A Profunda Conexão Entre Balanchine e Tchaikovsky

Quando se fala em George Balanchine, é quase inevitável lembrar de Igor Stravinsky. A parceria entre os dois foi criativa, intensa e revolucionária, marcando a dança do século 20. Mas Balanchine também tinha um outro grande amor musical — mais silencioso, mais íntimo, mais emocional: Piotr Ilitch Tchaikovsky.

Balanchine costumava dizer que “toda dança está contida na música de Tchaikovsky”. Para ele, a música do compositor russo não apenas acompanhava o movimento — ela o sugeria, o provocava, o tornava inevitável. A ligação não era apenas estética, mas pessoal. Ambos eram russos, formados na tradição imperial do balé clássico, e suas obras carregam, mesmo em momentos de leveza, uma densidade emocional e uma arquitetura grandiosa que Balanchine sabia ler como poucos.

“Toda dança está contida na música de Tchaikovsky.”
George Balanchine

Ao longo da vida, Balanchine criou ao menos 12 balés com música de Tchaikovsky. Alguns são releituras diretas do repertório clássico; outros, criações neoclássicas que dialogam com a tradição. Alguns se tornaram pilares do New York City Ballet e até hoje encantam plateias no mundo todo.

Aqui os mais populares

Serenade (1934)

Música: Serenata para Cordas em Dó maior, Op. 48
O primeiro balé que Balanchine coreografou nos Estados Unidos é também um dos mais amados. Com atmosfera onírica e formação coral de mulheres, é quase um ritual sobre o próprio ato de dançar. A música flui em camadas emocionais, e a coreografia responde com imagens de beleza suspensa.

Theme and Variations (1947)

Música: Movimento final da Suíte Orquestral nº 3, Op. 55
Homenagem explícita ao esplendor do balé imperial russo, com tutu clássico, coro feminino e estrutura formal. Um tour de force técnico e estilístico que resume a elegância e o virtuosismo do balé clássico com o refinamento do estilo Balanchine.

The Nutcracker (1954)

Música: O Quebra-Nozes, suíte completa
A versão de Balanchine para O Quebra-Nozes é talvez a mais tradicional e influente dos Estados Unidos. Criada para o New York City Ballet, é encenada todo fim de ano e se tornou referência para gerações. A música de Tchaikovsky aqui encontra sua tradução visual em cenas cheias de magia e precisão.

Tschaikovsky Pas de Deux (1960)

Música: Pas de deux originalmente composto para O Lago dos Cisnes, redescoberto nos anos 50
Virtuosismo puro. Balanchine pegou essa peça “perdida” e criou um pas de deux intenso e tecnicamente exigente, que virou peça obrigatória em concursos e galas. Uma conversa direta entre dois corpos e a exuberância da partitura.

Ballet Imperial (1941) / Tschaikovsky Piano Concerto No. 2

Música: Concerto para Piano nº 2 em Sol maior, Op. 44
Criado como uma homenagem a Petipa e à tradição acadêmica russa, esse balé mistura esplendor e clareza. Mais tarde, Balanchine retirou os cenários czaristas e o renomeou, deixando a dança e a música falarem por si.

Diamonds, de Jewels (1967)

Música: Sinfonia nº 3 em Ré maior, Op. 29
Última parte do balé triplo Jewels, é um tributo ao balé clássico. Evoca a tradição imperial com reverência e grandiosidade. A música de Tchaikovsky é moldada em um cenário coreográfico de linhas puras e emoção contida.

Além desses, Balanchine ainda criou outras obras com música de Tchaikovsky, como Mozartiana, Swan Lake (One-Act), Tchaikovsky Suite No. 3, Tschaikovsky Piano Pieces e adaptações ou fragmentos usados em apresentações e galas.

O legado dessa parceria não oficial

Embora Tchaikovsky tenha morrido décadas antes de Balanchine nascer, sua música foi, de certa forma, uma parceira viva na obra do coreógrafo. Onde Stravinsky representava o futuro, Tchaikovsky era a memória — mas uma memória viva, vibrante, que Balanchine nunca deixou de visitar. Seus balés com música de Tchaikovsky continuam a ser alguns dos mais amados do repertório, justamente porque unem o melhor de dois mundos: a profundidade emocional do romantismo com a inteligência coreográfica do modernismo.


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