça, vingança, perda, identidade e empatia. Ela não é retratada como heroína ou vilã, mas como uma sobrevivente marcada pela tragédia. Ao final, Abby parte com Lev em busca dos Vagalumes remanescentes — talvez em busca de reconstrução, ou talvez apenas tentando sobreviver mais um dia. Seu destino é deixado em aberto, assim como o de Ellie, mas sua trajetória reverbera como um dos grandes estudos de personagem na história dos games.

A repercussão de Abby foi imensa e controversa. Laura Bailey, que a interpretou com profundidade e nuances, foi alvo de ataques online após o lançamento do jogo — muitos motivados por misoginia, transfobia (com a confusão entre Abby e Lev) e resistência ao deslocamento narrativo que o jogo propõe. Ainda assim, a performance de Bailey foi amplamente aclamada, rendendo a ela o BAFTA de Melhor Performance. Com o tempo, Abby se consolidou como um símbolo de como videogames podem desafiar o jogador não apenas com desafios técnicos, mas morais e emocionais.

O que esperar da série

Na adaptação televisiva de The Last of Us, produzida pela HBO, Abby é interpretada por Kaitlyn Dever e já gerou discussão – em geral positiva – pelas alterações em relação ao jogo.

Os criadores Craig Mazin e Neil Druckmann fizeram mudanças estruturais porque a narrativa será expandida para além de duas temporadas, permitindo que os arcos de Ellie e Abby se desenvolvam com mais profundidade e tempo.

Acelerar a entrada, motivação e vingança de Abby na série foi uma decisão visando tanto para evitar que o público que já sabia o que ela faria não se entediasse com uma informação difícil de esconder e, para quem não sabia, que ainda experimentasse o mesmo choque igualmente de forma tão abrupta quanto no jogo. Foi acertada, embora o que não foi possível igualar foi a surpresa que os jogadores tiveram pois eles eram Abby antes de saber o que ela viria ou quem efetivamente era.

Tirando isso do caminho, agora será possível e certo que a empatia por Abby seja construída de forma mais progressiva. O vínculo com Lev, por exemplo, deve ganhar ainda mais espaço, assim como os momentos internos da personagem — suas crises, pesadelos, e a lenta reconstrução de sua identidade após o trauma. Além disso, temas como masculinidade, força, disforia e pertencimento, já presentes na personagem, podem ser ainda mais bem explorados em linguagem audiovisual. A série, portanto, promete aprofundar a personagem sem suavizar sua complexidade — mantendo-a como uma figura incômoda, poderosa e essencial para a narrativa.

Ao fim, Abby Anderson permanece como um dos personagens mais corajosos já concebidos em um videogame. Ela desafia o jogador a sentir raiva, depois compaixão. A odiá-la, depois compreendê-la. A jogar como ela, mesmo sem querer. Ela mostra que em um mundo destruído, os monstros não são sempre os outros — e que ninguém, nem mesmo os que mataram, está além da humanidade. Sua jornada não oferece conforto fácil, mas provoca, transforma e fica com o jogador muito tempo depois que o jogo termina. E se a série conseguir alcançar o mesmo feito, terá superado seu maior desafio, que é se manter relevante mesmo “perder” seu astro principal e passar a ser uma história de vingança. Mas, dificilmente no final, não teremos empatia justamente por aquela que partiu violentamente nosso coração.


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