Em 1605, nas prensas de Juan de la Cuesta, em Madri, surgiu uma obra destinada a mudar o curso da literatura ocidental: El ingenioso hidalgo don Quijote de la Mancha, de Miguel de Cervantes Saavedra. A publicação dessa primeira parte do que viria a se tornar um marco da ficção narrativa completa 420 anos em 2025 — um aniversário que convida à reflexão não apenas sobre a longevidade do livro, mas sobre sua influência determinante na maneira como entendemos o romance, a ficção e até mesmo a realidade.
Para compreender a dimensão da importância de Dom Quixote, é essencial situá-lo em seu contexto histórico. A obra foi escrita no início do século XVII, em uma Espanha que ainda saboreava as glórias imperiais do Século de Ouro, mas já sofria as fissuras do declínio político e econômico. Era um tempo de transição: o mundo medieval dava lugar a um novo tempo de racionalidade, ciência e realismo. Foi nesse ambiente, onde os romances de cavalaria ainda faziam sucesso entre um público nostálgico, que Cervantes decidiu empreender sua sátira. Mas ele foi além do pastiche: produziu um texto que ironizava os modelos antigos ao mesmo tempo em que os transcendia, inaugurando uma nova forma de pensar a ficção.

A vida de Cervantes contribui para entender o espírito do livro. Miguel de Cervantes nasceu em 1547, em Alcalá de Henares, e viveu uma existência marcada por infortúnios. Lutou na famosa Batalha de Lepanto (1571), onde perdeu o uso da mão esquerda — o que lhe valeu o apelido de “manco de Lepanto” —, e passou cinco anos como prisioneiro em Argel, após ser capturado por piratas. Ao retornar à Espanha, encontrou dificuldades financeiras e se envolveu com a burocracia real, onde sofreu várias acusações e prisões. Foi na maturidade, com cerca de 58 anos, que publicou a primeira parte de Don Quixote, como um escritor pobre e pouco reconhecido.
A gênese do livro tem elementos notáveis. Cervantes publicou Don Quixote com o intuito de ridicularizar os então populares romances de cavalaria — como Amadis de Gaula —, cujos protagonistas viviam aventuras mirabolantes e inverossímeis. O personagem de Alonso Quijano, um fidalgo empobrecido que enlouquece de tanto ler esses livros e decide tornar-se cavaleiro andante sob o nome de Dom Quixote, é uma paródia explícita dessas narrativas. No entanto, à medida que a trama avança, o riso cede espaço à empatia. Dom Quixote se torna um herói trágico, um idealista deslocado, cuja loucura revela verdades profundas sobre o mundo. Seu fiel escudeiro, Sancho Pança, oferece o contraponto realista, e juntos constroem uma das duplas mais célebres da literatura universal.
A recepção da obra foi imediata: Don Quixote tornou-se um sucesso de vendas, circulando por toda a Europa. O livro foi traduzido, plagiado, comentado — a ponto de um autor apócrifo, conhecido como Alonso Fernández de Avellaneda, publicar uma falsa continuação em 1614, o que motivou Cervantes a lançar a autêntica segunda parte em 1615, mais complexa e metaficcional. Nela, os personagens sabem que são personagens de um livro e discutem sua fama, antecipando jogos literários que só seriam retomados séculos depois, por autores como Borges e Italo Calvino. Essa segunda parte, escrita com consciência do impacto da primeira, eleva o romance a um grau de sofisticação e autorreflexividade extraordinário.

A importância de Don Quixote não se restringe ao passado. Considerado por muitos o primeiro romance moderno, ele estabelece uma nova maneira de contar histórias — em que o narrador é ambíguo, os personagens têm espessura psicológica e os limites entre realidade e ficção se tornam turvos. A alternância entre o cômico e o trágico, a multiplicidade de vozes e perspectivas, o diálogo com outras obras, tudo isso antecipou características centrais do romance contemporâneo. Não à toa, autores como Dostoiévski, Flaubert, Proust e Kafka reconheceram sua dívida com Cervantes.
Além disso, Don Quixote tornou-se um símbolo da luta entre idealismo e pragmatismo, sonho e desilusão. A imagem do cavaleiro enfrentando moinhos de vento — que ele acredita serem gigantes — ultrapassou o âmbito literário e tornou-se um arquétipo cultural. O “quixotismo” passou a designar atitudes nobres, porém deslocadas da realidade, com ecos filosóficos, políticos e existenciais.
Essa perenidade se reflete nas inúmeras adaptações culturais, releituras e apropriações artísticas que a obra recebeu nos últimos quatro séculos. O personagem foi imortalizado em esculturas (como as de Madri), pinturas (especialmente por Honoré Daumier e Picasso), ilustrações célebres (como as de Gustave Doré), e até mesmo no balé (Don Quixote, de Ludwig Minkus, ainda encenado por companhias clássicas como o Bolshoi e o Royal Ballet). No cinema, merece destaque a adaptação de Orson Welles — um projeto inacabado que consumiu décadas de sua vida — e o filme O Homem que Matou Dom Quixote (2018), de Terry Gilliam, que demorou mais de 25 anos para ser concluído e se tornou, em si, uma espécie de “quixotismo” cinematográfico.



No teatro, a mais famosa releitura é o musical Man of La Mancha, de Dale Wasserman, Mitch Leigh e Joe Darion, que estreou na Broadway em 1965 e tornou-se um sucesso mundial. A canção The Impossible Dream se transformou em hino da perseverança idealista, usada em discursos, campanhas e filmes. E até na televisão Dom Quixote reaparece — seja em animações, como em episódios de Os Simpsons ou Tom & Jerry, seja em referências sutis na cultura pop, da Marvel à literatura infantil.
Em 2025, ao celebrar os 420 anos da publicação da primeira parte, o mundo revisita uma obra que não envelhece. Muito pelo contrário: Don Quixote talvez nunca tenha sido tão atual. Em uma era marcada por fake news, realidades fragmentadas e crises de sentido, a pergunta fundamental que perpassa o livro — o que é real? — ressoa com uma força renovada. O idealismo de Dom Quixote e o ceticismo de Sancho Pança refletem dicotomias humanas universais, sempre em disputa.

Cervantes morreu em 1616, no mesmo ano que Shakespeare, outro gênio das letras. Sua morte passou quase despercebida, mas sua obra sobreviveu a todos os modismos e rupturas. Hoje, Don Quixote de La Mancha é traduzido em mais de 140 idiomas, ocupa o topo das listas de maiores romances de todos os tempos e continua sendo objeto de adaptações, estudos, debates e reinterpretações. Os 420 anos não são apenas um marco cronológico — são um convite a reler, redescobrir e celebrar o nascimento do romance como o conhecemos.
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