A glória não é para todos — e Andor sabe disso

“Quem é você?”. Essa pergunta simples, feita por um confuso Cassian Andor (Diego Luna) a Syril Karn (Kyle Soller), ecoa por toda a série — e é a porta de entrada perfeita para o drama íntimo, político e desesperadamente humano que Andor entrega na sua temporada final. Agora que posso finalmente falar sobre os segredos e viradas mais impactantes (sim, sem medo de soltar spoilers!), é um alívio e um convite: o público precisa se preparar para o que está por vir. Como me disse Diego Luna em entrevista à CLAUDIA, Andor foi uma jornada longa, intensa, e ainda não acabou. Teremos ainda mais reviravoltas, revelações e emoções nos três últimos episódios semana que vem. Preparem-se.

Andor não é sobre os grandes heróis de holograma, os jedis míticos ou os nomes que enchem os livros de história da galáxia. É sobre os esquecidos. Os silenciados. Os que lutam à margem e cujas vidas nunca serão registradas com medalhas ou monumentos. E poucos personagens representam isso com tanta força quanto Cassian Andor e Syril Karn — duas faces de uma mesma moeda trágica.

Ambos são impulsionados por uma obsessão: Cassian pela sobrevivência e, mais tarde, pela causa; Syril pela ordem e pelo desejo de provar seu valor. Nenhum deles será lembrado nos registros oficiais da Rebelião ou do Império. Mas são exatamente esses nomes apagados que sustentam o peso da história. Em Andor, o que parecia pequeno se revela essencial. E é nesse detalhe que a série brilha.

Com atuações impecáveis de Diego Luna, Genevieve O’Reilly e Stellan Skarsgård, Andor entrega uma narrativa que é Star Wars para adultos — com todas as consequências, dúvidas morais e decisões ambíguas que o universo sempre escondeu debaixo de efeitos especiais. Aqui, tudo importa. Nada é deixado de lado. E finalmente podemos falar disso sem filtro.

Enquanto a série avança para seu clímax inevitável, o espelho entre Cassian Andor e Syril Karn se torna impossível de ignorar. Um se torna rebelde não por idealismo, mas porque não há mais escapatória. O outro se torna um agente do autoritarismo porque não sabe ser outra coisa. Ambos são impulsionados por um vazio — uma ausência de pertencimento, de reconhecimento, de sentido — que os torna mais parecidos do que jamais admitiriam.

Cassian e Syril são homens que buscam um lugar no mundo, mas encontram apenas muros. O “quem é você?” que um ouve com desprezo, o outro internaliza como obsessão. Cassian luta contra o sistema porque ele o descartou. Syril se agarra ao sistema porque é tudo que ele tem. E no fim, nenhum dos dois será lembrado. Nenhum terá estátuas. Mas são eles que movem a galáxia. São eles que fazem as engrenagens rodarem — com sangue, suor, escolhas erradas e pequenos atos de coragem ou covardia. Andor reconhece isso e nos força a reconhecer também.

Esse é o maior triunfo da série: dar centralidade a quem, em outras narrativas, seria figurante. Colocar luz em Mon Mothma — não a líder lendária, mas a mulher cercada por chantagens, traições e sacrifícios familiares. Deixar Luthen Rael emergir como um dos personagens mais complexos de toda a franquia: um homem que já sacrificou tudo, inclusive a própria alma, pela causa que defende com a frieza de quem sabe que não será lembrado como herói. E um detalhe ainda mais triste, depois de fazer todo o trabalho sujo, o mérito de “resgatar” a senadora ficou com o “time dourado”.

Quem acompanha o universo expandido de Star Wars talvez tenha reconhecido, mesmo que sutilmente, o grupo é a tripulação da Ghost, núcleo central da série animada Star Wars Rebels e que tem aparecido em Ahsoka. Liderados por Hera Syndulla, esses rebeldes veteranos já operavam em missões de alto risco muito antes da Aliança se formalizar, e são eles os encarregados de levar Mon Mothma em segurança para o esconderijo rebelde. A escolha não é gratuita — nem apenas um aceno para os fãs. Ela marca a transição da senadora isolada para líder reconhecida da Rebelião, e simboliza a união das várias frentes de resistência que atuavam nas sombras.

Cassian Andor, embora fundamental para o coração moral da série, não poderia cumprir essa missão. Ele ainda é um agente marcado, perseguido, impulsivo, operando nos bastidores mais sujos da guerra. Sua trajetória, naquele ponto, é paralela à da política, não cruzada com ela. A entrada da Ghost e sua equipe aponta para um momento de virada: a Rebelião começa a ganhar forma, com seus nomes, naves e estratégias. Mas, como sempre em Andor, os que fazem esse mundo girar não buscam glória — apenas sobrevivência, aliança e propósito. Mas é muito triste porque, mesmo depois de Rogue One, o fato de ninguém jamais mencionar Cassian Andor significa que até agora – e não mais depois – “quem é você?” era a pergunta para ele também.

As atuações são outro ponto fora da curva em Andor. Diego Luna dá a Cassian uma densidade rara — olhos que carregam culpa, exaustão, fúria e, muito aos poucos, esperança. Em conversa comigo para CLAUDIA, ele resumiu bem: “há muitos nomes, há muitos seres anônimos que foram cruciais na história desta saga”. E ele vive isso em cada cena. Genevieve O’Reilly, como Mon Mothma, entrega uma performance contida e devastadora, onde o controle absoluto é uma forma de desespero. Já Stellan Skarsgård impõe presença e tragédia como Luthen, num dos monólogos mais marcantes da televisão recente — onde ele admite ter se tornado aquilo que combate, porque é o único jeito de vencer.

Andor não subestima o espectador. Não há exposição mastigada, não há respiro fácil. A série exige atenção, leitura política, sensibilidade para os detalhes. É de fato “Star Wars para adultos”, mas não por ser sombrio ou violento — e sim porque entende que a luta contra a tirania não é feita de glória, e sim de perdas, mentiras, pactos difíceis. De personagens que não brilham no centro da cena, mas que sustentam o peso da história.

E agora que a segunda temporada se aproxima do fim — com reviravoltas dolorosas, traições e destinos selados — volto a dizer: Andor é, sim, o auge narrativo do universo Star Wars. E ainda assim, prepara o terreno para mais. Mais impacto, mais profundidade, mais silêncio antes da explosão.

Se você ainda não viu, corra. Se já viu, prepare-se. O silêncio dos esquecidos nunca foi tão ensurdecedor.


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